O primeiro câncer transmissível já descrito entre peixes foi identificado por pesquisadores da Universidade de Vermont em bagres de um lago na fronteira entre Estados Unidos e Canadá.
O melanoma, que cobre o corpo dos peixes de manchas pretas, não surge dentro de cada um deles e se espalha quando as próprias células tumorais saem de um peixe e se instalam em outro, segundo o estudo publicado na revista Nature, na quarta-feira (22).
Ainda conforme o estudo, esse comportamento das células tumorais foi registrados, até o momento, em apenas três grupos de bagres do lago Memphremagog.
Apesar de ser descrito como um câncer transmissível, os cientistas não descrevem um agente infeccioso que provoca um tumor novo em cada indivíduo, como o HPV (papilomavírus humano) faz no colo do útero.
De forma prática, é a mesma célula cancerosa, carregando o DNA do animal em que nasceu, migrando de hospedeiro em hospedeiro. Ela se comporta menos como tumor e mais como parasita. O fenômeno nunca foi registrado entre seres humanos.
Câncer em bagres e problema ambiental
O caso do Memphremagog começou como um problema ambiental. Entre 2014 e 2017, uma contagem encontrou lesões pretas e elevadas na pele de 23% a 37% dos bagres da espécie Ameiurus nebulosus.
A análise microscópica identificou melanoma, o mesmo tipo de câncer de pele que, em pessoas, costuma ser associado à exposição solar.
Pesquisadores chamaram atenção para o fato de que o bagre vive no fundo do lago, no escuro, com o corpo sem escamas raspando o sedimento. A explicação óbvia não servia para a presença do melanoma.
O lago, cerca de 50 quilômetros de água doce entre Vermont, nos Estados Unidos, e a província canadense do Quebec, é monitorado de perto pois abastece mais de 175 mil pessoas.
A primeira suspeita recaiu sobre a água, já que uma enchente provocada pela tempestade tropical Irene, em 2011, havia degradado a qualidade do lago com o escoamento de poluentes, e a espécie é usada há décadas como indicadora ambiental justamente por acumular o que há de ruim no fundo.
Foi para testar essa hipótese que o grupo sequenciou o genoma completo dos tumores e do tecido saudável dos mesmos animais. O resultado apontou para outra direção.
O câncer que parece se comportar como um parasita
A descoberta em bagres chamou atenção porque os tumores parecem ter uma origem comum e podem ter passado de um peixe para outro.
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CÂNCER NOS BAGRES Uma mesma linhagem de células tumorais pode ter migrado entre hospedeiros
🧬 DNA em comum
Os pesquisadores analisaram mais de 686 mil posições do genoma e encontraram cerca de 245 mil alterações ligadas aos tumores.
🔎 A pista principal
Os tumores apresentavam características que indicavam uma origem comum. Por isso, os cientistas concluíram que eles não surgiram de forma independente.
🌊 Onde aconteceu?
O fenômeno foi identificado, até o momento, em apenas três grupos de bagres do lago Memphremagog.
🦠 Por que “parasita”?
Não é um vírus como o HPV. A hipótese é de que a própria célula cancerosa, carregando o DNA do animal em que nasceu, passe de um hospedeiro para outro.
⚠️ O que torna o caso tão raro?
Em seres humanos, esse fenômeno nunca foi registrado. Normalmente, um tumor nasce das células do próprio organismo. Neste caso, os dados genéticos sugerem que uma mesma linhagem de células cancerosas pode ter sobrevivido e se espalhado entre diferentes peixes.
Tumor que não pertencia ao peixe
Um tumor nasce das células do próprio organismo que adoece: por definição, o DNA do câncer deve ser o DNA do hospedeiro, com mutações a mais. Nesse caso, não foi o que apareceu.
Foi então que os pesquisadores de Vermont compararam mais de 686 mil posições do genoma dos bagres e encontrou 245 mil alterações que apareciam no tumor e não no tecido saudável do mesmo animal, ou seja, marcas do câncer e não do peixe.
Já o tecido sadio desses mesmos animais se comportou como a biologia manda: 83,4% de suas alterações eram exclusivas de um único indivíduo. Cada peixe com os seus próprios erros, como se espera de organismos sem parentesco entre si. Diante disso, os cientistas concluíram que os tumores não nasceram separados.
Para calibrar o que isso significa, os autores foram buscar comparação no Atlas do Genoma do Câncer (The Cancer Genome Atlas), o maior banco de dados genômicos de tumores humanos.
Entre 463 melanomas de pacientes, 94% das mutações eram exclusivas de um único caso. Apenas 40 de quase 500 mil alterações apareciam em dez ou mais tumores. Cânceres independentes não se parecem tanto assim.
Os melanomas do lago descendem, portanto, de um mesmo animal fundador, num evento anterior a 2015.
A varredura em busca de vírus e bactérias que pudessem explicar o surto não encontrou nenhum microrganismo associado aos tumores. O que resta como agente de transmissão é a própria célula cancerosa, segundo a pesquisa.
Até então, esse tipo de câncer havia sido encontrado em cães, diabos-da-tasmânia e moluscos. O bagre é o quarto animal nessa sequência de uma tipologia de câncer descrito tanto em um peixe quanto em ambiente de água doce.
Riscos ao consumo de peixe?
A descoberta chegou aos consultórios de uma forma preocupante, mas a oncologista Stephen Stefani, do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation alerta a população para o fato de que o câncer não é uma doença contagiosa entre humanos.
A mesma explicação é válida para o contato entre humanos e peixes, descartando possibilidade de transmissão por ingestão. Segundo a oncologista, uma célula é degradada até virar aminoácido durante a digestão.

Julie Dragon, geneticista molecular da Universidade de Vermont que co-liderou o estudo, afirma que a doença não apareceu em nenhuma outra espécie de fundo do mesmo lago e que não há ameaça conhecida à saúde humana.
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