Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, vive um paradoxo no campo. Enquanto máquinas cada vez mais tecnológicas transformam a produção rural, o acesso ao ensino superior e à qualificação ainda não acompanha o ritmo dessa mudança.
Dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que apenas cerca de 2% a 3% dos produtores rurais têm ensino superior completo. O número é significativamente inferior à média nacional, onde cerca de 20% da população adulta possui diploma universitário.
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Passei a entender o porquê das decisões. Deixou de ser só prática. Passou a ser análise.
Lígia Pedrini, engenheira agrônoma
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Foto: Arquivo pessoal
Criada em uma fazenda no estado, a engenheira agrônoma Lígia Pedrini, de Diamantino, faz parte de uma parcela ainda pequena no agro brasileiro. Ela deixou o campo ainda no ensino médio para estudar em Cuiabá. Naquele momento, o agronegócio não era o destino mais óbvio.
“Eu vim com a ideia de fazer medicina, porque era o caminho mais comum para quem saía do interior. Mas, quando comecei a entender melhor minhas aptidões, percebi que fazia mais sentido estudar algo que já fazia parte da minha realidade”, afirma.
Ao ingressar na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a rotina da fazenda ganhou outro significado. O que antes era visto como prática e costume passou a ser interpretado com base em conhecimento técnico.
“Passei a entender o porquê das decisões. Deixou de ser só prática. Passou a ser análise”, disse.
Foto: Arquivo pessoal
A atividade rural deixou de depender exclusivamente da experiência acumulada entre gerações e passou a exigir leitura técnica, análise de dados, gestão de custos, domínio de ferramentas digitais e tomada de decisão em ambientes cada vez mais complexos. Nesse cenário, o ensino superior ganhou um papel central.
Segundo a PNAD Contínua 2024, apenas 31,2% dos jovens de 18 a 24 anos estavam estudando no país. A média de anos de estudo da população com 25 anos ou mais chegou a 10,1 anos, enquanto a taxa de analfabetismo caiu para 5,3%, a menor da série histórica.
No meio rural, esse desafio se intensifica. A permanência dos estudantes diminui ao longo das etapas de ensino, especialmente no ensino médio, fase decisiva para o acesso ao ensino superior. A distância entre escolas, a necessidade de trabalhar cedo e a menor oferta de cursos técnicos e universitários contribuem para a evasão.
Formação superior ainda é desafio no campo
Produção rural exige mais tecnologia, mas ensino superior ainda é limitado no campo
Produtores com ensino superior 2% a 3%
População adulta com diploma 20%
O campo exige mais conhecimento, mas poucos conseguem chegar à universidade
O que mudou no agro
ANTES
Produção baseada na prática e na experiência
AGORA
Gestão com dados, tecnologia e análise
Transformação do setor
- Até 2000: produção tradicional
- 2000–2015: mecanização
- 2015–hoje: agro digital e gestão
Por que poucos chegam ao ensino superior?
Ensino fundamental
Ensino médio
Ensino superior
Distância das escolas Trabalho precoce Baixa oferta de cursos Dificuldade de permanência
84,8% das áreas rurais têm internet
Mas acesso não garante qualificação
O agro se tornou mais técnico e exigente. O desafio agora é fazer a formação acompanhar essa transformação.
Fonte: IBGE, PNAD, Censo Agropecuário | Elaboração: Primeira Página
O resultado é um funil que limita quem consegue chegar à formação exigida pelo novo agro. É nesse ponto que a universidade deixa de ser um espaço distante e passa a integrar a própria lógica da produção.
Pesquisas desenvolvidas por instituições como a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostram que o uso de tecnologias de agricultura de precisão altera diretamente a forma como produtores tomam decisões, com impacto na produtividade e na redução de custos. O manejo deixa de ser baseado apenas na prática e passa a ser orientado por dados.
Aprendizado ‘na marra’
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Antes era plantar e colher. Hoje é metade produção e metade gestão. Tem questão econômica, jurídica, comercial. É um negócio muito mais complexo.
ADRIANE STEINMETZ • JORNALISTA E PRODUTORA RURAL
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Foto: Arquivo pessoal
Formadas em Jornalismo e Direito, elas não planejavam trabalhar no campo. A mudança veio em 2014, após a morte do pai, quando assumiram, junto com a mãe, a gestão da fazenda da família, em Mineiros (GO). “Foi tudo na marra. A gente não estava preparada para assumir o negócio”, resume Adriane.
Sem conhecimento técnico, o aprendizado veio no dia a dia. “Eu perguntava muito, andava junto com quem sabia, buscava cursos e consultorias. Se eu não perguntasse, não ia aprender”, conta.
Foto: Arquivo pessoal
Em um caminho diferente, Adriane e Cristiane Steinmetz chegaram ao agronegócio sem formação técnica específica, mas encontraram na tecnologia e no acesso à informação uma forma de compensar essa lacuna.
Com o tempo, a tecnologia passou a ocupar um papel central na gestão. “Hoje você precisa de software, de controle de dados, de gestão. Não dá mais para tocar a fazenda só com experiência e anotações”, afirma.
Ela destaca que o agro deixou de ser apenas operacional. “Antes era plantar e colher. Hoje é metade produção e metade gestão. Tem questão econômica, jurídica, comercial. É um negócio muito mais complexo”.
A mudança também escancarou outro desafio: a falta de mão de obra qualificada. “Está cada vez mais difícil encontrar profissionais preparados, porque o campo exige muito mais conhecimento hoje”, diz.
Para Adriane, quem não acompanha essa transformação corre risco de ficar para trás. “Não é se vai acontecer. É quando. Quem não se qualificar não consegue se manter no agro”, afirma.
Operar máquinas já exige preparo técnico
A dificuldade de encontrar profissionais preparados no campo também tem levado o setor a investir mais em capacitação. Na prática, o desafio não é só contratar, é treinar. Com máquinas cada vez mais tecnológicas, a operação deixou de ser apenas prática e passou a exigir preparo específico.
Simuladores de realidade virtual têm sido usados como uma dessas ferramentas de treinamento. Com óculos 3D e controles interativos, o operador simula a condução de uma colheitadeira e precisa reagir a situações que fazem parte da rotina no campo.
A proposta é aproximar o treinamento da realidade, permitindo que o operador entenda, na prática, o nível de precisão e de atenção exigido na operação das máquinas.
A tecnologia é utilizada pela Áster, representante da John Deere na região, dentro de iniciativas voltadas à capacitação técnica.
Para o presidente da empresa, Luiz Piccinin, o avanço tecnológico só se traduz em resultado quando vem acompanhado de preparo.
“A tecnologia tem papel fundamental na modernização do agronegócio, mas ela precisa ser acessível e aplicada de forma estratégica para realmente gerar valor ao produtor”, afirma.
Bolsa de até R$ 3 mil mira novo perfil do agro
Se, de um lado, o setor investe em treinamento para dar conta da operação, de outro tenta ampliar o acesso à formação. Em Tangará da Serra, o Inspirar Agro oferece bolsas para formação de técnicos em manutenção de máquinas pesadas. O curso é gratuito e prevê auxílio mensal que pode chegar a R$ 3.330.
A iniciativa é desenvolvida pelo Senai em parceria com a John Deere e conta com apoio da Áster, concessionária que atende a região.
A formação tem duração de cerca de quatro meses, com aulas presenciais e a distância, e é voltada diretamente à manutenção de equipamentos usados no campo, uma área onde a demanda por profissionais cresce.
Segundo levantamento do Senai, o Brasil deve precisar de pelo menos 37 mil novos trabalhadores nesse segmento nos próximos dois anos.
Na prática, programas como esse tentam enfrentar um dos principais entraves do setor: a dificuldade de formar mão de obra na mesma velocidade em que a tecnologia avança.
Novos cursos surgem em escolas técnicas
O avanço da demanda por profissionais qualificados no campo também tem levado o poder público a ampliar a oferta de formação técnica voltada ao agronegócio. Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Seciteci) passou a ofertar cursos gratuitos em áreas como Agronegócio, Agropecuária e Agricultura nas escolas técnicas de mais de 20 municípios do estado.
As formações foram estruturadas a partir das características econômicas de cada região, considerando a demanda do setor produtivo e a necessidade crescente por mão de obra qualificada no campo. Cada turma conta com aproximadamente 40 vagas.
Segundo o secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, Dimorvan Alencar Brescancim, os cursos foram pensados para aproximar a formação das exigências atuais do agro. “O principal objetivo é formar profissionais qualificados para atuar diretamente no setor produtivo, com conhecimento técnico aplicado e capacidade de gerar resultados no campo”, afirma.
De acordo com ele, as formações incorporam conteúdos ligados à agricultura de precisão, mecanização agrícola, uso de dados, monitoramento remoto e gestão tecnológica das propriedades. A proposta, segundo a secretaria, é atender tanto jovens que buscam ingressar no mercado quanto trabalhadores que já atuam no setor e precisam acompanhar as mudanças tecnológicas no campo.
Acesso à internet
Dados do IBGE mostram que a conectividade no campo avançou nos últimos anos. Em 2024, cerca de 84,8% dos domicílios rurais brasileiros já tinham acesso à internet, ampliando o acesso de produtores a cursos online, assistência técnica, monitoramento remoto da produção e ferramentas de gestão à distância.
Cursos online
Assistência técnica
Gestão à distância
Monitoramento da produção
Reuniões remotas
Troca de conhecimento
Fonte: IBGE | Elaboração: Primeira Página
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