Um em cada 4 jovens indígenas enfrenta depressão e ansiedade, aponta estudo da UFMT

Entre a aldeia e a cidade, jovens indígenas de Mato Grosso vivem um conflito silencioso que impacta a saúde mental dentro das comunidades. Uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) revela que mais de um em cada quatro indígenas Xavante apresenta sinais de sofrimento psíquico, dado que ajuda a dimensionar um cenário ainda mais grave.

Entre jovens indígenas, as taxas de suicídio estão entre as mais altas do país, indicando que o problema vai além dos números e atravessa o cotidiano das comunidades.

Foto: Cristiano Antonucci/Secom-MT

Foto: Cristiano Antonucci/Secom-MT

O estudo, realizado em 10 aldeias, identificou prevalência de 27,3% de sofrimento mental, além de relatos autorreferidos de ansiedade (3,25%) e depressão (2,43%). Os pesquisadores destacam a escassez de estudos sobre o tema, o que reforça a necessidade de ampliar o conhecimento e as políticas voltadas à saúde mental dessas populações.

Mato Grosso está entre os estados com maior população indígena do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Clique no quadro abaixo para ver o ranking completo por unidade da federação.

Posição Estado Pessoas indígenas
1 Amazonas 490.854
2 Bahia 229.103
3 Mato Grosso do Sul 116.346
4 Pernambuco 106.634
5 Roraima 97.320
6 Pará 80.974
7 Mato Grosso 58.231
8 Maranhão 57.214
9 Ceará 56.353
10 São Paulo 55.295
11 Minas Gerais 36.699
12 Rio Grande do Sul 36.096
13 Acre 31.699
14 Paraná 30.460
15 Paraíba 30.140
16 Alagoas 25.725
17 Santa Catarina 21.541
18 Rondônia 21.153
19 Tocantins 20.023
20 Goiás 19.522
21 Rio de Janeiro 16.964
22 Espírito Santo 14.411
23 Rio Grande do Norte 11.725
24 Amapá 11.334
25 Piauí 7.198
26 Distrito Federal 5.813
27 Sergipe 4.708

Fonte: IBGE – Censo 2022 (SIDRA 9718)

A coordenadora da pesquisa, Alisséia Guimarães Lemes, que é enfermeira e doutora em Ciências, conta que o estudo, iniciado em fevereiro de 2025, acompanha o cotidiano do povo Xavante em três territórios: São Marcos, Sangradouro e Parabubure e busca compreender como o sofrimento psíquico se manifesta dentro dessas comunidades. 

“A gente precisa entender esses processos a partir da perspectiva deles, respeitando os modos de vida e as formas próprias de cuidado”, destaca Assileia. Para a pesquisadora, fortalecer políticas públicas que dialoguem com essa realidade é um dos caminhos para garantir um atendimento mais eficaz e sensível às necessidades dessas populações.

27,3%

dos indígenas Xavante apresentaram sinais de sofrimento psíquico

1 em 4

é a proporção aproximada de participantes afetados pelo sofrimento mental

123

indígenas participaram da pesquisa

10

aldeias de Mato Grosso fizeram parte do levantamento

Segundo ela, o estudo utiliza instrumentos adaptados ao contexto intercultural e conta com o apoio de intérpretes da língua Xavante, justamente para garantir que a escuta respeite as especificidades culturais de cada comunidade.

A saúde mental entre povos indígenas, conforme a pesquisa, está diretamente ligada a fatores como perda de território; enfraquecimento de tradições culturais; conflitos com não indígenas; discriminação e dificuldade de acesso a políticas públicas. Esse conjunto de fatores cria um cenário de vulnerabilidade que atinge, principalmente, os mais jovens.

Descrição da imagem

A saúde mental indígena é afetada por perda de território, enfraquecimento cultural, conflitos, discriminação e falta de acesso a políticas públicas. Foto: Crédito

‘Lidar com esses dois mundos não é fácil’

Com experiência na saúde indígena, o assistente social José Paravarsch, do povo Chiquitano, afirma que o sofrimento mental tem se tornado cada vez mais presente nas comunidades. Segundo ele, embora o problema atinja toda a população, entre indígenas há fatores específicos que agravam o cenário.

“A saúde mental é uma questão que atinge tanto indígenas quanto não indígenas, mas, no nosso caso, existem especificidades, como o modo de vida, o meio social e, principalmente, a questão territorial”, explica.

Na avaliação dele, um dos pontos mais sensíveis está no deslocamento de jovens para fora das aldeias. Cada vez mais, indígenas saem em busca de estudo e trabalho e passam a viver realidades muito diferentes das que encontram dentro do território.

“Dentro da aldeia é uma vivência, fora é outra. Lidar com esses dois mundos não é fácil, principalmente para os jovens que saem muito cedo”, afirma. Esse contraste, segundo Paravarsch, impacta diretamente a saúde mental e o sentimento de pertencimento.

📷 Arquivo pessoal atendimento indigenas Divino 3

“Dentro da aldeia é uma vivência, fora é outra. Lidar com esses dois mundos não é fácil.”

📷 Arquivo pessoal atendimento indigenas Divino 4

📷 Arquivo pessoal atendimento indigenas Divino 5

“Muitos profissionais não conhecem a realidade e a cultura dos povos indígenas do próprio município. Isso é muito grave.”

📷 Arquivo pessoal atendimento indigenas Divino 7

Conflitos territoriais

Ele também destaca que conflitos territoriais continuam sendo um fator determinante. A ausência de demarcação em algumas áreas, somada à pressão de atividades como desmatamento e exploração ilegal, expõe as comunidades a situações constantes de tensão. “Muitos territórios ainda não são demarcados e sofrem com desmatamento e invasões. Isso gera conflito, e o jovem acaba indo para esses enfrentamentos muitas vezes sem estar preparado”, relata.

Muitos territórios ainda não são demarcados e sofrem com

DESMATAMENTO E INVASÕES

Isso gera conflito, e o jovem acaba indo para esses enfrentamentos muitas vezes sem estar preparado

JOSÉ PARAVARSCH, ASSISTENTE SOCIAL

Outro problema apontado por ele está no acesso ao atendimento. Paravarsch explica que a saúde indígena dentro das aldeias se limita à atenção básica, enquanto os casos mais complexos são encaminhados para serviços como Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS(, já sob responsabilidade dos municípios e do estado. No entanto, segundo ele, esses serviços não estão preparados para atender a população indígena.

“Muitos profissionais não conhecem a realidade e a cultura dos povos indígenas do próprio município. Isso é muito grave”, critica. Para ele, a falta de preparo compromete o atendimento e evidencia a necessidade de capacitação. “Cada atendimento indígena tem suas especificidades. Não dá para generalizar.”

Para o assistente social, além de ampliar o acesso aos serviços, é fundamental investir em políticas públicas voltadas ao fortalecimento cultural dentro das aldeias. “O fortalecimento cultural ajuda muito na saúde mental, mas ainda faltam políticas públicas voltadas para isso”, conclui.

Assistência nas aldeias

Na região do Araguaia, que abrande municípios de Mato Grosso e Goiás, o atendimento em saúde mental nas aldeias é feito por equipes que atuam diretamente nos territórios, seguindo a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Pnaspi). Segundo a presidente da Associação Indígena do Vale do Araguaia (Asiva), Eliana Karajá, há um grupo de profissionais que realiza atendimentos periódicos nas comunidades.

Eliana Karajá

Há um índice alto de suicídio entre jovens e mulheres do meu povo. A gente já teve casos de suicídio até entre crianças. Por isso, essas conversas com jovens e adolescentes são constantes nas aldeias.

Eliana Karajá

Segundo ela, psicólogos têm presença periódica nas aldeias, onde realizam atendimentos e desenvolvem atividades coletivas voltadas ao cuidado com o sofrimento psíquico. As ações incluem palestras e encontros com a comunidade, com foco em questões como depressão e ansiedade.

“Os psicólogos participam das atividades dentro da aldeia, fazem atendimentos e também rodas de conversa para discutir saúde mental com a comunidade”, conta.

O trabalho é articulado com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia, responsável por atender populações indígenas em Mato Grosso, Goiás e Tocantins. A atuação envolve tanto indígenas que vivem nas aldeias quanto aqueles em áreas urbanas, incluindo povos como Karajá, Krenak e Javaé.

Alcoolismo

Já na Aldeia Indígena Meruri, em General Carneiro (MT), o padre Angelo Cenerino, que convive com o povo Boe Bororo, afirma que o avanço do alcoolismo tem sido um dos principais desafios enfrentados nas comunidades.

O contato com a sociedade não indígena trouxe

PERDA DE TERRITÓRIO, ENFRAQUECIMENTO DAS TRADIÇÕES E DESVALORIZAÇÃO DA CULTURA

PADRE ANGELO CENERINO

Para ele, o problema está diretamente ligado às transformações no modo de vida indígena. “Uma das causas é a ruptura cultural e a perda de identidade. O contato com a sociedade não indígena trouxe perda de território, enfraquecimento das tradições e desvalorização da cultura. Isso gera um vazio, e o álcool muitas vezes entra como fuga”, afirma.

Segundo o religioso, muitos jovens deixam a aldeia para estudar, o que também impacta a dinâmica cultural e o sentimento de pertencimento.

Taxa de suicídio entre indígenas é mais que o dobro da média

Em abril de 2025, o jovem indígena Aridapi Juruna, de 25 anos, estudante do curso de Artes, Línguas e Literatura da Faculdade Indígena Intercultural (Faindi), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), no campus de Barra do Bugres, morreu após cometer suicídio. Ele era do povo Yudjá, da aldeia Tuba Tuba, no Parque Indígena do Xingu, território que reúne diversas etnias indígenas no Mato Grosso.

Amigo do universitário, o indígena Patxon Metuktire, liderança do povo Kayapó e neto do cacique Raoni Metuktire, uma das principais referências indígenas do país, lamentou a morte, contou que, nos dias anteriores à morte, o estudante mantinha um comportamento mais introspectivo e chegou a enviar mensagens dizendo que estava sofrendo e que precisava de ajuda.

“Ele mandou mensagem dizendo que estava sofrendo e precisava de ajuda. Naquele dia, ele ainda estava com os colegas, tudo parecia normal, mas depois aconteceu”, diz.

Aridapi adorava comunicação e, principalmente fotografar, e também tinha o desejo de contribuir com a comunidade a partir da formação superior, como revelou em uma postagem feita três meses antes de morrer.

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Aridapi Juruna, de 25 anos, postou foto cerca de três meses antes de morrer em que falou da vontade de se capacitar para ajudar a comunidade. – Foto: Instagram/Reprodução

Na legenda da foto em que aparece estudando, ele escreveu: “Estou aqui buscando ampliar meus conhecimentos para fortalecer minha formação e contribuir com minha comunidade, valorizando nossa cultura, nossa língua e nossos saberes tradicionais. A educação é um caminho importante para que eu possa ajudar meu povo e continuar construindo um futuro melhor para todos nós”.

Aridapi Juruna não fazia acompanhamento psicológico.

O caso não é isolado. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que a taxa de suicídio entre jovens no Brasil já supera a média da população geral. Enquanto o índice nacional é de 24,7 casos por 100 mil habitantes, entre jovens chega a 31,2 e sobe para 36,8 entre homens.

Saúde mental indígena

Saúde mental indígena

Acima da média nacional

107,9 suicídios por 100 mil entre jovens indígenas de 20 a 24 anos

62,7 suicídios por 100 mil entre indígenas

31,2 entre jovens no Brasil

24,7 média geral da população

46,2 entre jovens indígenas (15 a 19 anos)

11,3% dos atendimentos são de saúde mental

Fonte: Fiocruz

No recorte indígena, o cenário é ainda mais grave: a taxa alcança 62,7 por 100 mil, mais que o dobro da média do país. Entre jovens indígenas de 20 a 24 anos, o número é ainda mais alarmante e chega a 107,9 casos por 100 mil habitantes.

Além disso, os dados divulgados em dezembro de 2025 apontam que o atendimento ainda é insuficiente. Apenas 11,3% dos atendimentos de jovens no Sistema Único de Saúde (SUS) são voltados à saúde mental, proporção bem abaixo da registrada na população geral.

Mesmo quando há internação, menos da metade dos pacientes segue com acompanhamento psicológico ou psiquiátrico após a alta, o que agrava o risco de agravamento dos quadros e evidencia a fragilidade da rede de cuidado contínuo.

Precisa de ajuda?

Você não está sozinho

Se você ou alguém próximo está passando por sofrimento emocional, existem canais gratuitos e sigilosos de apoio. Procurar ajuda pode fazer diferença.

188 Centro de Valorização da Vida (CVV) — atendimento 24h, gratuito e sigiloso

cvv.org.br Chat online com voluntários, todos os dias, também 24h

SUS Procure uma unidade de saúde, CAPS ou atendimento psicológico no seu município

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