Familiares, amigos e colegas de farda lamentam a morte da subtenente da Polícia Militar, Marlene de Brito Rodrigues, de 59 anos, vítima de feminicídio na manhã de segunda-feira (6), em Campo Grande.
O corpo da policial está sendo velado na capela do cemitério Memorial Park, onde companheiros de trabalho prestam as últimas homenagens. O sepultamento está marcado para às 17h30 (horário de MS).
Descrita como “amiga de todos” e referência dentro da corporação, a morte violenta da subtenente provocou comoção entre os militares.
O tenente-coronel Cícero Pereira, que trabalhou próximo à vítima, destacou o impacto do crime.
“É uma violência que choca, choca muito. Quando isso atinge nós, que trabalhamos no combate diário a esse tipo de violência, o choque é ainda maior. A Marlene era uma pessoa muito querida, trabalhadora, com uma conduta irrepreensível. Uma pessoa ímpar”, afirmou.
Ele também reforçou o pedido de todos os colegas pela responsabilização do agressor pelo feminicídio conforme a lei.
“A justiça será feita nos termos legais. O caso está sendo investigado e tudo será devidamente apurado, com um julgamento justo e a responsabilização de quem cometeu o crime”, completou.
A subtenente foi morta a tiro dentro da própria residência, no conjunto Estrela Dalva. Segundo a Polícia Civil, o principal suspeito é o namorado da vítima, um homem de 50 anos, que foi preso em flagrante.
De acordo com as investigações, o casal mantinha um relacionamento há cerca de um ano e quatro meses e vivia junto há dois meses.
O suspeito foi encontrado com a arma na mão e chegou a alegar que Marlene teria cometido suicídio, mas apresentou contradições, o que levantou suspeitas imediatas de feminicídio.
A delegada Analu Lacerda Ferraz, da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), informou que não havia registros anteriores de violência doméstica envolvendo o casal.
Marlene atuava no Comando-Geral da Polícia Militar, no setor de Ajudância-Geral, e era amplamente conhecida entre os colegas.
O subtenente Luiz Antônio de Souza ressaltou o carinho que a policial despertava com colegas e na atuação como policial militar.
“É lamentável ver isso acontecer com uma pessoa tão benquista, amiga de todos, dentro e fora da corporação. É algo que nos deixa sem chão. Quem conheceu a Marlene sabe o quanto ela era uma pessoa amada, respeitosa, jamais tratava alguém com rispidez”, disse.
Ele também chamou atenção para o impacto social do crime, já que qualquer mulher pode se tornar uma vítima de femincídio.
“Choca ainda mais porque mostra que esse tipo de violência está em todo lugar. Mesmo uma policial treinada pode ser vítima dentro da própria casa. Isso precisa ser tratado com muita seriedade”, afirmou.
Já o subtenente Cícero Barbosa destacou a trajetória da colega. Marlene deixa um legado de quase quatro décadas de serviço à segurança pública.
“É um momento muito difícil. A Marlene era uma pessoa trabalhadora, com muitos anos de serviço. Quase toda a corporação a conhecia. É muito triste”, lamentou.
Em nota, o Comando-Geral da Polícia Militar lamentou a morte da subtenente e se solidarizou com familiares, amigos e colegas de farda. A instituição informou que acompanha o caso de perto e que equipes foram designadas para prestar suporte à família.
A corporação também reforçou que as circunstâncias do crime estão sendo investigadas com rigor.
Feminicídio que não tem perfil
O feminicídio de Marlene ocorre em um cenário preocupante em Mato Grosso do Sul. Somente neste ano, nove mulheres já foram mortas no estado em crimes dessa natureza, marcados, em muitos casos, por ciúmes, sentimento de posse ou inconformismo com o fim de relacionamentos.
Para a pesquisadora em direitos humanos e integrante da Rede Feminista de Saúde, Estela Scandola, o problema é estrutural e não tem um perfil único de vítima ou agressor.
“Vivemos uma epidemia de violência contra as mulheres, cujo ápice é o feminicídio. Não há mais um perfil definido. O que existe é uma base social ainda marcada pelo machismo, que não aceita a autonomia das mulheres”, explica.
Segundo ela, o enfrentamento do feminicídio exige ações em diferentes níveis e toda a sociedade.
“Não podemos tratar caso a caso. É preciso investir em políticas públicas, educação para igualdade de gênero e responsabilização efetiva dos agressores. A sociedade como um todo precisa se envolver”, afirma.