Você mantém os exames em dia, pratica atividade física, procura ter uma alimentação equilibrada e acompanha os níveis de colesterol e a pressão arterial. Mas, já parou para pensar se a maneira como vive também está influenciando sua saúde?
A solidão em meio a uma rotina corrida, o excesso de trabalho, as noites mal dormidas e a falta de tempo para estar com amigos ou família podem representar mais do que um desgaste emocional. Estudos científicos têm investigado como esses fatores se relacionam com o funcionamento do organismo, especialmente com a saúde do coração e do cérebro.
Segundo o cardiologista Max Lima e a nutricionista Maristela Luft, existe uma dimensão da saúde que não aparece em um hemograma ou em uma tomografia: a qualidade das relações que construímos e a maneira como organizamos nossos dias.
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a tratar a conexão social como uma dimensão importante da saúde e do bem-estar, chamando atenção para as consequências da solidão e do isolamento social, defendendo que esses fatores recebam atenção semelhante à dedicada à saúde física e mental.
Na prática, isso significa que cuidar da saúde também envolve observar com quem convivemos se temos pessoas com quem contar e quanto espaço reservamos para descansar e manter relações importantes.
Solidão e isolamento social podem afetar o coração
Uma das evidências mais expressivas sobre o assunto vem de uma análise publicada em 2023 na revista científica Nature Human Behaviour, que reuniu 90 estudos prospectivos e mais de 2,2 milhões de pessoas.
Os resultados apontaram que o isolamento social esteve associado a um risco aproximadamente 32% maior de mortalidade por todas as causas e cerca de 34% maior de mortalidade cardiovascular.
A solidão também apareceu associada ao aumento da mortalidade geral, embora em proporção menor.
É importante destacar que esses números não significam que estar sozinho necessariamente provoca um infarto ou leva à morte prematura. Os estudos identificaram associações, mas não comprovam que o isolamento seja, por si só, a causa desses problemas.

Ainda assim, a repetição de resultados semelhantes em diferentes populações reforça a importância de olhar para a saúde social como parte dos cuidados preventivos, como alertam especialistas.
A Associação Americana do Coração também já chamou atenção para essa relação. Em uma publicação científica sobre o tema, a entidade destacou que existem evidências consistentes associando isolamento social e solidão a piores desfechos relacionados a doenças coronarianas e acidente vascular cerebral (AVC).
Estar cercado de pessoas não significa não se sentir sozinho
Outra questão importante nessa discussão é que solidão e isolamento social não são a mesma coisa.
O isolamento social está relacionado a uma condição mais objetiva, como ter poucos contatos, interações ou vínculos com outras pessoas. Já a solidão é uma experiência subjetiva, que acontece quando existe uma diferença entre as conexões que alguém tem e aquelas que gostaria de ter.
Por isso, uma pessoa pode participar de diversos grupos, ter centenas de contatos profissionais e milhares de seguidores nas redes sociais, mas sentir que não tem alguém com quem contar em um momento difícil.
Também pode acontecer o contrário: alguém que mora sozinho e mantém poucos contatos sociais não necessariamente se sente solitário.
Mais do que a quantidade de pessoas ao redor, a qualidade dessas relações também importa. Ter vínculos em que existe confiança, respeito e apoio pode fazer diferença na maneira como enfrentamos dificuldades e cuidamos da própria saúde.
O que a solidão tem a ver com a saúde do cérebro?
A preocupação não se limita ao coração, já que pesquisas também têm investigado a relação entre solidão, envelhecimento cerebral e demência.
Uma meta-análise publicada em 2024 na revista científica Nature Mental Health, com dados de 608 mil pessoas, encontrou associação entre a solidão e o aumento do risco de demência, incluindo Alzheimer e demência vascular.
Outra revisão científica identificou que uma maior participação e interação social estavam associadas a um menor risco de demência, embora os resultados apresentassem diferenças importantes entre os estudos.
Isso não significa que sair com amigos ou participar de encontros seja uma forma comprovada de prevenir o Alzheimer. O que as pesquisas indicam é que as relações sociais podem fazer parte do conjunto de fatores associados a um envelhecimento cerebral mais saudável.
A longevidade, afinal, não depende de uma única escolha. Sono, alimentação, atividade física, saúde metabólica, estímulos cognitivos e convivência social fazem parte de um conjunto de fatores que influenciam a qualidade de vida ao longo dos anos.
Trabalhar demais também pode cobrar um preço da saúde
Outro ponto que merece atenção é a maneira como o trabalho ocupa espaço na rotina. Existe um perfil bastante comum: pessoas que assumem responsabilidades profissionais, resolvem problemas durante todo o dia e encontram cada vez menos tempo para cuidar de si mesmas.
O treino é adiado, o almoço vira reunião, as mensagens de trabalho chegam durante o jantar e o sono acaba reduzido para dar conta de mais uma tarefa.
Nesse cenário, amigos e familiares passam a receber apenas o tempo que sobra.
O problema é que essa rotina pode desencadear um efeito em cadeia. Dormir menos pode provocar cansaço no dia seguinte, diminuir a disposição para atividades físicas, prejudicar a organização das refeições e reduzir ainda mais os momentos de descanso e convivência.
Um dado que chama atenção vem de análises conduzidas pela OMS e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os resultados apontaram que jornadas de 55 horas ou mais por semana, em comparação com jornadas de 35 a 40 horas, estiveram associadas a um risco maior de doença isquêmica do coração e AVC.
Isso não significa que toda pessoa que trabalha muitas horas desenvolverá uma doença cardiovascular, mas reforça que a falta de limites entre trabalho e descanso merece atenção.
A produtividade não deve depender continuamente da retirada de horas de sono, recuperação física e convivência com pessoas importantes.
Celular aproxima pessoas, mas também pode afastá-las
Nunca tivemos tantas possibilidades de conversar com alguém, independentemente da distância. Ainda assim, é possível passar o dia inteiro conectado e quase não ter uma conversa presencial ou uma interação com atenção de verdade.
O celular e as redes sociais não são necessariamente prejudiciais à saúde. Dependendo da maneira como são utilizados, podem ajudar a manter amizades, aproximar familiares distantes e reduzir o isolamento de pessoas com dificuldades de locomoção.
O problema está no uso que acaba substituindo momentos de convivência, como lembram o cardiologista Max Lima e a nutricionista Maristela Luft.
Um questionamento interessante, nesse sentido, não é apenas quantas horas alguém passa diante de uma tela, mas o que deixa de fazer enquanto utiliza o aparelho.
Uma refeição interrompida por notificações, uma conversa constantemente dividida com o celular ou a dificuldade de se desconectar do trabalho podem reduzir os momentos de atenção dedicados às pessoas ao redor.
Mais do que diminuir o tempo de tela, o desafio é perceber quando a tecnologia deixa de aproximar e começa a ocupar o espaço das relações.
Começando com pequenas mudanças na rotina
Não é necessário transformar a vida social em mais uma lista de obrigações ou metas: o primeiro passo pode ser perceber quais hábitos estão ocupando o espaço de atividades importantes para o bem-estar.
♡
Entre as atitudes que podem ajudar estão:
- 1
Reservar momentos sem celular Fazer uma refeição ou conversar com alguém sem interrupções pode favorecer a convivência.
- 2
Não esperar sobrar tempo Manter contato com amigos e familiares também exige espaço na agenda.
- 3
Preservar o descanso Estabelecer horários razoavelmente regulares para dormir e acordar ajuda a organizar outros hábitos saudáveis.
- 4
Compartilhar atividades Caminhadas, exercícios e passeios com outras pessoas podem unir movimento físico e convivência.
- 5
Observar a qualidade dos relacionamentos Ter muitos contatos não substitui vínculos em que existe confiança, respeito e segurança.
- 6
Levar a solidão persistente a sério Quando o sentimento provoca sofrimento, buscar apoio profissional pode ser importante.
A saúde também precisa ser observada para além dos resultados de exames. Pressão arterial, colesterol e glicemia continuam sendo indicadores fundamentais, mas não contam toda a história de como uma pessoa vive.
Fontes: Informações e orientações discutidas com o cardiologista Max Lima e a nutricionista Maristela Luft. Para contextualização científica sobre a relação entre conexão social e saúde, consulte a Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS).
De modo geral, cuidar do coração e do cérebro também envolve prestar atenção ao cotidiano, encontrar espaço para descansar e preservar as relações que fazem parte da vida.
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