A morte de Mirela dos Santos Kaluzny, de 28 anos, assassinada a facadas em Feliz Natal (MT), abriu uma disputa familiar pela guarda do filho dela, de 6 anos. De um lado, familiares de um homem que afirma ser o pai da criança querem levá-la para o Acre. Do outro, a mulher que atualmente cuida do menino afirma que ele vive com sua família desde o primeiro ano de vida, e que não pode entregá-lo a alguém sem que a situação seja esclarecida.
A criança foi registrada em Rio Branco (AC) em 2020 apenas com o nome da mãe e ainda nos primeiros anos de vida foi trazida para Mato Grosso.
A mulher que atualmente está responsável pelos cuidados da criança relatou que o menino chegou à casa da avó dela quando tinha cerca de 1 ano, após a mãe se mudar para Nova Mutum (MT). Segundo ela, a criança permaneceu sob os cuidados da família durante os anos seguintes, enquanto a mãe trabalhava.
Ela afirma que, em fevereiro de 2024, a Mirela chegou a fazer em cartório uma procuração pública autorizando a avó da cuidadora a representá-la em situações envolvendo a criança, como escola, atendimento hospitalar e até viagens.
O Portal Primeira Página teve acesso ao documento completo, que mostra a passagem da responsabilidade da criança por tempo indeterminado.
A cuidadora afirma ainda que a família providenciou vacinação e acompanhamento escolar da criança ao longo dos anos. Segundo ela, a mãe teria ficado períodos prolongados sem visitar o filho.
Família do suposto pai diz que criança foi escondida
A irmã do homem que afirma ser o pai da criança contou que a família só voltou a procurar pelo menino após a morte da mãe. Segundo ela, o homem, que atualmente também vive em Mato Grosso, conviveu com a criança quando ainda morava com a mãe no Acre, mas perdeu o contato depois que ela se mudou para Nova Mutum.
A familiar afirma que recebeu informações de que a criança estaria vivendo na cidade mato-grossense com uma mulher que seria responsável pelos cuidados dela. Segundo ela, a família tentou contato e pediu informações sobre o menino, mas não teria recebido fotografias ou confirmação suficiente sobre o estado da criança.
Em entrevista ao Portal Primeira Página, a possível tia também disse que o irmão chegou a registrar um boletim de ocorrência contra a cuidadora após o contato entre as partes. Até o momento a reportagem não teve acesso ao registro da ocorrência.
A família do suposto pai pretende levar a criança para o Acre, onde a avó do menino estaria disposta a assumir os cuidados.
Cuidadora diz ter receio de entregar a criança
Por outro lado, a mulher que está com a criança afirma que não pretende impedir o contato do menino com familiares biológicos, mas diz que não se sente segura em entregá-lo imediatamente a alguém que não consta no registro de nascimento.
Segundo ela, outras pessoas também teriam entrado em contato afirmando ser o pai da criança, o que aumentou a preocupação da família responsável pelos cuidados. Em entrevista, a mulher disse ainda que conversou diretamente com o homem que se apresenta como pai e tentou explicar toda a situação.
A mulher também argumenta que o menino não teria vínculo atual com a família paterna, já que cresceu em Nova Mutum sob os cuidados da avó dela e de outros familiares.
“Não posso tirar a criança daqui de imediato para entregar para uma pessoa que eu não conheço. A criança se tornou parte da nossa família. Minha avó criou, cuidou, levou ao hospital e tem um laço afetivo muito grande com ele”, disse em entrevista ao Portal Primeira Página.
A cuidadora diz que, apesar do conflito, não pretende afastar a criança de possíveis familiares biológicos e que está disposta a discutir a situação desde que haja segurança e comprovação sobre o vínculo familiar.
Questionada sobre os familiares de Mirela, a cuidadora afirmou que a avó materna da criança faleceu anos antes do crime de feminicídio. O reportagem tentou contato com uma suposta prima da vítima, mas até o fechamento do texto não obteve retorno.
Até o momento, segundo os relatos, a criança permanece em Nova Mutum, sob os cuidados da família que afirma criá-la nos últimos seis anos.
Feminicídio em Feliz Natal
A mãe da criança morreu na madrugada de domingo (6), em Feliz Natal. Segundo a Polícia Militar, moradores acionaram a equipe após ouvirem gritos em uma residência. A vítima foi encontrada ferida e morreu no local.
Um homem de 43 anos foi preso suspeito do crime. Conforme o boletim de ocorrência, ele teria discutido com a vítima e desferido golpes de faca. A Justiça converteu a prisão em flagrante em preventiva durante audiência de custódia realizada na segunda-feira (7).
Nesta terça-feira (8), foram divulgadas imagens de uma câmera de segurança que mostram os minutos que antecederam o crime. No registro a vítima aparece chegando à uma residência acompanhado de um homem. A pessoa que aparece no vídeo não é o suspeito preso, o que pode indicar a participação de um segundo homem no crime.
O caso segue sendo investigado pela Polícia Judiciária Civil.
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