como o cacau reescreve o futuro da roça em Mato Grosso

Quem cruza as rodovias de Mato Grosso costuma ver a paisagem dominada pelas extensas safras de soja e pelas pastagens da pecuária. No entanto, debaixo da copa das árvores e em pequenas propriedades familiares, uma nova cor começa a desenhar a economia do campo: o marrom do cacau.

O fruto, historicamente associado ao sul da Bahia e ao estado do Pará, vem fincando raízes firmes em solo mato-grossense e se consolidando como uma das alternativas mais promissoras para a rentabilidade da agricultura familiar.

Embora o coração da produção no estado permaneça batendo no Noroeste — em polos consolidados como Juína, Cotriguaçu e Nova Bandeirantes —, o mapa do cacau está se expandindo.

Com o suporte de pesquisas de adaptabilidade e mudas clonais, lavouras de teste e viveiros já despontam em municípios como Santo Antônio do Leverger, Nobres, Tangará da Serra, Chapada dos Guimarães e no entorno da Grande Cuiabá.

Os dados mais recentes do IBGE mostram que o estado registrou uma colheita de 471 toneladas de amêndoas em 724 hectares. Os números ainda são modestos perto das grandes commodities, mas revelam um potencial latente frente à fome do mercado consumidor.

A equação econômica: demanda em alta e cultura perene

O avanço da cultura no estado responde a uma lógica simples de mercado: o Brasil consome mais cacau do que produz. Para abastecer a indústria chocolateira, o país ainda precisa importar o insumo de países vizinhos e africanos, o que abre uma janela de oportunidade para o produtor local.

Outra vantagem competitiva do cacaueiro é a sua longevidade. Trata-se de uma árvore perene, capaz de produzir de forma contínua por décadas, integrando-se perfeitamente aos sistemas de produção já existentes nas pequenas propriedades sem exigir o desmatamento de novas áreas.

Da enxada à planilha: o papel da assistência técnica

Plantar cacau, contudo, não é tarefa para amadores. O sucesso da lavoura depende de escolhas criteriosas desde o dia zero: a seleção genética dos clones desenvolvidos pela Ceplac, o preparo químico do solo, o sistema de irrigação e a condução das podas. Na fase pós-colheita, a fermentação e a secagem das amêndoas definem se o produto final terá valor de mercado ou se será desvalorizado.

Para garantir que o entusiasmo do agricultor se converta em lucro real, a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar-MT tem atuado diretamente na gestão das propriedades. Na região Norte do estado, 31 produtores recebem acompanhamento individualizado.

Muito além do chocolate: a força dos derivados

Um dos grandes apelos da cultura cacaueira é a capacidade de aproveitamento integral do fruto. O agricultor familiar que decide não vender apenas a amêndoa seca encontra no processamento artesanal uma fonte extra de receita:

  • Polpa do fruto: Matéria-prima de alto valor para a indústria de sucos, sorvetes, doces e geleias;
  • Mel do cacau: Néctar extraído durante a fermentação, utilizado em bebidas finas e licores;
  • Amêndoa beneficiada: Origina o nibs, o cacau em pó e chocolates artesanais de origem;
  • Manteiga: Insumo nobre disputado pelas indústrias alimentícia e de cosméticos;
  • Casca: Reaproveitada dentro da própria fazenda na produção de ração animal, biofertilizantes e adubo orgânico.

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