O proprietário da garagem AllanCar, em Cuiabá, investigada pela Polícia Civil após fechar as portas repentinamente e deixar clientes no prejuízo, reapareceu e alegou que ‘sumiu’ por conta de ameaças e complicações relacionadas a dívidas com agiotas. A justificativa foi apresentada em uma nota divulgada nas redes sociais da empresa nesta segunda-feira (9), que até então estavam desativadas.
Apesar da publicação da nota, até a noite desta segunda, Allan Rogério dos Santos, apontado como proprietário da garagem, não se apresentou na Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon). O empresário é procurado para prestar esclarecimentos e também não constitui defesa para acompanhar o caso.
A AllanCar passou a ser alvo de investigação após clientes relatarem que a empresa fechou as portas repentinamente, sem concluir negociações de veículos, efetuar pagamentos prometidos ou entregar documentações. O caso já soma mais de 10 vítimas identificadas e a Polícia Civil acredita que esse número possa aumentar conforme novas denúncias forem registradas.
Nos comentários da publicação em que a empresa apresentou sua versão dos fatos, diversos consumidores afirmaram ter sido lesados. Muitos relataram dificuldades para obter respostas da garagem e cobraram uma solução para os prejuízos sofridos.

Cliente relata prejuízo de R$ 50 mil
Uma das clientes afetadas, que preferiu não se identificar, contou que adquiriu um veículo por meio de financiamento integral junto à AllanCar. Segundo ela, o banco chegou a liberar R$ 22 mil para a empresa, mas o automóvel apresentou problemas graves após a compra.
De acordo com o relato, o veículo apresentava falhas no motor e acabou sendo devolvido à garagem para reparos. Desde então, ela afirma não ter recebido mais informações sobre o paradeiro do carro nem sobre o cancelamento do financiamento.
Em entrevista ao Portal Primeira Página, a vítima relata ainda que o prejuízo se aproxima de R$ 50 mil. A cliente também informou que tenta contato com a empresa há cerca de um mês sem sucesso e que já registrou boletim de ocorrência sobre o caso.
“Eles falaram que iam solucionar o problema do carro e sumiram. O carro está com eles. Espero que a justiça seja feita. O tanto de gente que esse rapaz enganou. Estava realizando um sonho e ele se tornou em um pesadelo. Muito triste”, desabafou.
Veja o vídeo do carro:
Empresa atribui crise a prejuízos e dívidas
Na nota divulgada, a AllanCar afirma que enfrentou uma grave crise financeira após um período de expansão dos negócios. Segundo a empresa, investimentos em mentorias empresariais, mudança para uma estrutura maior, aumento dos custos operacionais e sucessivos prejuízos comprometeram o fluxo de caixa.
A empresa sustenta que, para tentar manter as atividades, recorreu a “empréstimos informais”, o que teria agravado o endividamento. Ainda conforme a nota, clientes e credores passaram a cobrar valores pendentes e pessoas ligadas a agiotas teriam comparecido ao estabelecimento, retirando equipamentos, documentos e veículos que estavam no local.
“Agiotas e outras pessoas compareceram ao estabelecimento e, aproveitando-se da ausência do responsável, que estava em viagem, coagiram os colaboradores presentes. Na ocasião, foram retirados do local computadores, impressoras, aparelhos celulares, geladeiras, contratos, documentos empresariais e diversos veículos que se encontravam expostos na loja”, disse em nota.
A AllanCar também alega que perdeu o acesso ao imóvel onde funcionava a garagem após a proprietário do local trocar os cadeados. No comunicado, a garagem sustenta que busca renegociar débitos e nega ter agido com a intenção de causar prejuízos aos clientes.
“O setor jurídico da empresa está providenciando as medidas cabíveis em face desses credores que deliberadamente estão impedindo o exercício da atividade da empresa. Isto posto, a empresa reforça que nunca houve a intenção de causar prejuízo a terceiros, obter vantagem indevida ou ocultar patrimônio”, finalizou a nota.
A Polícia Civil segue apurando as denúncias registradas contra a empresa.
Leia a nota completa publicada pela empresa:
“A empresa passou por um período de expansão após investimentos significativos em mentorias empresariais de elevado custo. Com base nas orientações recebidas, foi realizada a mudança para um ponto comercial maior, com investimentos em estrutura física, aumento dos custos operacionais e contratação de novos colaboradores, visando atender ao crescimento projetado.
Entretanto, diversas vendas realizadas envolveram veículos que posteriormente apresentaram problemas mecânicos relevantes, ocasionando elevados custos de pós-venda, reparos, garantias, devoluções e acordos com clientes. Em muitos casos, foram concedidas garantias e suportados custos que ultrapassavam as obrigações legais, com o objetivo de preservar a reputação da empresa e manter a satisfação dos consumidores.
Esses fatores geraram sucessivos prejuízos financeiros e comprometeram o fluxo de caixa da empresa, dificultando o pagamento de salários, aluguel e demais despesas operacionais. Na tentativa de manter as atividades e honrar os compromissos assumidos, houve necessidade de obtenção de empréstimos informais junto a terceiros, circunstância que agravou ainda mais a pressão financeira já existente.
Importante destacar que, mesmo diante das dificuldades, a empresa permaneceu em funcionamento e continuou operando no mesmo endereço, justamente para transmitir segurança aos clientes e credores, muitos dos quais já haviam recebido pagamentos parciais dos valores devidos.
Após clientes e credores procurarem a empresa para cobrar valores em aberto, indivíduos ligados a credores particulares, agiotas e outras pessoas compareceram ao estabelecimento e, aproveitando-se da ausência do responsável, que estava em viagem, coagiram os colaboradores presentes. Na ocasião, foram retirados do local computadores, impressoras, aparelhos celulares, geladeiras, contratos, documentos empresariais e diversos veículos que se encontravam expostos na loja, fato esse já relatado à polícia por meio do competente boletim de ocorrência, onde serão tomadas as medidas cabíveis em face desses.
Em razão desses acontecimentos, a empresa perdeu o controle de documentos, equipamentos e parte significativa de seus ativos. Posteriormente, o imóvel foi retomado pelo proprietário, sem qualquer medida judicial ou autorização da empresa, tendo esse alterado os cadeados e restringiu o acesso ao local, de modo que o encerramento das atividades naquele endereço não ocorreu por iniciativa voluntária da empresa, mas sim por ilegalidade dos credores que tomaram os bens da empresa e impediram o reingresso da empresa no local.
Diante desses fatos o setor jurídico da empresa está providenciando as medidas cabíveis em face desses credores que deliberadamente estão impedindo o exercício da atividade da empresa.
Isto posto, a empresa reforça que nunca houve a intenção de causar prejuízo a terceiros, obter vantagem indevida ou ocultar patrimônio. A crise financeira decorreu de dificuldades empresariais progressivas, agravadas pelos elevados custos operacionais, prejuízos decorrentes das vendas realizadas, despesas de pós-venda, garantias concedidas e endividamento acumulado e hoje, por culpa exclusiva dos credores, não podem retomar a atividade empresarial, uma vez que esses tomaram os ativos e o local da empresa.
Por isso a empresa reforça que a intenção sempre foi buscar alternativas para reorganizar a situação financeira e quitar as obrigações pendentes perante clientes e demais credores, motivo pelo qual tem empregado medidas de contato com todos os credores visando obter meios de renegociação para adimplir todos os débitos”.
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