Um submarino carregado com 6,6 toneladas de cocaína e interceptado no Oceano Atlântico revelou uma mudança nas rotas usadas pelo tráfico internacional para levar drogas do Brasil à Europa. A embarcação teria partido da região de Macapá (AP), na foz do Rio Amazonas, área que ganhou espaço como corredor do narcotráfico sob influência do Comando Vermelho (CV).
A apreensão ocorreu em março de 2025, próximo ao arquipélago dos Açores, em Portugal. A carga, avaliada em mais de R$ 2 bilhões, estava em um semissubmersível com cinco tripulantes: três brasileiros, um colombiano e um espanhol.
A embarcação foi localizada a cerca de 500 milhas náuticas ao sul dos Açores em uma operação que envolveu autoridades portuguesas e espanholas, além de organismos internacionais. Segundo a Guarda Civil da Espanha, os traficantes planejavam transferir a cocaína para outras embarcações próximas à costa portuguesa antes de introduzir a droga no continente europeu.
O caso ganhou uma nova dimensão com um levantamento da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) sobre a expansão das rotas do narcotráfico pela Amazônia brasileira.
Amazônia ganha espaço nas rotas para a Europa
Segundo o estudo, o reforço da fiscalização em portos tradicionalmente utilizados pelo tráfico, como Santos (SP) e Vila do Conde (PA), fez organizações criminosas buscarem outros caminhos para exportar cocaína.
Nesse cenário, o Amapá ganhou importância. O Porto de Santana passou a ser apontado como alternativa para o envio de carregamentos por estar em uma região estratégica na foz do Amazonas e apresentar menor estrutura de fiscalização.
De acordo com Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região amazônica, a tradicional rota pelo Rio Solimões deixou de concentrar sozinha o fluxo da droga. O narcotráfico passou a diversificar caminhos e métodos para driblar a fiscalização e alcançar principalmente o mercado europeu.
O relatório aponta que o Comando Vermelho se consolidou como uma das principais forças criminosas da Bacia Amazônica. A facção adotaria um modelo no qual grupos locais mantêm autonomia, desde que preservem alianças e garantam acesso às rotas de transporte da droga.
Essa estratégia permitiu à organização ampliar a influência sobre pontos importantes da cadeia do tráfico, desde regiões produtoras de cocaína no Peru até cidades brasileiras como Manaus e Macapá.
Apreensões de cocaína cresceram 574%
Os números apresentados no levantamento mostram a dimensão da movimentação de drogas na região. Entre 2019 e 2024, as apreensões feitas por forças estaduais na Amazônia cresceram 574%, ultrapassando 162 toneladas de cocaína.
Nas operações de órgãos federais, o crescimento no período foi de 84%, chegando a 118 toneladas apreendidas.
A expansão das organizações criminosas também ocorre em uma região com índices elevados de violência. Em 2024, a Amazônia brasileira registrou taxa de 27,3 homicídios para cada 100 mil habitantes, índice 31% superior à média nacional, segundo os dados apresentados pelo estudo.
Para os pesquisadores, a apreensão do submarino que deixou a costa brasileira carregado com toneladas de cocaína é um exemplo de como as organizações criminosas vêm adaptando a logística para explorar novos caminhos na Amazônia e manter o fluxo internacional da droga.
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