Quem convive com gatos sabe que eles são especialistas em surpreender. De repente, aparecem amassando uma coberta como se estivessem fazendo pão, ronronam no colo sem parar ou deixam uma flor, um inseto e até pequenos animais como “presente” pela casa. Mas o que esses comportamentos realmente significam?
Mimosa a gata que transforma flores em demonstrações de carinho. (Foto: Cristiele Pedroso)
Neste Dia Internacional do Gato, celebrado em 8 de agosto, o Primeira Página conversou com uma médica veterinária especialista em felinos e com uma tutora apaixonada por gatos para desvendar alguns dos hábitos mais curiosos desses animais que conquistaram milhões de lares.
Ao contrário do que muita gente imagina, os comportamentos dos gatos têm explicações ligadas aos seus instintos, às experiências da infância e à forma única como demonstram afeto. E, embora cada felino tenha sua própria personalidade, alguns costumes se repetem entre eles.
Quando o gato chega com um “presente”
Uma das cenas mais conhecidas entre tutores de gatos é encontrar uma surpresa deixada pelo animal em algum canto da casa. Pode ser uma folha, uma flor, um inseto ou até mesmo uma presa capturada. Segundo a médica veterinária especialista em clínica médica de felinos, Patrícia Matos, esse comportamento está relacionado ao instinto de caça, mas que nem todos os gatos fazem isso.
“Esse instinto de trazer animais ou objetos para casa está ligado a um comportamento de caça ou simplesmente de brincadeira. No entanto, nem todos tem essa tendência depende muito de estímulo ambiental e personalidade do animal”, explica.
Mimosa a gata caçadora de flores vermelhas. (Foto: Cristiele Pedroso)
A psicóloga Cristiele Pedroso Rodrigues, divide o lar com dez gatos resgatados das ruas, e conta que dois deles costumam trazer presentes, cada da sua forma.
“A Mimosa gosta de trazer presente, acho que ela demonstra o afeto dela dessa forma. Tem uma flor no pátio de casa que, quando cai no chão, ela sente que aquela é a caça dela. Várias vezes a gente acordou e encontrou uma trilha de flores pelo corredor”, conta.
Já Chico, outro integrante da turma, escolheu presentes menos românticos. “Ele não tem tanto esse costume, mas já me presenteou com algumas baratas”, diverte-se Cristiele.
Mimosa a caçadora de flores e Chico o predador de baratas.
O mistério do ronronar
Poucos sons são tão associados aos gatos quanto o ronronado. Para muitos tutores, ele é sinônimo de felicidade, mas a explicação é um pouco mais complexa. De acordo com a veterinária, o ronronar pode ter várias funções.
“Ele pode demonstrar conforto e bem-estar, aliviar estresse ou dor, facilitar a comunicação com humanos e outros gatos e até ajudar na recuperação física, já que a vibração pode ter efeitos calmantes no corpo.”
Chico transformou um lar temporário em amor para sempre. (Foto: Cristiele Pedroso)
Na prática, o ronronar costuma ser uma presença constante na rotina de Cristiele, que vive cercada pelos bichanos. Segundo ela, o Chico é o maior ronronador e costuma encantar até os pacientes que a visita.
“O Chico ronrona muito. Quando ele vai comigo para o consultório, senta no meu colo e já fica ronronando. Ele tem uma sensibilidade muito grande. Quando percebe alguém mais triste ou sensível, ele se aproxima, deita perto e acaba cativando todo mundo”, conta a psicóloga.
Chico o gato psicólogo. (Foto: Cristiele Pedroso)
Por que os gatos “amassam pão”?
Outro comportamento que desperta a curiosidade dos donos é o chamado “amassar pão”, quando o gato pressiona as patas alternadamente sobre mantas, travesseiros ou até mesmo sobre o corpo das pessoas. Apesar do nome divertido, a origem desse hábito remonta aos primeiros dias de vida do animal.
“Esse comportamento é um resquício da infância. Os filhotes fazem isso ao mamar para estimular a produção de leite da mãe. Na fase adulta, normalmente é um sinal de conforto e segurança”, explica a veterinária Patrícia.
Chico em seus primeiros dias na casa nova. (Foto: Cristiele Pedroso)
O Chico e Mimosa são praticamente especialistas no assunto. A tutora conta que a cena é tão comum que virou um ritual entre os três, principalmente com o Chico.
“Ele gosta de amassar pãozinho em uma coberta felpudinha específica. Eu coloco a coberta no peito e ele começa. Como foi separado da mãe muito cedo, além de amassar pão, ele coloca a boca na coberta e faz movimentos como se estivesse mamando, e quando ele está bem carinhoso, até baba na cobertinha.”, relata Cristiele.
O hábito de “amassar pão” no dia a dia de Cristiele.
Cada gato é único
Quem ainda acredita que todos os gatos são iguais pode se surpreender. Segundo a veterinária, os felinos costumam criar vínculos mais fortes com pessoas que lhes passam segurança e oferecem experiências positivas, mas a personalidade tem um peso enorme.
Cristiele conhece bem essa realidade. Entre os dez gatos da casa, cada um tem hábitos próprios.
“Tem gato que é mais manhoso, que chora quando alguém sai. Tem os mais quietinhos, os brincalhões e os mais briguentos. Cada um tem um jeitinho muito específico.”
Chico e seus tri jeitos de viver.
Com o Chico, a convivência já virou uma espécie de linguagem silenciosa.
“Quando ele chega no quarto e fica me encarando, eu sei que quer petisco. Quando mia no banheiro, quer que eu abra a torneira para tomar água. Ele tem uma rotina própria.”
O que os gatos ensinam aos humanos
Apaixonada pelos felinos, Cristiele revela que nem sempre gostou de gatos. Durante muito tempo, acreditou no velho mito de que eles seriam animais frios e apegados apenas à casa. A visão mudou depois do primeiro resgate.
“A gente criou um vínculo, entendeu como o gato funciona e percebeu que não era nada daquilo que as pessoas falam. Gato é um animal extremamente carinhoso.”
Companheiros de colo, rotina e muito amor. (Foto: Cristiele Pedroso)
Hoje, ela acredita que os felinos deixam lições valiosas.
“Acho que o gato ensina que o amor não é sobre possuir. Eles têm o tempo deles, a individualidade deles. Cada gatinho tem sua particularidade. É um amor muito mais real, baseado na convivência e no respeito.”
Talvez seja justamente essa mistura de independência, mistério e afeto que explique por que os gatos conquistam tantos admiradores ao redor do mundo. E, para quem já teve um felino ronronando no colo ou deixando uma flor como presente, fica fácil entender o fascínio.
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