Denúncias em Mato Grosso levaram PF a ampliar investigação dos consignados

A Operação Fugazi, deflagrada nesta quarta-feira (15) pela Polícia Federal, representa um novo capítulo das investigações sobre supostas fraudes em operações de crédito consignado contra servidores públicos, aposentados e pensionistas. Embora a ofensiva tenha como alvo empresas sediadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul, o caso começou a ser apurado em Mato Grosso ainda em 2025, após denúncias de servidores, investigações da Polícia Civil e representações apresentadas por entidades sindicais.

A ação desta quarta-feira cumpriu 13 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS), além do bloqueio de bens e ativos financeiros dos investigados, por determinação da Justiça Federal em Mato Grosso. A Polícia Federal também apura possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, lavagem de dinheiro e outros delitos que possam ser identificados ao longo das investigações.

Segundo a investigação, empresas do grupo apresentavam aos consumidores contratos de cartão de crédito consignado que, na prática, funcionariam como empréstimos consignados com juros elevados, descontos sucessivos em folha de pagamento e mecanismos que dificultavam a quitação da dívida, aumentando o saldo devedor das vítimas.

Empresas e empresários são alvo da operação

A Polícia Federal aponta a Capital Consig Sociedade de Crédito Direto S.A. como a principal empresa investigada e o núcleo de um grupo econômico que atuaria de forma integrada no mercado de crédito consignado.

Também é alvo da investigação a Cartos Sociedade de Crédito Direto S.A..

Além delas, a operação também alcança a Clickbank Instituição de Pagamentos Ltda., a BemCartões Benefícios S.A., o Grupo ClickDigital Participações S.A., a Quiz Holding Ltda. e a ABCCard Cartões Ltda. Ao todo, são 13 alvos, entre empresas e sócios.

Segundo a PF, as empresas integram um conglomerado que teria estruturado operações financeiras apresentadas aos consumidores como cartão de crédito consignado, mas que funcionariam, na prática, como empréstimos consignados, com cobrança de juros elevados e mecanismos que dificultariam a liquidação das dívidas.

Investigação começou em Mato Grosso

As suspeitas sobre o grupo começaram a ganhar força em Mato Grosso em 2025, quando a Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decor) instaurou dois inquéritos para investigar denúncias apresentadas por servidores públicos estaduais.

Na época, o delegado Rogério Ferreira informou que as investigações identificaram duas modalidades principais de fraude.

Na primeira, servidores eram procurados por empresas oferecendo um novo empréstimo consignado, mas acabavam contratando, sem saber, um cartão de crédito consignado. O valor recebido era depositado por PIX, enquanto os descontos mensais em folha correspondiam apenas ao pagamento mínimo da fatura, fazendo com que os juros continuassem incidindo sobre a dívida durante anos.

A segunda modalidade envolvia falsas ofertas de portabilidade e renegociação de empréstimos. Segundo a Polícia Civil, os servidores eram convencidos a fornecer dados pessoais, senhas e acessos bancários. Com essas informações, empresas abriam contas bancárias em nome das vítimas, contratavam novos empréstimos e realizavam diversas operações financeiras sem autorização.

As investigações também identificaram casos em que aparelhos celulares foram comprados em nome dos servidores para permitir o acesso às contas bancárias e a contratação de novas operações de crédito.

Denúncias de sindicatos chegaram à Polícia Federal

Paralelamente às investigações da Polícia Civil, sindicatos que representam servidores estaduais iniciaram uma atuação conjunta para denunciar as supostas irregularidades.

As entidades protocolaram representações junto à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), Controladoria-Geral do Estado (CGE), Ministério Público Estadual, Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), Ministério Público Federal e Polícia Federal, além do ajuizamento de uma ação civil pública para apurar as denúncias envolvendo contratos de crédito consignado.

Segundo as entidades sindicais, as reclamações envolvem operações comercializadas como cartão de crédito consignado que funcionariam como empréstimos, ausência de cartão físico, falta de envio de faturas, descontos contínuos em folha e dificuldades para amortizar as dívidas.

A mobilização reúne a Federação Sindical dos Servidores Públicos do Estado de Mato Grosso (Fessp-MT), Sinpaig-MT, Sindes-MT, Sintema-MT, Sintesmat, Sinpol, Sintep-MT e Sintap-MT, entidades que representam cerca de 50 mil servidores públicos estaduais.

TJ mantém retenção de recursos das empresas investigadas

Enquanto as investigações avançavam, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso determinou que os valores descontados dos servidores e destinados às empresas do grupo Capital Consig permanecessem depositados em juízo até a conclusão da auditoria dos contratos.

Posteriormente, o TJ autorizou a retomada dos repasses apenas à Eagle Sociedade de Crédito Direto, empresa que ingressou com ação própria. A decisão, no entanto, não beneficiou as demais instituições investigadas.

Assim, os recursos descontados dos servidores e destinados às empresas ligadas ao grupo Capital Consig continuam retidos por determinação judicial.

Operação aprofunda apurações

Além dos mandados de busca e apreensão, a Justiça Federal determinou o sequestro de bens móveis e imóveis, bem como o bloqueio de valores e ativos financeiros dos investigados.

Segundo a Polícia Federal, o objetivo é reunir novas provas, rastrear o fluxo financeiro dos recursos e esclarecer a participação de cada investigado no suposto esquema. As investigações continuam e poderão resultar na identificação de novos envolvidos e de outros crimes relacionados ao caso.

O Primeira Página busca ouvir os citados na reportagem.

  1. TJMT libera repasse de consignados para uma empresa e mantém bloqueio para investigadas

  2. Governo suspende novos credenciamentos de bancos para frear endividamento de servidores

  3. Só um banco é autorizado a fazer consignado para servidores de MT

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