Uma pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Brandeis University, dos Estados Unidos, identificou que microrganismos raros podem aumentar a tolerância do milho a salinização do solo. O estudo mostrou que arqueias extremófilas – microrganismos adaptados a condições extremas – ajudam o milho a crescer mesmo sob estresse salino.
Esses microrganismos colonizam o solo ao redor das raízes, região onde ocorrem trocas químicas e biológicas importantes para o desenvolvimento da planta. Nos experimentos, as arqueias reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse crescimento mais vigoroso e maior capacidade de adaptação.
No estudo, as arqueias foram isoladas das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta adaptada à salinidade e usada na recuperação do solo. Após testes em laboratório, foram testadas em plantas de milho.
Alternativa para recuperar áreas degradadas
Segundo o pesquisador Itamar Melo, da Embrapa Meio Ambiente, solos salinizados acabam fora da produção agrícola e se tornam um passivo ambiental. Isso ocorre porque ainda há poucas tecnologias eficazes para recuperar essas áreas. Além disso, culturas como milho, feijão e algodão são mais sensíveis ao excesso de sal.
De acordo com o pesquisador, o uso de microrganismos adaptados à salinidade, que evoluíram junto a plantas tolerantes ao sal, surge como alternativa para reduzir os danos e permitir o cultivo.
“O problema não se restringe ao Semiárido, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são atingidas pela salinização. Está presente em várias regiões do Brasil e do mundo”, afirmou Mele.

Ele destaca ainda que a situação é agravada por fatores como alta evaporação e uso de água salobra na irrigação.
“Nesse contexto, inoculantes microbianos à base de arqueias surgem como inovação promissora no campo dos bioinsumos e podem abrir uma nova frente para a agricultura em áreas degradadas”, apontou Itamar.
Salinização afeta milhões de hectares
No Brasil, cerca de 16 milhões de hectares são afetados por sais, segundo a Embrapa. Mais da metade dessas áreas está no Semiárido nordestino. Entre 20% e 25% das áreas irrigadas da região apresentam problemas de salinidade ou drenagem, afetando culturas como milho, feijão, algodão e sorgo.
Em nível global, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade, enquanto outros 1 bilhão estão sob risco.
Nas áreas irrigadas, o problema é ainda mais crítico e compromete a fertilidade do solo e a produtividade das lavouras.
