Uma operação conjunta da Vigilância Sanitária com a Secretaria Estadual de Saúde (SES) revelou a dimensão de um mercado irregular que movimenta milhões de reais no país e tem partido de Mato Grosso do Sul. Em apenas dois meses e meio, a ação realizada no centro logístico dos Correios em Campo Grande resultou na apreensão de quase uma tonelada de medicamentos emagrecedores de origem paraguaia, avaliados em mais de R$ 10 milhões.
Batizada de “Visa-Protege”, a operação ocorre no Centro de Distribuição e Triagem da capital e tem como foco o monitoramento de encomendas suspeitas. Segundo a Vigilância Sanitária, grande parte dos produtos tinha como destino a região Nordeste, onde seriam comercializados diretamente ao consumidor final.
Todo o material apreendido está atualmente armazenado em local seguro sob custódia da SES e deverá ser destruído nas próximas semanas. A incineração será realizada em conjunto com ações da Polícia Civil, no mesmo processo utilizado para eliminação de drogas ilícitas.
Uso irracional e desenfreado
De acordo com Matheus Pirolo, gerente de Apoio aos Municípios da Vigilância Sanitária, o foco da operação não é combater a tecnologia envolvida nesses produtos, mas sim o uso inadequado e perigoso.
“O principal objetivo não é combater a tecnologia em si, que é muito boa, mas sim o uso irracional dessa tecnologia. Estamos falando de produtos sem controle sanitário, sem registro, sem rastreabilidade, transportados fora das condições adequadas, muitos exigem refrigeração, e sem qualquer acompanhamento médico”, afirmou.

A Vigilância Sanitária alerta que estabelecimentos como clínicas, centros de estética, drogarias e farmácias de manipulação que comercializarem produtos irregulares estão sujeitos a penalidades severas. As multas podem chegar a R$ 30 mil, além de interdição cautelar por até 90 dias e apreensão dos estoques ilegais.
No âmbito criminal, tanto pessoas físicas quanto responsáveis técnicos podem responder por contrabando, crimes contra o consumidor e exercício irregular da profissão. Em casos mais graves, há ainda o risco de cassação do registro profissional junto aos respectivos conselhos de classe.
Via MS: do Paraguai para o Nordeste
Em entrevista ao Primeira Página, o gerente de Apoio aos Municípios da Vigilância Sanitária, Matheus Pirolo, detalhou como a atuação conjunta com os Correios tem intensificado o combate ao envio de emagrecedores ilegais vindos do Paraguai.
TG, Lipoless, Tirzec, Retratutida, esses são alguns dos medicamentos alvos das apreensões que, segundo ele, vão muito além do volume: elas escancaram esquema sofisticado de distribuição.
Os produtos, proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são frequentemente escondidos em objetos improváveis. Já foram encontrados dentro de cabeças de bonecas, potes de creme, ursos de pelúcia e até em caixas de tereré. Estratégias que tentam despistar a fiscalização, mas que vêm sendo sistematicamente desmanteladas com o uso de raio-X e monitoramento constante nos centros de triagem.

Mas o que mais intriga não é apenas a origem desses medicamentos, majoritariamente na faixa de fronteira com o Paraguai, e sim para onde eles vão.
Segundo Pirolo, há um padrão claro: a maior parte dessas encomendas tem como destino a região Nordeste do país. “São objetos postais enviados principalmente da região de fronteira de Mato Grosso do Sul, e o destino frequente é o Nordeste”, afirma.
A repetição desse fluxo levanta suspeitas. Em muitos casos, declarações simples como “urso de pelúcia” escondem um conteúdo de alto valor. “Quem que vai mandar um urso para Maceió?”, questiona o gerente, destacando o nível de desconfiança que certas postagens passaram a gerar.