Paz? Nem depois da morte

No dia 12 de abril, Vera Lúcia da Silva foi morta pelo ex-companheiro. Nesse dia, Mato Grosso do Sul chegou ao décimo caso de feminicídio.

Polícia no cemitério de Eldorado (Foto: PCMS)

A notícia já era brutal pela maneira como a mulher de 41 anos teve a vida arrancada e pelos relatos de anos conturbados de convivência com o homem responsável por isso. Mas a história de Vera ganhou tons ainda mais profundos de violência três dias depois, quando seu corpo já “descansava” no cemitério Eldorado, no interior do estado.

Na madrugada do dia 15, o túmulo de Vera foi violado e seu corpo retirado do caixão. Como se a situação já não fosse inaceitável, ela ainda foi abusada.

Três homens foram presos pelo crime. Dois confessaram que estavam no cemitério no momento em que tudo aconteceu, mas negaram a prática de necrofilia. O terceiro não.

O suspeito de 22 anos contou à polícia que foi ao cemitério com um amigo. Quando passaram pelo túmulo de Vera, um chute abriu a estrutura e eles resolveram tirar ela de lá.

“Então eu coloquei meu pênis nela”, confessou à polícia. Simples assim. Como se fosse algo normal, algo que se faz quando se vê uma mulher.

Percebem o ponto crucial da história? O corpo da mulher é um objeto até quando não há mais vida nele. Até quando a vítima ali foi brutalmente assassinada pelo ex-companheiro, na frente da filha de apenas 9 anos; Até quando seu rosto estampa as manchetes!

E, infelizmente, não é a primeira vez que uma história parecida vira notícia em Mato Grosso do Sul.

Em 2019, Rosilei Potronieli, de 37 anos, foi assassinada a facadas. Seu corpo foi enterrado pela família e, na madrugada seguinte, retirado do cemitério de Dois Irmãos do Buriti.

O responsável foi o ex-companheiro de Rosilei, José Gomes Rodrigues. Na época, ele afirmou à polícia que fez um “pacto de amor” com a ex e que, por isso, tirou ela do local em que foi enterrada pela família, tirou as roupas que escolheram para ela e a carregou para seu sítio, onde abriu uma nova cova, perto da sua janela.

A versão “romântica” de uma história inimaginável escondia uma vida de violência e perseguição. O homem carregava na sua ficha criminal 11 boletins de ocorrência registrados pela mulher que dizia amar. Entre os crimes; surras, estupro e até tortura.

Não havia amor. Havia posse. Força. Violência.

E nem depois de morta ela teve paz. Assim como Vera.

Mesmo mortas, as duas foram o retrato do que é ser mulher: vítimas de violência independente da idade e da cor. Porque é isso que o Monitor da Violência mostra; de bebês a idosas, de brancas a indígenas: mortas, estupradas, agredidas, todas alvos fáceis do machismo.

vera roseli
Vera e Rosilei são mais que vítimas, são mães e filhas, são amadas (Foto: Rede Social)

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia