Família de três irmãos comandava grupo criminoso investigado pela PF em MS

A Operação IFRIT deflagrada nesta quarta-feira (4) pela Polícia Federal revelou uma organização criminosa comandada por três irmãos e outros familiares em MS. Eles mantinham uma estrutura organizada para o tráfico internacional de drogas e armas que, segundo a investigação, adquiria os produtos na Bolívia, no Paraguai e no Peru e utilizava a fronteira de MS como rota de entrada no Brasil. As cargas abasteciam redes de distribuição em diferentes estados e também seguiam para o mercado europeu, principalmente Espanha e Portugal.

Operação IFRIT da Polícia Federal | (Divulgação)

Ex-delegado da Denar, Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, foi alvo de mandados e é suspeito de desvio de 2 toneladas de cocaína.

De acordo com a PF, o entorpecente apreendido por forças de segurança era retirado do depósito e substituído por cocaína de baixa pureza, misturada a outros produtos. A droga original, com maior grau de pureza, era comercializada pelo grupo criminoso.

O delegado investigado teria atuado como chefe da Denar e do Grupo Armado de Repressão a Roubos, Assaltos e Sequestros (Garras) até 2026. Conforme a investigação, ele teria facilitado o acesso de integrantes da organização às dependências da delegacia e ao depósito de drogas em diferentes ocasiões.

A Polícia Federal estima que o esquema tenha rendido ao delegado pelo menos R$ 15 milhões, além de veículos, uma mansão no condomínio Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis (GO). Os valores teriam sido obtidos ao longo de aproximadamente dois anos.

Hoffman foi alvo da Operação Infiltrados, ação realizada em setembro, que revelou um esquema de desvio de drogas e corrupção envolvendo integrante da segurança pública de Mato Grosso do Sul.

A defesa de Hoffman disse em nota que aguarda acesso aos autos e que não iria se manifestar. Confira:

“A Defesa Técnica do Delegado de Polícia Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa informa que tomou conhecimento do cumprimento de novo mandado de prisão preventiva e de medidas de busca e apreensão no âmbito da denominada Operação Ifrit. Até o presente momento, a Defesa ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova custódia nem aos elementos probatórios que embasaram as medidas.

Diante disso, qualquer manifestação sobre o mérito seria prematura. Assim que houver acesso completo ao procedimento, a Defesa realizará a análise técnica do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa.”

Organização atuava na fronteira entre MS e Paraguai

As investigações apontam que a organização era comandada por um núcleo familiar formado por três irmãos, filhos e outros familiares. O grupo mantinha ligação com facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

A principal área de atuação era a região de fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, mas a organização também mantinha ramificações em Campo Grande e em outros estados.

Segundo a PF, drogas e armas eram obtidas na Bolívia, no Peru e no Paraguai. Os entorpecentes abasteciam cidades brasileiras e também eram transportados pelo país para posterior exportação à Europa, principalmente Espanha e Portugal.

A investigação identificou ainda a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Conforme a apuração, os agentes forneciam informações sigilosas ao grupo em troca de dinheiro e bens, além de monitorar rivais e antecipar operações policiais.

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Operação IFRIT da Polícia Federal | (Divulgação)

Mais de R$ 500 milhões em movimentações

A Polícia Federal identificou movimentações financeiras superiores a R$ 500 milhões ao longo de dois anos de investigação. O dinheiro teria circulado por meio de contas dos investigados, doleiros, empresas de fachada e negócios utilizados para ocultar a origem dos recursos.

A operação também determinou o sequestro de aproximadamente 160 imóveis, entre mansões, apartamentos, um haras e seis fazendas localizadas em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas. Também foram alcançados mais de 150 veículos, lanchas, cavalos de raça e outros bens.

O patrimônio sequestrado ultrapassa R$ 500 milhões, segundo a PF. Também foram determinadas ordens de bloqueio de até R$ 300 milhões em contas bancárias de 170 pessoas físicas e jurídicas.

A organização é investigada por tráfico transnacional de drogas, tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro, corrupção, peculato, tortura e homicídios, entre outros crimes.

Policiais facilitavam para criminosos

Em entrevista durante a Operação Ifrit, o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Carlos Henrique Cotta D’Angelo, afirmou que a família investigada atuava no tráfico de drogas havia mais de uma década e utilizava a estrutura de agentes públicos para facilitar as atividades criminosas.

“Uma família dedicada ao tráfico de drogas há mais de uma década e o que chama atenção é que ela usava a estrutura também de agentes públicos, infelizmente, aqui no Estado do Mato Grosso do Sul”, declarou.

Segundo o superintendente, a organização conseguia obter entorpecentes tanto de países vizinhos quanto de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança. Policiais investigados teriam facilitado o acesso a drogas armazenadas em unidades policiais e repassado informações internas ao grupo.

“A organização criminosa se sustentava muito fortemente no tráfico de drogas. Para isso, ela tinha que ter acesso a esse material ilícito. E ela obtinha tanto dos países vizinhos como se valendo, por vezes, de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança do Estado”, explicou.

Cotta D’Angelo também afirmou que os agentes públicos investigados atuavam no favorecimento do acesso aos entorpecentes e no fornecimento de informações sigilosas.

“A participação dos agentes públicos é nesse sentido, de retirada de droga das unidades policiais e de favorecimento aos criminosos com informações de dentro das polícias”, disse.

O superintendente ressaltou ainda que a família não era a única organização com atuação expressiva na região de fronteira. Segundo ele, diferentes grupos criminosos operam nas divisas de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia.

“Hoje nós não podemos falar de uma única família que tem essa função. Nós temos grupos que atuam fortemente na fronteira tanto do Brasil com o Paraguai quanto com a Bolívia”, afirmou.

Além do tráfico internacional de drogas e armas, a investigação identificou indícios de homicídios, torturas, cárcere privado e sequestros. “Nós temos aí indicativos de homicídios, nós temos indicativos de torturas, de cárcere privado, de sequestro”, detalhou.

Sobre o patrimônio sequestrado durante a operação, Cotta D’Angelo explicou que o objetivo é retirar os recursos da estrutura criminosa. “O trabalho investigativo é rastrear todo esse patrimônio, retirar todo esse patrimônio da atividade criminosa e voltar o patrimônio para o Estado”, concluiu.

Operação mobiliza 500 policiais federais

A Operação Ifrit foi deflagrada nesta quarta-feira (4), em ação conjunta da Polícia Federal com a Receita Federal, após autorização da Justiça Federal de Campo Grande. Ao todo, foram mobilizados 500 policiais federais e 44 servidores da Receita Federal.

As equipes cumprem 76 mandados de busca e apreensão, 25 mandados de prisão preventiva e um de prisão temporária, além de três medidas de monitoração eletrônica e o afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul.

As diligências ocorrem em sete estados: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. A operação também conta com aeronaves e equipes táticas da Polícia Federal.

A Justiça determinou ainda a inclusão de 11 lideranças da organização criminosa no sistema de presídios federais. Segundo a PF, 26 mandados de prisão foram incluídos na difusão vermelha da Interpol.

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