‘Só lembram da gente na eleição’, diz paraplégico sobre inclusão em Mato Grosso

“Na época de eleição, a tendência é falarem disso porque é um tema fácil de prometer”, afirma Daniel Lopes, morador de Cuiabá e paraplégico há 27 anos, sobre um sentimento compartilhado por muitos eleitores com deficiência. Durante as campanhas, a inclusão ganha espaço nos discursos. Depois da votação, dizem eles, o assunto volta a desaparecer da agenda política.

Neste ano, quase 2 milhões de brasileiros com deficiência estão aptos a votar, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em Mato Grosso, são 25.658 eleitores que declararam possuir algum tipo de deficiência. Apesar do número expressivo, esse grupo afirma que ainda enfrenta dificuldades para exercer plenamente a cidadania e segue com pouca visibilidade nas campanhas eleitorais.

Paraplégico há 27 anos, Daniel Lopes diz que pessoas com deficiência só ganham visibilidade durante as eleições. – Foto: Arquivo pessoal

Para Daniel, o desafio não termina quando chega ao local de votação. Ele acredita que a maior barreira é a falta de compromisso contínuo com as pautas das pessoas com deficiência. “Na época de eleição, a tendência é falar disso porque é um tema muito fácil de prometer. Mas os grandes avanços que as pessoas com deficiência tiveram não vieram dos candidatos. Vieram das nossas próprias lutas”, conta.

Essa realidade também faz parte da vida de Elenice Fátima Souza, mãe de Pedro, um jovem com autismo nível 3 de suporte não verbal. Para ela, a inclusão vai muito além da garantia do voto. “É meu filho participar da sociedade como qualquer pessoa. O mais difícil é que a família ainda precisa bater de porta em porta para conseguir direitos que deveriam ser garantidos”, afirma.

Tipo de Deficiência ↕ Eleitores ↕ Proporção ↕
Deficiência de locomoção 34.803
Deficiência visual 22.801
Deficiência auditiva 13.579
Total Geral 71.183 100%

Representatividade ainda é desafio

Embora representem 1,24% do eleitorado brasileiro, as pessoas com deficiência ainda ocupam pouco espaço nas campanhas, nos partidos políticos e nos cargos eletivos.

Para o cientista político Daniel Miranda, ampliar essa participação passa pela organização desse eleitorado e pela abertura dos partidos para candidaturas de pessoas com deficiência. “Todo grupo político ganha força quando está organizado. Os partidos precisam ir além do discurso e criar condições reais para que essas pessoas disputem eleições e ampliem sua representatividade”.

Cidadania além dos benefícios

Presidente da Associação Mato-grossense de Deficientes, Leonildo Rodrigues afirma que o principal objetivo das pessoas com deficiência é participar plenamente da sociedade. “Nós não queremos apenas receber benefícios. Queremos fazer parte da sociedade, participar das decisões e exercer nossos direitos como qualquer cidadão”, pontua.

Sérgio Siqueira, que tem baixa visão, defende mais acessibilidade, empatia e oportunidades para pessoas com deficiência.
Sérgio Siqueira, que tem baixa visão, defende mais acessibilidade, empatia e oportunidades para pessoas com deficiência. – Foto: Arquivo pessoal

Para Sérgio Siqueira, que tem baixa visão, as eleições também representam uma oportunidade de cobrar políticas públicas que garantam autonomia e igualdade de oportunidades. “Gostaria que as pessoas tivessem mais empatia. Quero voltar ao mercado de trabalho, mas ainda existem muitas barreiras”, relata.

As demandas passam por transporte acessível, inclusão no mercado de trabalho, educação, saúde e mobilidade urbana. Temas que, segundo eles, não deveriam aparecer apenas durante o período eleitoral.

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