Mato Grosso pode enfrentar apagão de biomassa com avanço da agroindústria

O crescimento acelerado da agroindústria em Mato Grosso e a demanda cada vez maior por energia renovável têm colocado um novo desafio no radar do setor: garantir oferta suficiente de biomassa sustentável para abastecer as indústrias. Esse é um dos temas do novo episódio do podcast Agro de Primeira MT, que recebe o engenheiro florestal e diretor da Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta), Fausto Takizawa.

Segundo Takizawa, o problema já deixou de ser uma preocupação futura para se tornar uma realidade. O principal gargalo está na produção de madeira de florestas plantadas, especialmente de eucalipto, principal fonte de biomassa utilizada pelas usinas de etanol de milho e por outras agroindústrias instaladas em Mato Grosso.

“Hoje já existe esse déficit da biomassa de florestas plantadas em Mato Grosso. Se todas as usinas de etanol de milho utilizassem 100% de biomassa sustentável proveniente de plantações, haveria necessidade de cerca de 198 mil hectares de eucalipto. No entanto, hoje temos aproximadamente 165 mil hectares, ou seja, já existe um déficit de 33 mil hectares”, afirma.

Veja o episódio completo:

O diretor explica que a rápida expansão das agroindústrias, principalmente das usinas de etanol de milho, fez a demanda crescer mais rápido do que a capacidade de formação de novas florestas comerciais.

“O grande boom veio com as usinas de etanol de milho. O Mato Grosso passou a industrializar cada vez mais sua produção agrícola e, com isso, aumentou muito a necessidade de biomassa. A tendência é que esse consumo continue crescendo nos próximos anos”, destaca.

Dependência de fontes temporárias preocupa

Enquanto a área de florestas plantadas não acompanha essa expansão, boa parte da biomassa utilizada pelas indústrias ainda vem da retirada vegetal autorizada, de resíduos de planos de manejo florestal e de resíduos agrícolas. Para Takizawa, esse modelo não oferece segurança no longo prazo.

“A supressão vegetal é um estoque que só diminui. É como um copo cheio que vai sendo esvaziado. Se não houver planejamento para ampliar as florestas plantadas, o risco é faltar biomassa para abastecer as indústrias”, alerta.

Além do risco de desabastecimento, o especialista afirma que a situação pode trazer impactos jurídicos e para a imagem do estado e das empresas, em especial diante das exigências crescentes dos mercados consumidores por produtos mais sustentáveis.

Produção exige planejamento de longo prazo

Diferentemente das culturas anuais, como soja e milho, a produção de biomassa por meio do eucalipto demanda tempo. O ciclo entre o plantio e a colheita varia entre seis e sete anos, o que exige planejamento antecipado e segurança para investidores e produtores. Segundo o diretor da Arefloresta, esperar o problema se agravar pode tornar a solução ainda mais difícil.

“O plantio do eucalipto é para ontem. São de seis a sete anos entre plantar e colher. Se deixarmos para agir apenas quando a demanda aumentar ainda mais, vamos enfrentar dificuldades para abastecer a agroindústria”, afirma.

Ele acrescenta que o estado possui áreas hoje subutilizadas que poderiam ser destinadas ao reflorestamento comercial, permitindo ao produtor diversificar a renda sem competir diretamente com as principais culturas agrícolas.

Oportunidade para produtores e para a economia

Além de garantir segurança energética para a agroindústria, Takizawa acredita que a expansão das florestas plantadas pode abrir novas oportunidades econômicas para o Estado.

Além da produção de biomassa, a madeira pode abastecer segmentos como construção civil, papel, celulose, móveis, tecidos e diversos produtos industriais de maior valor agregado.

“A biomassa é apenas o primeiro passo. Quando Mato Grosso amplia sua base de florestas plantadas, abre um enorme portal de oportunidades para novas indústrias, gera renda, empregos e fortalece uma economia de base florestal sustentável”, conclui.

Na avaliação do especialista, a combinação entre planejamento, segurança jurídica, incentivos ao reflorestamento e compromisso das agroindústrias será determinante para evitar um futuro déficit ainda maior e garantir que o crescimento industrial de Mato Grosso.

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