Cuiabá segue sem centro para acolher mulheres quase 20 anos após Lei Maria da Penha

Quase duas décadas após a criação da Lei Maria da Penha, considerada um marco no combate à violência contra a mulher no Brasil, Cuiabá ainda aguarda a entrega de uma estrutura voltada ao acolhimento de vítimas. O Centro de Referência de Atendimento à Mulher, que deveria oferecer apoio especializado, permanece fechado mesmo com mais de 83% das obras concluídas.

Onze anos após o feminicídio da professora Lucimar, familiares afirmam que a falta de acolhimento pode ter contribuído para a tragédia. – Foto: TVCA/ Reprodução

A ausência de espaços como esse ganha um peso ainda maior para famílias que já sentiram na pele as consequências da violência. É o caso da professora Lucimar, vítima de feminicídio em Várzea Grande, em 2014. Onze anos depois, a sobrinha dela, Gisele Caroline de Oliveira, acredita que o desfecho poderia ter sido diferente se houvesse um local seguro para acolhimento e orientação.

Segundo a família, Lucimar enfrentava ameaças e episódios de violência praticados pelo ex-companheiro, mas nunca registrou boletim de ocorrência. Para Gisele, faltavam informação, apoio e um ambiente que transmitisse segurança para que a tia buscasse ajuda.

“Quando ele deu o sinal de agressividade, que bateu no carro dela e invadiu a casa, eu acho que se tivesse um lugar de acolhimento na época ela iria direto para lá. Ela não iria para casa”, afirmou.

Família de professora morta cobra estrutura para proteger mulheres da violência
Família de professora morta cobra estrutura para proteger mulheres da violência. Foto: TVCA/Reprodução

A história de Lucimar ajuda a ilustrar a importância de políticas públicas voltadas à proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade. Dados de feminicídio e violência doméstica continuam alarmantes em Mato Grosso, reforçando a necessidade de estruturas especializadas para atendimento e acolhimento.

Para a vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Almeida, a demora na implantação desses equipamentos representa um descumprimento de uma política prevista há anos na legislação. “Nós vamos fazer 20 anos da Lei Maria da Penha, e essas instituições estão garantidas na legislação desde 2006”, destacou.

Obra do Centro de Referência de Atendimento à Mulher está com mais de 83% de execução, mas segue sem funcionar em Cuiabá. Foto: TVCA/Reprodução
Obra do Centro de Referência de Atendimento à Mulher está com mais de 83% de execução, mas segue sem funcionar em Cuiabá. Foto: TVCA/Reprodução

Segundo a Prefeitura de Cuiabá, o Centro de Referência de Atendimento à Mulher está com mais de 83% das obras concluídas. Os trabalhos, porém, foram interrompidos após a rescisão do contrato com a empresa responsável pela construção.

obra parada
Obra destinada ao atendimento de mulheres vítimas de violência aguarda conclusão. Foto: TVCA/Reprodução

A secretária municipal da Mulher, Hadassah Suzannah, afirmou que a administração trabalha para contratar uma nova empresa e retomar os serviços. A expectativa é concluir a obra nos próximos meses.

“Considerando esse cenário, que agora está mais consolidado, nossa expectativa é que no final de julho ou início de agosto possamos fazer a entrega”, disse.

Outro projeto considerado estratégico para o atendimento às vítimas de violência ainda não saiu do papel. A Casa da Mulher Brasileira, prevista para Cuiabá, depende de articulação entre prefeitura, governo do estado e governo federal para definição do local e início da implantação.

Enquanto aguarda definição do terreno, projeto da Casa da Mulher Brasileira permanece sem previsão para início das obras em Cuiabá. Foto: TVCA/ Reprodução
Enquanto aguarda definição do terreno, projeto da Casa da Mulher Brasileira permanece sem previsão para início das obras em Cuiabá. Foto: TVCA/Reprodução

Segundo a secretária municipal da Mulher, Hadassah Suzannah, a administração municipal já solicitou ao Governo Federal uma avaliação dos pontos considerados mais adequados para receber a estrutura. Entre os critérios estão facilidade de acesso, segurança e proximidade com serviços essenciais.

“Pedimos a eles que olhassem para Cuiabá os pontos mais estratégicos em que essa região pudesse ser construída. São locais que a gente entende que têm condições dessa mulher chegar de ônibus, de carro, locais acessíveis, locais seguros, sobretudo próximos da Polícia Militar e de hospital”, afirmou.

De acordo com a secretária, o local definitivo ainda não foi escolhido e a definição deverá ocorrer em conjunto com o prefeito de Cuiabá e o governador de Mato Grosso. A proposta é garantir que a unidade seja instalada em uma área que facilite o acesso das mulheres à rede de proteção e aos demais serviços públicos envolvidos no atendimento às vítimas de violência. Assista abaixo a reportagem da TV Centro América que faz parte da série Destinos Roubados:

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia