A mentira é uma construção mental de uma falsa realidade, uma afirmação que se opõe à verdade, uma falsidade que segue uma estrada diferente do caminho real, fingindo ser este, geralmente com o objetivo de obter vantagens. Mentir é um ato deliberado, que tem algum objetivo ou simplesmente nenhum. Serve para enganar uma pessoa ou toda uma comunidade para obter benefícios; é usada também como um mecanismo de defesa na tentativa de evitar punições; ou simplesmente para criar ilusões e ostentar uma falsa grandeza.
Seja a que fim se destine, a mentira é um fenômeno universal, usada pelo ser humano desde a infância e se faz presente nos diferentes povos e culturas. Algumas vezes é usada em benefício próprio; outras vezes para agradar outras pessoas. É óbvio que há momentos em que a mentira pode ser bem-vinda e até necessária, como para salvar a própria vida ou a vida de outrem, casos em que a mentira é moralmente aceitável, mas, na maioria das vezes, é algo ruim e imoral.
Mentir não é tão fácil quanto externar a verdade, há necessidade de um trabalho cognitivo na produção de uma narrativa diferente da realidade e mais, sintonizar o conteúdo produzido com o componente emocional. Há ainda um desgaste cognitivo que exige muito da memória para que a narrativa seja explanada sempre do mesmo jeito, talvez o maior desafio enfrentado pelo mentiroso, que depois de determinado tempo, geralmente longo, passa a ser desacreditado devido a pequenas contradições em suas narrativas. O grande problema é que a perda da confiança daqueles que o cercam é algo que vai acontecer mais cedo ou mais tarde e, pior ainda, é difícil reconquistar a confiança perdida.
Mentiras raras, assim como situações que facilitam esse comportamento, como uso e drogas, são vistas como comportamentos não patológicos ou sintomas de um transtorno em curso. Mas, quando a mentira é recorrente e parece não haver histórico de uso de substâncias psicoativas, podemos estar diante de um transtorno da personalidade, que envolve hábitos e impulsos, conhecido como Mitomania, uma mentira patológica, um hábito incontrolável e compulsivo de mentir, sem objetivo de ganhos, nem como forma de evitar punições, apenas mentir por mentir, muitas vezes confundindo realidade com fantasia.
A diferença entre a mitomania e a mentira comum ou não patológica é que esta visa algum ganho ou benefício, enquanto a mitomania é um comportamento compulsivo, sem necessidade de alguma vantagem, a não ser a atenção e admiração que as histórias podem receber.
Trata-se a mitomania de narrativas inconsistentes, que mudam de versão nos diferentes ambientes em que são contadas. Quando confrontados, os mitômanos ou mitomaníacos não reconhecem nem admitem que suas histórias são inverídicas; em vez disso, narram novos fatos, também falsos, para justificar suas falácias. É mentira em cima de mentira.
A mitomania é um hábito que leva o mitômano não apenas ao prazer gerado pela contemplação de suas histórias, mas também ao sofrimento pela apreensão ligada ao risco de contradizer-se ou contar uma nova versão de suas narrativas. Mais cedo ou mais tarde as consequências surgem e podem ser desagradáveis para o mitomaníaco, com perda da confiança e, consequentemente, de amizades, relacionamentos e carreiras profissionais, levando-o à angústia e ao isolamento.
Tratamento existe, mas raramente o mitômano procura ajuda profissional, até mesmo porque vê seu comportamento como um hábito, que reconhece como um exagero inofensivo ou, no máximo, como ruim, todavia não como um problema de saúde. Quando aceita fazer tratamento, geralmente por insistência de terceiros, pode ter benefício com o acompanhamento psicológico. Alguns casos podem necessitar de tratamento psiquiátrico para controle da ansiedade e do comportamento impulsivo de mentir.
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