Piloto analisa acidente enigmático ocorrido no aeroporto de Rondonópolis

O piloto, escritor e criador de conteúdo Daniel Mantovani analisou, em sua página no Instagram, um dos mais enigmáticos acidentes já registrados no Aeroporto Maestro Marinho Franco, em Rondonópolis. O episódio ocorreu em 9 de janeiro de 2016 e envolveu um ATR-72 da Passaredo, que transportava 54 passageiros e quatro tripulantes.

A aeronave havia decolado de Brasília com destino a Rondonópolis e realizava a aproximação para pouso quando tocou o solo em uma plantação de soja, cerca de 400 metros antes da cabeceira da pista.

Segundo as informações apresentadas por Mantovani, com base no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o avião percorreu aproximadamente 72 metros no solo, atingiu dois mourões de concreto da cerca do aeroporto e conseguiu voltar a voar.

A tripulação completou a arremetida, reposicionou a aeronave e realizou um novo pouso, desta vez pela cabeceira oposta. Apesar da gravidade da ocorrência e dos danos substanciais sofridos pelo avião, nenhuma das 58 pessoas a bordo ficou ferida.

Ilusão visual teria contribuído para acidente

Na análise, Mantovani chama atenção para um fenômeno conhecido na aviação como “Black Hole”, ou “buraco negro”, uma ilusão visual que pode ocorrer durante aproximações noturnas sobre áreas praticamente sem iluminação.

Naquela noite, conforme o relato apresentado pelo piloto, não havia lua, existia nevoeiro na região do aeródromo e, entre a aeronave e a pista, predominava uma área de plantação, sem referências luminosas suficientes no solo.

Nesse tipo de situação, a falta de referências visuais pode provocar uma percepção equivocada de altura e distância. Os pilotos podem ter a sensação de que estão mais altos do que realmente estão e, ao tentarem corrigir a trajetória, acabam aproximando ainda mais a aeronave do solo.

Foi justamente uma situação semelhante que teria ocorrido em Rondonópolis. Conforme a análise, a aeronave ficou abaixo da rampa ideal de aproximação, de aproximadamente três graus, e continuou perdendo altura ainda distante da cabeceira.

O problema somente teria ficado evidente para a tripulação quando o sistema automático da aeronave anunciou que o avião estava a 50 pés, cerca de 15 metros, do solo. A arremetida foi comandada quando a aeronave estava a aproximadamente 20 pés, mas não houve tempo suficiente para evitar o contato com a plantação.

Soma de fatores

Mantovani ressalta que o episódio não pode ser atribuído a uma única causa. Com base no relatório do Cenipa, ele destaca uma série de fatores que teriam se somado durante a aproximação.

Entre eles estavam o nevoeiro e a visibilidade abaixo dos parâmetros para uma aproximação visual, além da ausência, à época, de sistemas de auxílio visual como PAPI ou VASIS, utilizados para indicar ao piloto se a aeronave está acima ou abaixo da trajetória adequada de aproximação.

A análise também aponta que o comandante nunca havia realizado pouso naquele aeroporto e que os manuais da companhia não abordavam especificamente o chamado efeito “Black Hole”, embora a documentação relacionada ao aeródromo alertasse para a possibilidade do fenômeno nas duas cabeceiras.

Outro aspecto destacado foi a informação meteorológica transmitida de maneira informal pelo rádio, com valores de visibilidade mais favoráveis do que os dados oficiais.

Mantovani resume o episódio como resultado de uma sequência de circunstâncias que, isoladamente, talvez não provocassem um acidente, mas que, combinadas, criaram uma situação de elevado risco.

O caso terminou sem vítimas. Depois de tocar o solo antes da pista e atingir a cerca, o ATR-72 conseguiu ganhar altitude novamente. A tripulação realizou uma nova aproximação e pousou em segurança no aeroporto de Rondonópolis.

A aeronave, no entanto, sofreu danos substanciais na fuselagem, radome, trens de pouso e portas.

Mais de dez anos depois, o episódio continua sendo um dos casos mais impressionantes da história do Aeroporto Maestro Marinho Franco, principalmente pelo fato de uma aeronave com 58 ocupantes ter tocado o solo centenas de metros antes da pista, atingido obstáculos e conseguido retornar ao voo sem deixar feridos.

A sucata da aeronave até hoje continua estacionada nas proximidades do pátio de taxiamento do aeroporto.

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