Pais perfeitos existem?

Costuma-se dizer que perfeito apenas Deus e que toda a humanidade tem muitas imperfeições. Por isso começamos o texto de hoje com a resposta: claro, se a humanidade é imperfeita, os pais como seres humanos também o são, ou será que a beleza da paternidade, fundida à beleza e à magia da maternidade conseguem alcançar a perfeição? 

Ora, matematicamente falando, ser perfeito é ser cem por cento adequado, correto, sem um mínimo defeito. De um ponto de vista mais biopsicológico, a imperfeição estimula a luta pela sobrevivência e a busca de inovações. A mim, parece que a perfeição é um ponto móvel, que quando alcançado, nos envia a um ponto adiante, tornando-se assim inalcançável, algo que nos faz seres vivos em constante luta ou nos adoece. 

A sabedoria popular criou a frase perfeita, melhor dizendo adequada – “Criar os filhos, não é como seguir uma receita de bolo”. Partindo dessa premissa, o que pode ser uma boa criação dos filhos, é possível a criação perfeita? É claro que é inegável que se consegue observar erros grosseiros da criação, geralmente algo que extrapola os graus máximos e mínimos de permissividade. O ideal talvez seja nem mais, nem menos; ou quem sabe, algumas vezes mais, algumas vezes menos. Não podemos esquecer, porém, que muitas das ocorrências da vida são imprevisíveis e nesses casos podemos errar com intenção de acertar. Erros e acertos também não são consensos para todos, visto que alguns julgam errado, aquilo que outros fazem, repetidamente, como certo. 

Os pais buscam um filho que cresça sem erros e sem traumas, mas esquecem que filhos são seres humanos criados para a vida e não programados para a perfeição; não são máquinas, são pessoas com um órgão extremamente complexo, chamado cérebro, onde a personalidade é moldada dia a dia, desde o nascimento até completar-se totalmente no início da vida adulta. Cada indivíduo tem sua própria personalidade, diferente da personalidade do outro, por isso cada um interpreta os fenômenos da vida ao seu próprio modo de vê-los, de acordo com sua personalidade. 

As redes sociais, por sua vez, transformaram-se em verdadeiras armadilhas de perfeição, produzindo vídeos de famílias perfeitas, com pais que primaram pela educação dos filhos e que teriam conseguido realizar essa façanha. Uma verdadeira armadilha do mundo tecnológico moderno, responsável por causar nos pais sentimentos de incapacidade à vida parental, imbuindo-lhes culpa e certeza da impotência frente às necessidades necessárias à educação dos filhos. 

A criação não é um projeto estático, é um processo dinâmico, cheio de obstáculos, de fatos previstos e imprevistos, porque, acima de tudo, é humana. Pais cem por cento perfeitos, que formam filhos da mesma maneira, é algo irreal, utópico. É óbvio que há condutas tomadas pelos pais reconhecidas como erradas por consenso. Reconhecer o erro, pedir desculpas e consertar a falha, é transmitir ao filho o ensinamento de como enfrentar as frustrações e desenvolver resiliência. É certo também que é necessário ensinar o filho a levantar após cada queda, em vez de fazer isso por ele. Fora isso é cada família com seu bolo.

Não obstante tudo que pontuamos, podemos falar de bons pais, aqueles que procuram, dentro de suas limitações, ser mais presentes na vida dos filhos; aqueles que atentam para o fato de que errar é humano e quando isso ocorre, o mais importante é reconhecer seus erros. É importante, também, usar o sim e o não no processo educativo, sempre que estes forem necessários. 

Os pais precisam compreender que os filhos não são seus prolongamentos e que devem trilhar sua própria estrada. Para que sejam bons no exercício parental, os pais não precisam ser perfeitos, necessitam apenas ser normais. Filhos não querem super-heróis, querem apenas pais reais, com erros e acertos e isso está longe da perfeição. 

Se a pergunta é: pais perfeitos existem? A resposta é NÃO. Mas existem pais reais, que amam, ensinam, elogiam e criticam, quando necessário. Não sejam perfeitos, sejam apenas pais.

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