Diversas vezes já ouvimos esta frase: Brasil, o país do carnaval e do futebol. O primeiro tem frequência anual e o segundo acontece diariamente, mas o evento maior ocorre a cada quatro anos, a Copa do Mundo. O futebol é, deveras, uma paixão maior do que o carnaval, porque ocupa todo o território nacional, do Oiapoque ao Chuí.
É, portanto, o futebol, mais do que uma paixão nacional, é uma forma de linguagem, um meio de expressão de alegria e tristeza, de conquista e frustração; é um fenômeno cultural, que alcança todas as classes sociais, todas as idades, todos os gêneros, todas as regiões brasileiras.
A Copa do Mundo é o momento em que o futebol é representado por diversas nações e o Brasil tem conquistado o direito, por mérito, de participar deste torneio mundial. É neste ponto de vista que a Copa do Mundo se transforma num dos maiores eventos psicológicos coletivos, onde a tensão e a esperança estão presentes a cada dia, durante cerca de trinta dias, é quando observamos essas emoções sincronizadas no povo brasileiro.
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É bem verdade que buscamos a sincronia da vitória, talvez porque somos o país que mais obteve sucesso em Copas do Mundo, somos pentacampeões e agora queremos o hexacampeonato. Construímos uma fantasia de superioridade e de glória, algo que é corroborado pela mídia e por todos nós, que faz que nossas expectativas estejam apenas no caminho da vitória. Alguns acham que isso ajuda, que estamos pensando positivamente, mas, na verdade, isso pode ser muito ruim, quando somos derrotados.
É quando caem por terra nossas expectativas e dão lugar à frustração. É aí que surgem raiva, tristeza isolamento, é quando culpamos técnicos e jogadores. Choramos e esperneamos, incrédulos no resultado, uma negação típica de uma reação de luto, que é exatamente o que acontece, tudo porque temos a expectativa baseada na fantasia de poder, esquecemos que somos apenas mais um país, dentre muitos, em campo, e que apenas um vai sair com a taça na mão.
As expectativas de sucesso do país do futebol nos levam ao sentimento de obrigação de vitória, daí a frustração e a raiva, quando não conseguimos esse resultado. Provavelmente há um aumento da necessidade de apoio psicológico nessa época.
Acontece como no caso da vida de um doente querido, que se vai progressivamente, e que mantemos a esperança presente até o último suspiro; assim é no futebol, em que a esperança sobrevive até o último jogo, ainda que seja uma esperança enfraquecida. A derrota só não é pior, porque não é um sofrimento isolado, funciona coletivamente.
Vive-se na derrota uma reação de luto compartilhado. É realmente vivenciada como luto, com todas as suas fases: negação, quando afirmamos que nosso time “foi roubado”; a raiva, quando insultamos o juiz ou algum jogador; a barganha, quando dizemos que tudo seria diferente se determinado atleta tivesse jogado; a depressão, que nos deixa horas ou dias tristes e apáticos; e a aceitação, que pode chegar em dias ou meses.
Além disso, a cada partida de futebol, a tensão e o estresse elevam os nossos níveis de adrenalina e cortisol circulante em nosso sangue, nossos batimentos cardíacos e nossa pressão arterial sobem e após o jogo, esses níveis tendem a cair em poucos minutos.
Quando o resultado é negativo, esses hormônios permanecem elevados por mais tempo no corpo, com maior possibilidade de manutenção do estado de estresse, algo prejudicial a saúde psíquica. Quando, porém, o resultado é vitorioso há liberação de dopamina e ocitocina, com sensação de prazer e redução de sintomas de ansiedade e depressão por algum tempo.
A relação do brasileiro com a Copa do Mundo é tão intensa que pode se tornar um fenômeno de saúde coletiva. Para evitar maiores instabilidades emocionais, é preciso que a saúde mental não se torne refém do placar.
O futebol pode ser um fator de união e alegria e para isso devemos lembrar que o jogo acaba, mas a vida continua. Também precisamos estar atentos à reação de luto, esta é grave em pessoas mais vulneráveis, principalmente aquelas que já têm o diagnóstico de alguma enfermidade mental, como ansiedade, depressão, dependência de álcool ou outras drogas. Nesses casos pode ser necessário buscar ajuda profissional.