O então técnico de controle público externo do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Jocimauro Bento do Carmo, preso com armas na Operação Tomada de Contas da Polícia Federal, deixou a cadeia após pagar fiança de R$ 97,2 mil. A decisão da juíza Henriqueta Fernanda foi publicada no mesmo dia da ação, 29 de outubro.
Jocimauro Bento era servidor da Corte de Contas desde agosto de 2001, mas foi exonerado nessa terça-feira (3), por decisão do novo presidente do TCE, Waldir Teis. Ele é suspeito de ter recebido 66 pagamentos que totalizam R$ 3 milhões, segundo a investigação da Polícia Federal.
Conforme o Tribunal de Justiça, ele pagou fiança por ter sido preso apenas pela posse de arma. No caso relacionado ao Tribunal de Contas, Jocimauro foi alvo de medidas cautelares determinadas pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas não teve prisão preventiva decretada.
PF identificou 66 pagamentos que somam R$ 3 milhões
Segundo o relatório da Polícia Federal, os pagamentos a Jocimauro foram feitos entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025. Efetivo do TCE-MT desde agosto de 2001, ele estava lotado na Comissão Permanente de Infraestrutura, Tecnologia e Desestatização, presidida pelo conselheiro José Carlos Novelli — afastado na operação —, e recebia R$ 55 mil por mês, segundo o Portal da Transparência do TCE.
Do total identificado pela investigação, R$ 1,8 milhão teriam sido pagos por meio de 32 ordens bancárias avulsas. Os registros analisados pela PF indicam que os valores eram transferidos para contas de Jocimauro em diferentes instituições financeiras, entre elas Banco do Brasil, Itaú e Sicoob Integração.
A análise bancária apontou pagamentos semanais e valores crescentes ao longo do período. Segundo a PF, as transferências de maior valor e consideradas atípicas tinham como origem, principalmente, uma conta do próprio TCE-MT no Banco do Brasil. A investigação também identificou movimentações fora do calendário regular de pagamento dos servidores, que costuma ocorrer no último dia útil do mês.
Em alguns lançamentos, os valores eram expressivos. Em 29 de agosto de 2025, por exemplo, há registro de uma transferência de R$ 105 mil, além de outra de R$ 11 mil. No dia 30 de setembro, os extratos apontaram um pagamento de R$ 52,5 mil e outro de R$ 11 mil, além de uma transferência de R$ 34.434,01 identificada no histórico bancário como pagamento de salário.

Imagens mostram saques em dinheiro
A investigação também analisou imagens de circuito interno de agências bancárias. De acordo com a representação policial, Jocimauro aparece realizando saque em espécie em 16 de setembro de 2025, às 10h57. Naquele mês, ele havia recebido R$ 127,9 mil com origem no TCE-MT.
A PF identificou registros de saques associados a Jocimauro em quatro datas: 16 e 24 de setembro, 1º e 22 de outubro de 2025. Os investigadores cruzaram as imagens com os dados bancários para analisar a movimentação dos recursos transferidos pelo Tribunal de Contas.
A representação também descreve um padrão de pagamentos realizados por meio de diferentes contas e ordens bancárias. A análise patrimonial citada pela Polícia Federal apontou ainda a aquisição de veículos e imóveis no período de interesse da investigação, entre 2024 e 2026.
Ministro do STJ determinou afastamento e restrições
Ao analisar o relatório da PF, o ministro Og Fernandes confirmou os valores recebidos e observou que a quantia estava em lotes de pagamentos que também reuniam outros servidores e pessoas investigadas, entre eles Adjair Roque de Arruda, Edson Luiz Ribeiro de Oliveira, Carlos Romeu Rodrigues Medeiros, Eneias Viegas da Silva e Adriangelo Barros Antunes.
O magistrado afirmou que, embora os valores recebidos e a inclusão nos lotes de pagamentos justificassem medidas cautelares, não havia elementos que vinculassem Jocimauro à operacionalização dos saques em espécie.
Mesmo com essa ressalva, o ministro determinou afastamento da função pública, a proibição de acesso às dependências e aos sistemas do TCE-MT, a proibição de contato com outros investigados e pessoas vinculadas ao Tribunal, além da proibição de deixar o país e da entrega do passaporte.

Operação Tomada de Contas
Deflagrada pela Polícia Federal em 29 de outubro de 2026, a operação investiga suspeitas de irregularidades em contratos administrativos e pagamentos a servidores do TCE.
A PF apura a existência de uma possível estrutura de pagamentos paralelos, com transferências milionárias a conselheiros e servidores, saques frequentes em dinheiro e suspeita de pressão sobre fornecedores para devolução de parte dos valores recebidos. A investigação também apura possíveis crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Seis pessoas tiveram prisão preventiva decretada pelo STJ:
- Sérgio Ricardo de Almeida — então presidente do TCE-MT;
- Adriangelo Barros Antunes;
- Felipe José Glinke;
- Grhegory Paiva Pires Moreira Maia;
- Gustavo Fernandes da Silva;
- Roseli Loss.
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