Júri de policiais militares acusados de matar jovem desaparecido em Rosário Oeste começa nesta quarta

Os policiais militares Odjarma Jesus de Almeida, Jucival Claro da Silva e Luan Antoniel da Cruz Gomes serão julgados nesta quarta-feira (8). Eles são acusados da morte de Ronaldo Cargas da Cunha, de 25 anos, ocorrida em 2016, em Rosário Oeste (MT). O corpo do rapaz nunca foi encontrado. Os réus respondem em liberdade.

Decisão da juíza da Vara Única de Rosário Oeste, Marilia Augusto de Oliveira Plaza, adiantou o julgamento que havia sido marcado para os dias 16 e 17 deste mês, para esta quarta (8) e quinta-feira (9), em razão de período de férias do promotor do caso.

Ronaldo Vargas da Cunha desapareceu em 13 de dezembro de 2016 e nunca foi encontrado. – Foto: Reprodução

Na mesma decisão foi negado pedido da defesa dos acusados para adiar o júri em função de um atestado de saúde e afastamento do trabalho de um investigador do caso, que deve ser ouvido no julgamento como testemunha e de participação tida como imprescindível.

“O afastamento funcional de um servidor público por licença para tratamento de saúde, ainda que de natureza psicológica, não se confunde, nem se equipara, à incapacidade de testemunhar em juízo. São institutos jurídicos e fáticos absolutamente distintos”, diz trecho da decisão.

Além do investigador, estão previstos os depoimentos de mais de 20 testemunhas, além dos interrogatórios dos réus, motivo pelo qual foi elaborado um esquema especial de organização e segurança para a realização da sessão do júri, conforme informou o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) à reportagem.

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Vizinhos relataram ter visto Ronaldo entrar em viatura da Polícia Militar antes de desaparecer. – Foto: Reprodução

Em consulta ao Diário Oficial do Estado, consta que Odjarma Jesus de Almeida foi transferido para a inatividade mediante reserva remunerada, em 23 de fevereiro de 2023, após 30 anos, 10 meses e 4 dias de serviço.

Jucival Claro da Silva e Luan Antoniel da Cruz Gomes permanecem ativos na corporação e tiveram progressão de carreira na PMMT para nível II como cabo a partir de 16 de dezembro de 2025. Informação foi publicada em 20 de janeiro deste ano.

O Primeira Página entrou em contato com a Polícia Militar para uma manifestação sobre o caso. Em retorno, a corporação informou que não temos posicionamento e aguarda a decisão da Justiça. A reportagem busca contato da defesa dos policiais para um posicionamento. Espaço segue aberto.

Desaparecimento, gritos e viatura

Segundo denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), na madrugada de 13 de dezembro de 2016, o Bairro Nossa Senhora Aparecida, em Rosário Oeste, os policiais militares Odjarma Jesus de Almeida, Jucival Claro da Silva e Luan Antoniel da Cruz Gomes teriam matado o jovem Ronaldo Vargas da Cunha, de 25 anos.

No local da abordagem, a bicicleta da vítima foi encontrada abandonada e duas testemunhas moradoras da proximidade teriam visto o rapaz entrar na viatura.

Outra testemunha afirmou que ouviu um grito, um som forte semelhante ao fechamento de um porta-malas, seguido de silêncio. Ela ainda teria visto uma bicicleta jogada no chão e uma viatura deixar o local.

Familiares relataram que o jovem nunca mais atendeu ligações de celular.

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Bicicleta de Ronaldo Vargas da Cunha foi encontrada abandonada e testemunhas relataram ouvir gritos e avistar viatura deixar o local. – Foto: Reprodução

A investigação iniciou com o desaparecimento de Ronaldo, após ser abordado por uma guarnição da Polícia Militar, integrada pelo comandante sargento Odjarma e os soldados Jucival e Luan Antoniel.

A Polícia Civil apurou que os militares mandaram o rapaz entrar no porta malas da viatura, dirigida por Luan Antoniel. Com base em dados de deslocamento da viatura as investigações indicaram que após a abordagem o veículo seguiu pela MT-010, em uma estrada na Zona Rural.

O rapaz teria sido morto em um matagal. A conclusão teve por base o período em minutos que a viatura permaneceu no local. Na sequência, o veículo teria parado alguns minutos na Ponte sobre o Rio Cuiabá. Para a Polícia Civil, o corpo do rapaz teria sido jogado no rio.

Segundo o MPMT, o comandante Odjarma teria sido quem deu ordens aos subordinados para que executassem a vítima e coordenado a retirada do corpo de Ronaldo do local e a posterior ocultação.

Jucival e Luan Antoniel seriam responsáveis por intimidar Ronaldo, obrigá-lo a entrar na viatura.

Outro lado

Em juízo, os policiais declararam que no dia 13 de dezembro de 2016 faziam rondas em Rosário Oeste quando receberam uma chamada, via rádio, informando sobre um possível furto de baterias de caminhões na BR-163.

No trajeto, abordaram um ciclista, mas, após uma revista rápida, não encontraram nada suspeito e o liberaram, seguindo para a ocorrência. Cerca de cento e cinquenta metros adiante, encontraram uma bicicleta abandonada.

Segundo os policiais, como era comum furtos rápidos na região, desceram da viatura para verificar, mas não encontraram suspeitos ou vítimas. Permaneceram no local por cerca de quatro a cinco minutos antes de seguir em frente.

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Policiais militares de Rosário Oeste negam acusações e alegam que nunca viram ou abordaram Ronaldo. – Foto: Reprodução

Conforme os militares, na sequência, que não encontraram nenhuma movimentação suspeita na BR-163 e
continuaram a patrulha por outros bairros. No caminho, um motoqueiro os informou sobre um carro suspeito próximo a uma fazenda.

Eles seguiram até o local, percorreram uma estrada de terra, mas não encontraram nada e decidiram retornar para a cidade. Depois, foram ao quartel para tomar água e retomaram as rondas normais.

O trio afirmou que não colocaram ninguém na viatura naquele dia e que não conheciam o desaparecido.

Contradições nos depoimentos

Consta ainda no processo que uma reprodução simulada dos fatos com colaboração da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) chegou a acontecer, junto dos três policiais envolvidos.

Os policiais mantiveram as versões, mas o monitoramento via satélite revelou inconsistências. Conforme o delegado de Polícia responsável pela investigação, o relatório de GPS da viatura utilizada apresentou diversas contradições em relação à versão dos policiais.

A viatura não passou pelo local indicado para a primeira abordagem. Também não houve deslocamento para a BR, contrariando a alegação de diligências por suposto furto ou roubo, que não foram registrados naquele dia. Foram registradas idas e vindas não mencionadas pelos policiais, e a viatura parou no meio da ponte.

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