Algumas coisas despertam o interesse em múltiplos campos da vida, tal o fascínio que carregam consigo. A sinestesia é uma delas, um fenômeno médico, que ganhou espaço também na literatura. Na medicina, está dentro da neuropsiquiatria, observada quando algo estimula um dos sentidos e provoca, automaticamente, a experiência em outro; em outras palavras, aquilo, que deveria ser foco de um sentido, vem a ser experimentado por outro sentido.
Para ficar mais claro, uma pessoa sinesteta é capaz de ouvir o aroma de um perfume, por exemplo, ou sabor de um vocábulo, ou misturar formas a cheiros ou sabores.
Em medicina, há as formas mais comuns de sinestesia, como aquelas em que palavras são percebidas como sabores e aquelas em que sons são percebidos como cores ou formas visuais. Sabe-se, por meio de pesquisas, que a sinestesia parece ser o resultado do cruzamento de conexões neurais entre áreas sensoriais do cérebro, com grande possibilidade de ser herdada geneticamente.
Em vez de um transtorno, é uma capacidade presente em cerca de 4% da população, desde manifestações sinestésicas leves até as mais intensas, sendo mais frequente em mulheres, indivíduos canhotos e artistas. A sinestesia é involuntária e permanente e está presente desde a infância. Não é considerada uma enfermidade, portanto não há motivo para ser tratada.
No entanto, em alguns casos, a sinestesia pode causar desconforto significativo, devido à sobrecarga sensorial. Aí, algumas estratégias podem ser adotadas para diminuir o incômodo.
Como não se trata de uma doença, as estratégias adotadas não significam tratamento, são apenas reorganizadoras do ambiente, para diminuir sons e luzes fortes, ou até mesmo estimular o uso de óculos com filtros de cor e abafadores de ruídos. Técnicas de relaxamento também podem ser orientadas e algumas vezes a terapia cognitivo comportamental (TCC) também pode ser indicada.
Como não é um quadro patológico, não há tratamento medicamentoso, nem indicação para uso de medicamentos, a não ser que haja alguma doença psiquiátrica, o que não é raro. A sinestesia pode ser induzida, temporariamente, por determinadas drogas alucinógenas ou, definitivamente, consequente a lesões cerebrais.
Na literatura brasileira Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa são dois grandes nomes do Simbolismo no Brasil, escola literária, que usou a sinestesia, não de forma involuntária, mas como figura literária, como metáfora poética, tal no exemplo do poema de Cruz e Souza:
“Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…”
É importante compreender que em vez de doença, a sinestesia é um fenômeno neurológico que, geralmente, não provoca nenhum incômodo na vida de quem a tem. Pelo contrário, na maioria das vezes, o sinesteta desfruta de vantagens pela percepção privilegiada que possui. Se houver algum incômodo, o indivíduo deve aprender a fazer os ajustes necessários para aliviá-lo. Por outro lado, em não havendo qualquer desconforto, basta viver o privilégio dessa experiência única.