O crescimento das vendas de canetas emagrecedoras nas farmácias e também de medicamentos para emagrecimento em ampolas tem provocado um efeito colateral que vai além da saúde e do bolso: o aumento na compra de seringas, tradicionalmente utilizadas por pacientes diabéticos para aplicação de insulina.
Com a procura em alta, algumas redes farmacêuticas já registram falta desses itens em estoque, enquanto outras passaram a restringir a venda apenas para o atendimento presencial, suspendendo a opção de entrega por delivery.
Mas o avanço no consumo desses medicamentos trouxe também um novo problema sanitário: o descarte incorreto de agulhas e seringas.
-
Apreensão nos Correios chega a 1 tonelada e R$ 10 milhões em emagrecedores
Em Campo Grande, onde o centro de distribuição dos Correios tem sido alvo constante de fiscalizações da Vigilância Sanitária e da Secretaria Estadual de Saúde, casos de acidentes com coletores de resíduos têm se tornado frequentes. Trabalhadores da limpeza urbana relatam ferimentos causados por seringas jogadas de forma inadequada no lixo comum.
Como descartar?
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) de Campo Grande, o descarte correto das agulhas e seringas utilizadas na aplicação de agonistas de GLP-1, grupo de medicamentos que inclui as chamadas “canetas emagrecedoras”, deve seguir as mesmas regras aplicadas aos materiais perfurocortantes.
Esses resíduos NÃO devem ser descartados nem no lixo comum nem no reciclável, já que representam risco de acidentes e de contaminação.
A orientação segue a RDC nº 222/2018 da Anvisa, que classifica agulhas como resíduos perfurocortantes e determina que o acondicionamento seja feito em recipiente resistente à punctura, ruptura e vazamento.

Na prática, dentro de casa, a recomendação mais segura é simples:
- após o uso, não reencapar a agulha;
- descartar imediatamente em um recipiente rígido, resistente e com tampa, como uma garrafa PET;
- quando o recipiente atingir cerca de dois terços da capacidade, fechá-lo bem.
A Sesau também destaca que é importante separar o que realmente é perfurocortante daquilo que é apenas embalagem. Caixa, bula e embalagem secundária, quando limpas e sem contato com medicamento, podem ser descartadas no lixo comum ou reciclável, conforme a coleta local. Já agulhas, seringas e partes perfurantes da caneta exigem descarte diferenciado.
Coletores de lixo enfrentam acidentes
O descarte irregular desses materiais pode provocar acidentes com perfuração, contaminação de trabalhadores da limpeza e catadores, além de ampliar o risco de transmissão de doenças. Também favorece o manuseio indevido por terceiros, inclusive crianças, e gera impactos ambientais quando esses resíduos seguem para o lixo comum.
A concessionária responsável pela coleta de resíduos sólidos da Capital, Solurb, confirma que acidentes com coletores acontecem todos os meses.
“Sim, todos os meses temos acidentes de coletores que se machucam com seringas descartadas no lixo comum”, informou a empresa.
Quando há acidente ou suspeita de contato com material biológico, os trabalhadores seguem protocolos de segurança e são encaminhados imediatamente para avaliação médica e acompanhamento preventivo.
A Solurb reforça que seringas, agulhas e outros materiais perfurocortantes nunca devem ser descartados no lixo comum nem no reciclável. A recomendação é que esses objetos sejam armazenados em recipientes rígidos e resistentes a perfurações, como garrafas plásticas ou frascos com tampa, devidamente fechados, e posteriormente levados às farmácias das unidades de saúde, que recebem esse tipo de resíduo.
Para a empresa, a conscientização da população é fundamental.
“A colaboração da população é essencial para garantir mais segurança aos profissionais que atuam diariamente na coleta de resíduos e para manter a cidade limpa e ambientalmente responsável”, destaca a concessionária.

Apreensão de 1 tonelada de emagrecedores
Uma operação conjunta da Vigilância Sanitária com a Secretaria Estadual de Saúde (SES) revelou a dimensão de um mercado irregular que movimenta milhões de reais no país e tem partido de Mato Grosso do Sul. Em apenas dois meses e meio, a ação realizada no centro logístico dos Correios em Campo Grande resultou na apreensão de quase uma tonelada de medicamentos emagrecedores de origem paraguaia, avaliados em mais de R$ 10 milhões.
Batizada de “Visa-Protege”, a operação ocorre no Centro de Distribuição e Triagem da capital e tem como foco o monitoramento de encomendas suspeitas. Segundo a Vigilância Sanitária, grande parte dos produtos tinha como destino a região Nordeste, onde seriam comercializados diretamente ao consumidor final.
Todo o material apreendido está atualmente armazenado em local seguro sob custódia da SES e deverá ser destruído nas próximas semanas. A incineração será realizada em conjunto com ações da Polícia Civil, no mesmo processo utilizado para eliminação de drogas ilícitas.
De acordo com Matheus Pirolo, gerente de Apoio aos Municípios da Vigilância Sanitária, o foco da operação não é combater a tecnologia envolvida nesses produtos, mas sim o uso inadequado e perigoso.
“O principal objetivo não é combater a tecnologia em si, que é muito boa, mas sim o uso irracional dessa tecnologia. Estamos falando de produtos sem controle sanitário, sem registro, sem rastreabilidade, transportados fora das condições adequadas, muitos exigem refrigeração, e sem qualquer acompanhamento médico”, afirmou.
A Vigilância Sanitária alerta que estabelecimentos como clínicas, centros de estética, drogarias e farmácias de manipulação que comercializarem produtos irregulares estão sujeitos a penalidades severas. As multas podem chegar a R$ 30 mil, além de interdição cautelar por até 90 dias e apreensão dos estoques ilegais.
No âmbito criminal, tanto pessoas físicas quanto responsáveis técnicos podem responder por contrabando, crimes contra o consumidor e exercício irregular da profissão. Em casos mais graves, há ainda o risco de cassação do registro profissional junto aos respectivos conselhos de classe.