O primeiro semestre de 2026 terminou com números históricos para as exportações de carne bovina de Mato Grosso, mas o cenário para os próximos meses já preocupa o setor. A redução das compras pela China, principal destino da proteína produzida no estado, e a entrada em vigor de novas exigências ambientais da União Europeia devem dificultar o ritmo dos embarques no segundo semestre.
Dados do setor mostram que Mato Grosso exportou mais de 511 mil toneladas de carne bovina entre janeiro e junho deste ano, movimentando cerca de US$ 2,41 bilhões. Apesar do desempenho recorde, representantes da cadeia produtiva avaliam que o mercado internacional passa por mudanças que exigirão adaptação dos frigoríficos e produtores.
Segundo o coordenador de Inteligência de Mercado do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Rodrigo Silva, o mercado da carne é dinâmico e a redução temporária das compras chinesas deve gerar impacto, mas não interromper completamente os embarques.
“O mercado é sempre dinâmico. Claro que isso traz dificuldades, uma vez que o principal cliente diminui a intensidade das compras. Mas a China contabiliza a entrada da mercadoria no país, e não a saída do Brasil. Como o transporte leva cerca de 40 dias, a expectativa é que alguns embarques voltem a ocorrer no fim de outubro”, explicou.
China atinge limite de importações
O principal fator de preocupação é que a China atingiu a cota anual de importação de carne bovina sem cobrança de tarifa adicional.
Neste ano, o limite para a carne brasileira foi fixado em 1,106 milhão de toneladas. Como parte dos embarques realizados no fim de 2025 entrou na contabilidade de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que o Brasil conseguirá embarcar cerca de 900 mil toneladas para o mercado chinês neste ano.
O volume representa pouco mais da metade do exportado no ano passado.
Segundo o presidente da Abiec, Rodrigo Perosa, a redução da cota obrigará toda a cadeia produtiva a rever estratégias.
“Quando tivemos o estabelecimento das cotas, houve uma redução de aproximadamente 35% da demanda. Saímos de cerca de 1,7 milhão de toneladas para pouco mais de 1,1 milhão. Isso faz com que tenhamos de repensar todo o modelo implementado no Brasil. O país atingiu um alto grau de produção e produtividade, mas o principal mercado que absorvia essa carne não demandará mais o mesmo volume pelos próximos três anos”, afirmou.
China define o limite
Em 2026, a cota destinada à carne brasileira foi fixada em 1,106 milhão de toneladas.
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Contagem ocorre na chegada
A carga entra na cota quando chega aos portos chineses, e não quando deixa o Brasil.
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Embarques antigos entram na conta
Parte da carne enviada no fim de 2025 chegou à China em 2026 e consumiu uma parcela da cota deste ano.
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Cota atingida encarece o produto
A exportação pode continuar, mas passa a sofrer uma tarifa adicional, reduzindo a competitividade da carne brasileira.
É o volume que o Brasil deve conseguir enviar ao mercado chinês em 2026, segundo estimativa da Abiec.
União Europeia também preocupa
Além do mercado chinês, o setor acompanha com atenção a entrada em vigor das novas regras da União Europeia para importação de produtos agropecuários.
As exigências passam a valer em 3 de setembro e estabelecem critérios relacionados à rastreabilidade e ao combate ao desmatamento.
Embora represente cerca de 5% do volume exportado pelo Brasil, o mercado europeu é considerado estratégico por remunerar melhor determinados cortes bovinos.
Segundo Rodrigo Perosa, perder espaço nesse mercado significaria reduzir a rentabilidade das exportações.
“A União Europeia representa cerca de 5% do volume exportado, mas é um mercado de alto valor agregado. Ela compra cortes que muitas vezes não têm o mesmo destino na Ásia. Por isso, é importante que o Brasil mantenha esse mercado aberto e continue atendendo às exigências”, destacou.
Expectativa é de adaptação
Apesar das dificuldades previstas, o setor não trabalha com perspectiva de paralisação das exportações, mas sim de uma reorganização dos embarques e da busca por novos mercados.
A expectativa é que a redução das compras chinesas seja parcialmente compensada ao longo dos próximos meses e que o Brasil consiga atender às exigências internacionais para manter sua competitividade.