Plano de voo aponta que piloto morto em queda não deveria estar no comando de avião; desastre aéreo também matou pesquisadora alemã

O plano de voo do avião de pequeno porte que caiu na sexta-feira (3), em Campo Grande, e matou duas pessoas, registra informações diferentes da operação realizada.

No documento, submetido aos órgãos de controle do espaço aéreo antes da decolagem, Emerson Belaus, diretor da empresa Amapil Táxi Aéreo, aparece como piloto em comando da aeronave. No entanto, quem pilotava o avião no momento da queda era Henrique Martin de Carvalho, de 42 anos, segundo informações confirmadas pela perícia.

Henrique era o piloto da aeronave no dia do acidente e não sobreviveu (Foto: Redes Sociais)

Henrique Martin era habilitado como piloto pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) desde 2019 e possuía licença de piloto comercial expedida em março de 2021.

A aeronave envolvida no acidente era um EMB-810D, prefixo PT-WYQ, fabricado em 1983, que pertencia à empresa Amapil Táxi Aéreo.

No acidente morreram o piloto Henrique Martin e a pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos.

As causas da queda são investigadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) e pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Por enquanto, o CENIPA divulgou apenas informações preliminares, dizendo apenas que, durante a subida inicial, a aeronave perdeu o controle em voo e depois bateu contra o solo.

Segundo a Polícia Civil, uma das hipóteses analisadas é de que o mau tempo prejudicou a visibilidade do piloto, que teria tentado realizar um pouso forçado.

O delegado Alexandro Mendes, responsável pelo inquérito instaurado no Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), informou à reportagem que as primeiras testemunhas começaram a ser ouvidas. Segundo ele, novos detalhes não serão divulgados neste momento porque a investigação tramita sob sigilo.

O que é o plano de voo

Pedaços da aeronave em meio a vegetação
Aeronave ficou destruída na queda (Foto: Leitor de Primeira)

O plano de voo é um documento preenchido antes da decolagem com as principais informações da operação aérea. Nele constam, entre outros dados, a identificação do piloto em comando, da aeronave, a origem e o destino do voo, a rota prevista, a quantidade de pessoas a bordo e a autonomia de combustível.

O documento é apresentado ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), conforme previsto na Instrução do Comando da Aeronáutica (ICA 100-11), e a operação da aeronave está sujeita à fiscalização administrativa da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Em interpretação ao Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC nº 91), o proprietário e o operador da aeronave são responsáveis por assegurar que a operação seja conduzida em conformidade com a legislação vigente. Já o piloto em comando responde pela condução segura do voo e pela veracidade das informações do plano de voo.

O Primeira Página conversou com um especialista, perito em acidentes pela Associação Brasileira de Segurança de Aviação. Segundo Douglas Avedikian, o plano de voo é uma ferramenta operacional e qualquer alteração deve ser atualizada no documento, antes da decolagem.

“O plano de voo tem dois principais objetivos. Primeiro, fornecer ao Cetro de Gerenciamento de Navegação Aérea os dados daquele voo para que seja feita a previsão de congestionamento de área, liberação de decolagem ou congestionamento de aeroportos. É uma informação prévia muito importante. E, segundo ponto é que, em caso de acidente ou desaparecimento da aeronave, o documento fornece as informações técnicas e operacionais para a busca”.

Douglas Avedikian

Condições meteorológicas no momento do voo

Aeronave destruída em meio a árvores e vegetação no local do acidente
Aeronave destruída no local do acidente (Foto: Leitor de Primeira)

O avião decolou do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, e seguia para uma fazenda no Pantanal, quando caiu minutos depois nas proximidades.

Na manhã do acidente, um dos responsáveis pelo Aeroporto Santa Maria informou à TV Morena que pelo menos três voos previstos para decolar tiveram as saídas adiadas devido ao mau tempo e à baixa visibilidade.

“O Código Brasileiro da Aeronáutica afirma que o piloto em comando é responsável por tudo que diz respeito à aeronave, como o plano de voo, a documentação, o seguro, o abastecimento, ou o número de pessoas a bordo. O piloto também é o responsável por decolar em modo visual ou por instrumento. Interpretar os boletins meteorológicos e saber se, no momento do voo, a condição é visual ou deve ser por instrumento”.

Douglas Avedikian

A fala do especialista explica sobre duas categorias de regras de voo na aviação: o modo visual (VFR-Visual Flight Rules), em que, neste tipo de operação, são necessárias condições meteorológicas compatíveis, com visibilidade. E o modo de voo por instrumento (IFR – Instrument Flight Rules), em que o piloto usa as informações do painel da aeronave.

Ainda com base no plano de voo da aeronave que caiu, Henrique Martin voaria em modo visual (VFR). Inclusive, o registro profissional dele na ANAC (Código ANAC) mostra que a habilitação do piloto para “Voo por Instrumentos em Avião (IFRA)” venceu em março de 2026.

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O que dizem a empresa, a ANAC e o CENIPA

Cenipa no local do acidente de avião
Equipes do Cenipa no local da queda do avião. (Foto: Giovanna Dauzacker)

A reportagem questionou a empresa Amapil Táxi Aéreo sobre o motivo do plano de voo identificar Emerson Belaus como piloto em comando, ao invés de Henrique Martin. Além de perguntar se essas informações foram alteradas no documento e comunicadas ao órgão responsável antes da decolagem.

Para a reportagem, a advogada da empresa informou que a Amapil está colaborando integralmente com as investigações conduzidas pelo Cenipa e pela Polícia Civil, mas, em respeito ao trabalho em andamento e aos familiares das vítimas, optou por não se manifestar nesse momento.

motor
Motor do avião sendo recolhido pelas equipes. (Foto: Giovanna Dauzacker)

Sobre o plano de voo da aeronave PT-WYQ, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) afirma que são informações privadas e que não se manifesta sobre procedimentos envolvendo acidentes aéreos, antes do fim das investigações.

Em nota enviada à reportagem sobre os procedimentos operacionais da aviação civil, em geral, a Agência informou que o Código Brasileiro de Aeronáutica prevê que, caso sejam constatadas informações falsas ou incorretas em documentos operacionais – como o plano de voo – podem ser apuradas as responsabilidades administrativas dos envolvidos, conforme as circunstâncias.

Ainda segundo a ANAC, quando comprovada a inserção intencional de informações falsas em documentos operacionais — especialmente para ocultar a realização de voo por piloto que não possua licenças, habilitações ou Certificado Médico Aeronáutico (CMA) válidos e adequados à operação —, além das consequências administrativas, pode haver caracterização de crime previsto na legislação penal. Nesses casos, a apuração cabe à Polícia Civil.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) informou que só irá se manifestar oficialmente sobre as causas do acidente após a conclusão da investigação, no relatório final que será disponibilizado ao público. Porém, não informou um prazo para a conclusão dos trabalhos.

O Primeira Página apurou que a pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff continua em Campo Grande à espera de translado. Em nota, o governo do Estado afirmou que, em atendimento ao desejo dos familiares da vítima, não serão prestadas informações sobre os trâmites relacionados à liberação do corpo.

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