A queda do nível do Rio Tapajós acendeu um alerta para o escoamento da produção agrícola de Mato Grosso. Com a chegada do período mais crítico da seca amazônica, o setor produtivo teme que alguns trechos fiquem sem profundidade suficiente para a passagem das barcaças e provoquem uma nova paralisação da navegação. O prejuízo pode chegar a R$ 550 milhões, segundo estimativa da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon).
O Tapajós integra uma das principais rotas usadas para levar soja e milho produzidos em Mato Grosso aos portos do Arco Norte. Os grãos saem principalmente das regiões norte e médio-norte do estado, seguem de caminhão pela BR-163 até Miritituba, distrito de Itaituba (PA), e depois são transferidos para barcaças.
De lá, a carga segue pelo rio em direção aos terminais da região de Santarém e Barcarena, de onde é embarcada para exportação.
Segundo o diretor-executivo da Adecon, Edeon Vaz, a preocupação aumenta com a proximidade do chamado verão amazônico, período entre setembro e novembro em que a redução das chuvas faz o nível dos rios cair de forma mais intensa.
Em 2024, o Tapajós chegou a um estágio considerado crítico, com nível de 3,98 metros, e a navegação precisou ser interrompida. Neste ano, segundo Edeon, o comportamento do rio até agora se aproxima mais do registrado em 2023, quando houve forte redução, mas sem paralisação completa.
Atualmente, o nível do Tapajós em Santarém está em cerca de 5,46 metros. Em Itaituba, a redução também chama atenção: em 1º de agosto, a medição apontava 5,70 metros e, no dia 16, estava em 5,10 metros.
Barcaças precisam reduzir a carga
A redução do nível do rio afeta diretamente a quantidade de grãos transportada.
Cada barcaça pode carregar aproximadamente 2 mil toneladas. Conforme a profundidade do rio diminui, porém, é necessário reduzir o volume transportado para que a embarcação consiga atravessar os pontos mais rasos.
Segundo Edeon, uma barcaça necessita de cerca de quatro metros entre a linha d’água e o fundo da embarcação, além de aproximadamente 50 centímetros de margem de segurança, conhecida no setor como “pé de piloto”.
Quando a quantidade de carga precisa ser reduzida, são necessárias mais viagens para transportar o mesmo volume de grãos, o que aumenta o custo do frete. Nos estágios mais críticos, alguns pontos podem se tornar intransponíveis.
O impacto é relevante para Mato Grosso. Conforme dados apresentados pela Adecon, 17,8 milhões de toneladas de soja e milho foram escoadas por Miritituba em 2025. A expectativa para este ano é chegar a 18,5 milhões de toneladas caso a navegação seja mantida normalmente.
Setor pede dragagem
Para evitar uma nova paralisação, a Adecon defende a realização de uma dragagem de manutenção nos pontos mais críticos do Tapajós.
Esse tipo de serviço é diferente da abertura ou do aprofundamento de um novo canal. Conforme material da Diretoria de Infraestrutura Aquaviária do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a dragagem de manutenção retira sedimentos acumulados pelo assoreamento natural para recuperar a profundidade de um canal já existente e garantir a continuidade e a segurança da navegação.
O documento também aponta que a intervenção deve ser pontual, concentrada nos locais em que o assoreamento restringe a passagem das embarcações, sem redesenhar de forma ampla a seção do rio. A dragagem é descrita como uma intervenção localizada e mitigável quando acompanhada de estudos, controle operacional e monitoramento ambiental.

No material apresentado pela Adecon, sete trechos aparecem entre os pontos de atenção ao longo da hidrovia, incluindo regiões como Itapaiuna, Ilha das Pacas, Praia do Roque, Monte Cristo, Pederneira, Santarenzinho e Calminas. Segundo Edeon, dentro desse conjunto existem pontos considerados prioritários para intervenção.
A instituição afirma que começou a defender a dragagem após a crise registrada em 2024. Segundo Edeon, nunca houve antes uma operação desse tipo no Tapajós, mas a paralisação mostrou a necessidade de medidas para manter o canal navegável durante períodos de seca mais severa.
Dragagem gera discussão
A realização do serviço, porém, enfrenta questionamentos.
Segundo a Adecon, manifestações de comunidades indígenas e preocupações ambientais estão entre os fatores que impedem o avanço da intervenção junto ao governo federal. A entidade sustenta que a dragagem de manutenção seria localizada e poderia ser executada sem prejuízos ambientais, desde que acompanhada de controle e monitoramento.
Qual a diferença entre os tipos de dragagem?
As intervenções têm objetivos diferentes. No Rio Tapajós, o setor produtivo defende a chamada dragagem de manutenção.
1. Implantação
Cria ou aprofunda um canal
É utilizada para criar ou ampliar a infraestrutura aquaviária. Pode abrir um novo canal ou aumentar a profundidade de uma área de navegação.
Objetivo Criar capacidade de navegação.
Caso do Tapajós
2. Manutenção
Retira o assoreamento
Remove areia, lama e outros sedimentos acumulados naturalmente no fundo do rio para recuperar a profundidade de um canal que já existe.
Objetivo Manter a navegabilidade e a segurança das embarcações.
3. Recuperação ambiental
Retira material contaminado
É feita quando há sedimentos contaminados no fundo do rio. O material retirado precisa de controle, tratamento e destinação adequada.
Objetivo Reduzir riscos ambientais.
Fonte: Diretoria de Infraestrutura Aquaviária do DNIT / material apresentado pela Adecon.
O próprio material técnico apresentado pela instituição destaca que o objetivo da manutenção hidroviária é preservar a navegação com a menor intervenção necessária, concentrando os trabalhos nos pontos de assoreamento.
Organizações e representantes ligados à pauta ambiental, no entanto, manifestam preocupação com possíveis impactos da dragagem sobre o rio e as populações que dependem dele.
Enquanto não há definição, a queda do Tapajós continua sendo acompanhada pelo setor produtivo. Quanto mais o nível recua, menor pode ser a quantidade de grãos carregada pelas barcaças e maior o risco de interrupção do transporte justamente na rota que recebe parte expressiva da produção agrícola de Mato Grosso.
O Ministério de Portos e Aeroportos e o governo federal foram procurados, mas não haviam se manifestado sobre a situação até a publicação desta reportagem.
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