Ex-funcionária de uma lotérica em Sinop (MT), Clarice Simon afirma que operadores de caixa eram obrigados a pagar do próprio bolso por bilhetes rasurados, bolões que não eram vendidos e diferenças no fechamento diário. A declaração foi dada em entrevista ao Fantástico sobre a disputa judicial envolvendo um bilhete danificado da Mega-Sena. Clarice trabalhou por quatro anos e meio na lotérica.
Segundo ela, a rotina incluía atendimento a clientes, recebimento de boletos, pagamento de contas, realização de apostas e venda de bolões. Quando os bolões não eram vendidos até o fim do expediente, os funcionários precisavam encontrar compradores ou assumir o prejuízo.
“Se não vendesse o bolão, a gente tinha que pagar no final do dia. Ou a gente achava um cliente para comprar, ou a gente pagava”, relatou.
A ex-funcionária afirma que a mesma regra valia para apostas com falha na impressão. Se um bilhete saísse rasurado ou fosse cortado pela máquina, o valor era pago pelo operador responsável pelo caixa.
“Se faltasse no caixa, a gente pagava. Se o jogo rasurava, a gente pagava. Tudo a gente pagava ali”, disse Clarice.
Segundo ela, não havia treinamento para estorno ou cancelamento de apostas com erro. Clarice relata que, quando questionava o que deveria ser feito nesses casos, recebia a orientação de que não havia alternativa a não ser pagar pelo jogo.
“A gente nunca teve treinamento para fazer estorno. Nunca foi feito um treinamento com a gente, nunca assinamos nenhum papel dizendo que deveria ligar ou estornar”, afirmou.

A cobrança, conforme a ex-funcionária, também acontecia quando havia diferença no caixa. Clarice diz que o fechamento precisava bater todos os dias e que, se faltasse dinheiro, o funcionário tinha que localizar o erro ou reembolsar a lotérica.
Ela afirma que, caso o valor não fosse pago na hora, poderia ser descontado do salário. Em um dos meses, segundo Clarice, ela chegou a pagar R$ 150 por diferença relacionada a bolões que não conseguiu vender.
“Uma vez aconteceu, eu perguntei para a gerente e falei assim: “A máquina engoliu o jogo, e agora?” Não tem o que fazer, tem que pagar. Esse era o dilema para a gente. Logo quando eu entrei na lotérica também, eu perguntei uma vez que o jogo tinha, cortado, e eles diziam ‘tem que pagar, não tem o que fazer’. A gente sempre pagou”, contou.
Bilhete premiado
O caso aconteceu em 12 de agosto de 2023. Clarice afirma que atendeu uma cliente, registrou a aposta, mas o comprovante foi cortado pela máquina. Em seguida, refez o mesmo jogo e entregou à apostadora um bilhete intacto.
O bilhete com defeito, segundo Clarice, ficou separado e foi pago por ela, como ocorria em outros casos de apostas rasuradas. A ex-funcionária sustenta que o caixa fechou corretamente naquele dia, o que, para ela, comprovaria que o valor do jogo foi assumido.
Clarice diz que guardou o bilhete em um cofre usado como espaço de trabalho, onde também ficavam troco, pertences, jogos de clientes, boletos e outros itens pessoais. Ela afirma que esse não era o cofre onde ficava o dinheiro da lotérica.

O prêmio foi descoberto apenas na segunda-feira seguinte, quando Clarice voltou ao trabalho e pediu para uma colega conferir os jogos guardados. Ao passar o bilhete na máquina, a colega confirmou que o comprovante danificado estava premiado.
A partir daí, começou a disputa entre Clarice e o dono da lotérica. A ex-funcionária afirma que ficou com o bilhete porque pagou por ele. Já o proprietário contesta a versão e também reivindica o direito ao prêmio.
Clarice nega ter furtado o comprovante e diz que apenas seguiu uma prática que, segundo ela, era comum no local de trabalho.
“Eu tenho consciência de que não fiz nada de errado. Sempre foi uma coisa que a gente fazia ali, de pagar jogos rasurados e bolão que sobrava”, disse.
Para a ex-funcionária, o caso precisa ser analisado a partir da rotina de cobranças dentro da lotérica. A Justiça ainda vai decidir quem tem direito ao valor.
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