O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio ao agravamento da crise política provocada pelo colapso do banco digital Ueno. Em comunicado divulgado nas redes sociais, o agora ex-presidente pediu desculpas à população e afirmou que “nenhuma pessoa está acima do Paraguai”, justificando a decisão como um gesto em defesa da estabilidade institucional do país.
Confira o pronunciamento publicado por Santiago Peña:
A renúncia ocorreu horas depois de o Congresso paraguaio iniciar os procedimentos para analisar um pedido de impeachment contra Peña e seu vice-presidente.
A medida intensificou a pressão política sobre o governo, que já enfrentava críticas pela condução da crise financeira envolvendo a instituição bancária.
Crise teve origem em colapso de banco digital
A turbulência política começou após o banco digital Ueno suspender suas atividades, deixando milhares de clientes sem acesso aos próprios recursos financeiros.
O caso provocou forte reação da população e da oposição, que passou a questionar a atuação das autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema bancário.
A situação ganhou contornos ainda mais delicados devido à ligação de Santiago Peña com o grupo controlador da instituição financeira.
O presidente foi acionista do banco antes de assumir o cargo, o que alimentou acusações de conflito de interesses e levantou suspeitas sobre a atuação do Banco Central do Paraguai. A oposição sustenta que houve omissão diante de possíveis irregularidades envolvendo a instituição.
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Congresso avançava com processo de impeachment
Antes do anúncio da renúncia, parlamentares paraguaios já haviam dado os primeiros passos para a abertura de um processo de impeachment. A articulação ganhou força após a ampliação das manifestações populares e da pressão de lideranças políticas, incluindo integrantes do próprio Congresso.
Com a saída de Peña, a expectativa é de que o país inicie o processo de transição previsto na Constituição, enquanto autoridades tentam conter os impactos econômicos e políticos decorrentes da crise bancária.

Quem é Santiago Peña
Economista de formação, Santiago Peña, de 47 anos, foi eleito presidente do Paraguai em 2023 pelo Partido Colorado, legenda que domina a política paraguaia há décadas. Antes de chegar à Presidência, atuou no Banco Central do Paraguai, trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) e exerceu o cargo de ministro da Fazenda.
Peña disputou a Presidência pela segunda vez em 2023. Na tentativa anterior, em 2018, foi derrotado nas prévias partidárias por Mario Abdo Benítez, que posteriormente se tornou presidente do país.

Carta de renúncia
“Queridos compatriotas, hoje me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância.
A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos toca viver. Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas.
Faço-o com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos para nós mesmos como nação. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai.
Também quero pedir desculpas ao povo, caso eu tenha falhado em algum momento; nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Assumi esta responsabilidade todos os dias com a vontade de trabalhar pelo Paraguai, mas hoje a minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito, há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares.
Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos, que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra a sua finalidade e que sejam protegidos os fundos públicos e os recursos que pertencem a todos os paraguaios.
Queridos compatriotas, somos um país que atravessou momentos muito difíceis e que sempre soube se reerguer. Confio profundamente na força do nosso povo e na capacidade das nossas instituições para superar esta situação.
Hoje, devemos demonstrar, mais uma vez, que a democracia é respeitada, que as instituições são preservadas e que o Paraguai está acima das nossas diferenças. Nenhum cargo é mais importante do que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai.
Agradeço pela confiança, por cada momento vivido e por terem me dado a honra de servir a esta grande nação. Que Deus abençoe cada família paraguaia e que Deus abençoe o Paraguai.”
Vice-presidente Pedro Alliana assume?
Com a renúncia de Santiago Peña, a sucessão presidencial passa a depender do vice-presidente Pedro Alliana, de 52 anos, integrante do Partido Colorado, a mesma legenda do agora ex-presidente.
Natural de Pilar, no departamento de Ñeembucú, Alliana é casado, pai de quatro filhos e figura influente na política paraguaia. Em abril deste ano, ele anunciou sua pré-candidatura à Presidência para as eleições de 2028, contando com o apoio público de Peña e do ex-presidente Horacio Cartes.

Pela Constituição paraguaia, Alliana é o primeiro na linha sucessória e deveria assumir o comando do país após a saída de Peña. No entanto, o cenário ainda gera incertezas porque o vice-presidente também foi incluído no pedido de impeachment que tramita no Congresso.