Era véspera da convenção estadual do partido que formalizaria, no dia 1º de agosto, a candidatura à reeleição de Nelsinho Trad (PSD-MS) ao Senado Federal. Eis que surgiu uma reunião decisiva no meio do caminho! Ao podcast Política de Primeira, o senador revelou os bastidores desse encontro com aliados que o fizeram desistir da disputa para ser 1º suplente do ex-governador Reinaldo Azambuja na chapa do PL ao Senado. (assista ao episódio completo no Youtube acima ou clique no link abaixo para ver ou ouvir o podcast no Spotify)
“No momento que chegou, em que eu sentado na frente do governador do Estado [Eduardo Riedel], da senadora Tereza Cristina [presidente estadual do Progressistas], do vice-governador [Barbosinha], do ex-governador Reinaldo Azambuja [presidente estadual do PL e candidato ao Senado], do presidente do Republicanos, Beto Pereira, da presidente do União Brasil, Rose Modesto, do presidente do PSDB, Pedro Arlei Caravina, e do presidente do MDB, Waldemir Moka, olharam para mim, eles já estavam reunidos há algum tempo e falaram assim: ‘Nós não queremos fazer a campanha sem você. Você tem que tomar uma decisão e se inserir aqui junto com a gente, porque você ajudou a construir tudo isso.’ Rapaz, na hora foi um turbilhão de coisa que passou na minha cabeça e eu procuro relembrar o que eu passei naquele momento e eu não consigo ter um discernimento exato de quem que era que estava se pronunciando ali, mas algo me iluminou e me fez tomar essa atitude.”
“Até vendo um desprendimento do Reinaldo Azambuja, que falou: ‘apesar de eu já ter convidado o primeiro suplente que está aqui sentado ali atrás, e estava lá o Dr. Felipe Mattos, por você ele sai e por você declino o convite a ele e abro esse espaço.’ Então foi tudo assim um gesto que muitas das vezes na política é difícil de ter. É muito difícil de ter isso na política. A política é uma fábrica de discórdia, de decepção, de traição, de confusão. Mas ali estava um ambiente tão harmônico no sentido de unir a todos que isso me deu energia, me deu força para tomar a decisão que eu tomei.”
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“Toda decisão é um ato muito solitário do ser humano. Quando você decide alguma coisa, é você que decide. Mas o que margeia isso são as circunstâncias que fazem com que você use a razão. E foi dessa forma que eu procedi. Circunstâncias essas da legislação eleitoral que não permite coligação de candidatura avulsa. Circunstâncias essas que a alternativa que eu teria seria migrar para alguma outra candidatura que apartaria daquela que eu acredito que é do governador Eduardo Riedel. E circunstâncias essas que com um gesto como esse vai muito de encontro com a minha personalidade, que é uma personalidade conciliadora, de construir pontes e não valas e muros que normalmente separam as pessoas. Em cima disso, usando um critério muito arrazoado, entendi que esse gesto uniria todo o campo político que eu pertenço, que é centro-direita e com isso fazer com que a gente possa, unidos, ter um embate mais apropriado com os nossos adversários.”
Nelsinho Trad destacou que a desistência começou a ser ventilada dois dias antes da convenção.
“Os números estavam mostrando que eu tinha índice. A pesquisa qualitativa mostrava que eu era competitivo. Eu estava com a campanha montada, toda a equipe de marketing, meus colaboradores. Apoio político maciço. Dos 79 prefeitos, eu tinha com certeza 60, com certeza absoluta. Muitos deles constrangidos. ‘Cara, como que nós vamos fazer? Como é que vai ser isso na hora que o trem começar a rodar?’ Isso pesou para mim também, sabia? Falei: cara, eu vou livrar de um constrangimento tanta gente. Porque na hora que a campanha começa, uma coisa é a pré-campanha, a convenção, a festa, mas na hora que aperta o play, aí, meu amigo, bote a caneleira e arruma a trava da chuteira porque é bicuda para tudo que é lado. E ia sobrar para todo mundo. Eu ia brigar contra o meu grupo, como é que eu ia fazer isso, cara? Como que eu ia fazer isso? E a legislação não permitiria que os prefeitos em outro partido que estavam que quisessem me apoiar pudessem fazer um palanque para mim.”
“O meu material ia ter que sair sozinho, tudo em branco, a não ser o candidato a presidente [da República] que é o [Ronaldo] Caiado. Então essa foi outra condição que foi colocada na discussão deles respeitarem isso. Eles respeitaram, nós respeitamos. Você tem candidato a presidente, você tem todo o nosso respeito. O nosso é um, o teu é outro. E vida que segue.”
“Gerou muita frustração nessa situação. Alguns botaram a cara tapa, foram no meio dos assessores até questionados. Uma coisa eu preciso dizer para vocês e pro público: em nenhum momento nem o Reinaldo nem o Riedel fizeram algum ato que fosse me constranger. Pelo contrário, quem ia lá falar: ‘eu sou Nelsinho, tem algum problema?’ ‘Não, não tem. Pode ir.’ Em nenhum momento. Ocorre que chegou num instante que nós estávamos pendurados numa consulta do Tribunal Superior Eleitoral para saber se eu poderia sair avulso tendo a chapa majoritária, como tem dois candidatos a senador: Reinaldo [Azambuja] e [Capitão] Contar. O TSE não respondeu até hoje. E quando ele não responde, vale a interpretação da eleição anterior, que foi a que tinha só um senador, que foi a Tereza Cristina que disputou junto com Mandetta. Ali estava dizendo assim: não podia ter coligação avulsa. A chapa era aquela e ponto final. Na minha eleição de 18 podia, tanto é que eu saí junto com Marcelo Miglioli, Reinaldo governador, e avulso saiu a Soraya Thronicke, linkado a essa coligação. Só que isso foi em 18. Na eleição de 2022 veio essa interpretação. E quando não se responde a consulta imediatamente posterior à última, vale a anterior.”
Para o senador, desistir da reeleição foi uma decisão dolorosa e é algo que ainda consome.
“Se eu falar que não eu estaria mentindo e eu não sou de mentir. Consome, mas eu sou médico e cirurgião, tenho que exercitar a frieza. Isso para mim já é página virada. Já foi. Eu dei um passo ao lado, fui muito bem acolhido pelo lado que eu ajudei a construir. Nós temos uma missão que é vencer as eleições com o governador Riedel, que eu acredito que é o melhor pro Mato Grosso do Sul, não tenho dúvida disso, e vencer as eleições com Reinaldo Azambuja e na chapa oficial com Capitão Contar.”

O que Nelsinho Trad vai fazer depois do fim do mandato a partir de 2027?
“Eu sonho que estou operando tamanha a força que a medicina tem dentro de mim. Os meus pacientes mais antigos costumam dizer que eu sou melhor médico do que político. Então isso me dá realmente um sentimento muito forte. E se eu ficar em Brasília, procurar uma sala para poder atender, porque eu sei atender bem, eu sou bom naquilo que eu faço. E se eu vier para Campo Grande, meu consultório está ativo. Para você ter uma ideia, dentro do meu consultório tem quatro urologistas, quatro na mesma especialidade. À tarde lá aparece um dia de vencimento de banco que é assim de gente. É verdade. É uma coisa assim que isso me engrandece, porque quem montou isso fui eu. Foi esse cara aqui. E os que estão lá são muito bem informados, todos qualificados, atendendo as pessoas. Então não descarto isso, até porque eu atendo até hoje. Então isso não está fora da minha alçada. Agora, eu estando junto com o Reinaldo e ele estando eleito [senador], eu tenho certeza que eu vou ter muito como contribuir. Falar: ‘Reinaldo, não bate nessa porta aqui porque ela não vai, não é boa, não é produtiva, você vai só perder energia aqui. Melhor você ir naquela lá.’ Porque graças a Deus eu consegui dentro de Brasília um reconhecimento que por oito anos de trabalho ininterrupto poucos têm. As pessoas me reconhecem. Eu bato na porta do governo Bolsonaro, ela se abria. Eu bato na porta do governo Lula se abre. Ou seja, o que quer dizer isso? Competência, preparo e saber se estabelecer. Pro bem de quem? Do Mato Grosso do Sul e de Campo Grande.”
Questionado se disputaria a eleição para prefeitura de Campo Grande em 2028, Nelsinho Trad deixou a resposta em aberto.
“Na política, muitas vezes você não é dono da sua vontade própria. Você tem que submeter ela ao grupo que você pertence, ao ambiente que está rondando na época. E aí, se tiver o desafio, por que não? O futuro a Deus pertence.”