Em meio às comemorações dos 307 anos de Cuiabá, o Centro Histórico, onde nasceu a capital, um dos principais polos comerciais da cidade, também carrega uma realidade que preocupa quem trabalha no local: a insegurança constante, especialmente entre joalherias e lojas de compra e venda de ouro.
O Primeira Página foi até o Centro e ouviu os relatos de alguns lojistas do ramo em relação à falta de segurança. Apesar de não haver um levantamento oficial da Prefeitura de Cuiabá ou do Governo de Mato Grosso, comerciantes estimam que existam entre 30 e 40 estabelecimentos que trabalham com o metal nobre apenas na região central.
A concentração de ouro, no entanto, atrai criminosos e transforma a rotina dos lojistas. Mesmo com uma base da Polícia Militar instalada nas proximidades, comerciantes apontam a sensação de abandono e medo frequente. Eles também afirmaram que muitos colegas decidiram encerrar as atividades ou deixar a região por não se sentirem seguros.
E não é preciso andar muito para observar diversos imóveis com placas de venda ou aluguel no calçadão e em ruas próximas.

O empresário Wanderley Martins Santos mantém uma joalheria no Centro há seis anos. A história da família no ramo, porém, é mais antiga — o pai dele, de 73 anos, atua há três décadas no mesmo segmento e já foi vítima de assaltos três vezes. O caso mais recente aconteceu no dia 26 de março deste ano, onde ele chegou a ser baleado.
Segundo Wanderley, os criminosos se passaram por clientes para conseguir acesso ao estabelecimento.
“Um deles chegou com uma peça de ouro dizendo que queria vender e quando meu pai foi verificar se era ouro ou não, ele sacou a arma e anunciou o assalto. Quando meu pai se afastou com a cadeira, ele assustou e atirou no meu pai, acertando o braço dele”, relatou.
O idoso foi socorrido pelo próprio filho e levado ao Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), onde passou por cirurgia. Apesar de estar fora de perigo, ele ainda não conseguiu retomar as atividades por causa das dores. A bala permanece no corpo, já que não pôde ser retirada devido à calcificação no osso.
Após o crime, o suspeito fugiu de moto e, até o momento, não houve prisão. “Registramos boletim de ocorrência, a polícia está nos comunicando, mas não recebemos informações sobre nenhuma prisão”, disse Wanderley.
Na mesma data, outra joalheria foi alvo de criminosos na Rua Antônio João, também em Cuiabá.
Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que uma mulher armada entra no local, recolhe diversas joias e foge com os itens em uma sacola. A vítima relatou à polícia que teve joias e relógios roubados, com prejuízo estimado em R$ 25 mil.
Dois dias depois, a mulher de 26 anos e um homem de 24, apontados como autores do crime, foram presos, e parte dos objetos foi recuperada.
Em fevereiro, outro episódio chamou atenção: uma quadrilha armada invadiu uma joalheria na Avenida Tenente Coronel Duarte e levou joias, celulares, dinheiro e um carro de luxo. Câmeras de segurança flagraram o momento em que clientes e funcionários foram rendidos.
Segurança particular e intimidações
Mesmo com a presença de uma base da Polícia Militar, parte dos lojistas afirma que precisa arcar com segurança privada para conseguir trabalhar. Wanderley, por exemplo, gasta cerca de R$ 17 mil por ano com o serviço particular.
Também há relatos de que policiais intensificam as rondas apenas nos dias seguintes a casos de roubo, mas a presença diminui com o passar do tempo. “Depois que acontece algum assalto, eles costumam passar, mas logo volta ao normal, que é não ter ronda. Por isso tem lojista que paga segurança particular há 30 anos ou mais”, disse um comerciante, que preferiu não se identificar.
Alguns trabalhadores evitaram falar abertamente por medo de retaliação. Parte deles afirmou que, quando precisou de atendimento da PM, não foi assistida.
Há ainda relatos de intimidação após críticas ao serviço da Polícia Militar. Em alguns casos, comerciantes teriam sido pressionados a tirar fotos e gravar vídeos ao lado de policiais, para enviar no grupo de WhatsApp em conjunto com a PM, afirmando que a situação estava normal, mesmo sem terem sido atendidos.
O Primeira Página entrou em contato com a Polícia Militar para solicitar informações sobre o policiamento no Centro Histórico de Cuiabá e sobre as alegações de alguns dos comerciantes, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.
Comércio de ouro vive entre medo, prejuízos e falta de apoio
Em uma das regiões mais tradicionais de Cuiabá, joalherias e lojas de compra e venda de ouro relatam assaltos, insegurança recorrente, gastos extras com vigilância privada e ausência de organização coletiva.
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estabelecimentos do ramo são estimados na região central
por ano é o gasto relatado por um lojista com segurança privada
setor hoje não tem associação ativa para representação coletiva
Concentração
Centro reúne forte presença de lojas ligadas ao comércio de ouro
Comerciantes estimam que dezenas de estabelecimentos atuem no ramo na região, apesar da falta de dados oficiais atualizados.
Alvo
Mercadorias de alto valor ampliam a sensação de vulnerabilidade
A concentração de ouro e joias é apontada pelos lojistas como um fator que atrai criminosos e muda a rotina de trabalho.
Violência
Empresário relata assalto em que o pai foi baleado no braço
Segundo o comerciante, os criminosos se passaram por clientes para entrar na loja; a vítima passou por cirurgia e segue em recuperação.
Despesa
Segurança privada virou custo fixo para parte dos lojistas
Sem confiar na permanência das rondas, comerciantes afirmam assumir gastos extras para manter os estabelecimentos funcionando.
Pressão
Parte dos trabalhadores evita falar abertamente por medo
Lojistas relataram receio de represálias e citaram constrangimentos após críticas sobre a segurança no Centro Histórico.
Estrutura
Setor opera sem associação ativa e sem rede de apoio consolidada
A ausência de representação coletiva e de estratégias específicas é apontada como outro obstáculo para quem atua no segmento.
Infográfico elaborado pelo Primeira Página em 07/04/2026
Falta de rede de apoio agravam cenário
A ausência de dados oficiais sobre o setor de ouro em Cuiabá evidencia um problema que vai além da segurança: a falta de organização e de uma rede de apoio estruturada para os comerciantes. Nem a Prefeitura de Cuiabá, nem o governo de Mato Grosso possuem um levantamento atualizado sobre o número de estabelecimentos que atuam com compra e venda de ouro ou joalherias na capital.
Registros da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico indicam que, em meados de 2007, existia a Associação dos Joalheiros, Indústria de Jóias, Empresários de Pedras Preciosas, Relojoeiros e Bijuterias do Estado de Mato Grosso (Ajomat). Atualmente, porém, não há nenhuma entidade representativa ativa para o segmento.
A Junta Comercial do Estado de Mato Grosso (Jucemat) informou que também não existe uma Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) específica para a compra e venda de ouro. Na prática, empresas do setor acabam sendo registradas em categorias diversas, como comércio atacadista de produtos da extração mineral, comércio varejista de artigos de joalheria ou fabricação de artefatos de joalheria e ourivesaria.
Já a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Cuiabá, que representa o setor empresarial, informou não possuir dados específicos sobre o comércio de ouro, uma vez que seu foco está majoritariamente no varejo tradicional.
Para comerciantes, essa falta de organização coletiva impacta diretamente o desempenho do setor. Sem estratégias específicas de divulgação e integração em campanhas promocionais, muitas lojas acabam ficando à margem de iniciativas que poderiam atrair consumidores.

A comerciante Leidimara Abrel, que atua há 16 anos com ouro na região central, afirma que a ausência de uma associação representativa contribui para esse cenário.
Ela também critica a atuação das entidades comerciais. Para Ledimara, há maior atenção voltada a outros segmentos, enquanto o setor de joias acaba sendo deixado de lado.
“Eles trazem ações para outras lojas e acabam esquecendo da gente, das joalherias. Isso faz muita falta para o nosso comércio. Muita gente nem sabe que estamos aqui e acaba indo para shoppings, pagando mais caro, até mesmo pelo medo da insegurança”, desabafou.
Apesar do destaque para as joalherias, a violência não se limita a esse segmento. Lojistas relataram que outros tipos de comércios também são alvos frequentes de criminosos, como lojas de roupas, óticas e estabelecimentos de aviamentos.
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