O secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso, Mauro Carvalho Júnior, pediu exoneração do cargo nesta terça-feira (11), após ter o nome citado na investigação da Operação Heritage, que apura possíveis irregularidades no acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Estado e a Oi. O pedido foi encaminhado ao governador Otaviano Pivetta.
Em carta de desligamento, Carvalho informou que decidiu deixar o governo para se dedicar à família, às empresas e ao esclarecimento dos fatos investigados. Ele nega ter participado do acordo ou recebido qualquer benefício decorrente da negociação. Quem entra no lugar de Carvalho é o secretário adjunto de relação com os municípios, Adjaime Ramos.
A saída de Mauro Carvalho da Casa Civil ocorreu no mesmo dia em que o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) desistiu da candidatura a vice-governador na chapa de Otaviano Pivetta (Republicanos). Assim como Carvalho, Garcia também foi citado na investigação da Operação Heritage, que apura possíveis irregularidades relacionadas ao acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Estado de Mato Grosso e a Oi.
O agora ex-secretário também ressaltou que, entre dezembro de 2023 e abril de 2024, período em que, segundo ele, tramitou o processo relacionado à Oi, não ocupava cargo público estadual ou federal. Carvalho havia deixado a Casa Civil em julho de 2023 e retornou ao comando da pasta em abril deste ano.
Nome aparece na investigação da Operação Heritage
Mauro Carvalho aparece entre os investigados citados na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou medidas da Operação Heritage. Ele está entre os 31 citados na decisão do ministro Flávio Dino que estão proibidos de deixar o pais e se comunicar com outros investigados.
A investigação apura suspeitas relacionadas ao acordo de R$ 308,1 milhões firmado em 2024 para encerrar uma disputa judicial envolvendo créditos da Oi contra Mato Grosso. Entre os crimes investigados estão peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso de informação privilegiada.
Segundo a decisão do STF, a Polícia Federal relaciona Carvalho ao núcleo financeiro associado ao Lotte Word FIDC, um dos fundos que receberam recursos provenientes do acordo. As apurações ainda estão em andamento e não representam condenação dos investigados.
Na carta, Carvalho afirma que seu nome aparece por vínculo e sustenta que a investigação não atribui a ele um ato concreto. Também declara que nenhum recurso proveniente do acordo foi utilizado em benefício próprio ou de sua família.

STF negou afastamento
Carvalho também destacou que sua saída não ocorreu por determinação judicial. Durante a investigação, houve pedido para que ele fosse afastado do cargo, mas a medida foi rejeitada pelo STF.
A decisão que autorizou a Operação Heritage rejeitou o pedido de afastamento de funções públicas por falta de demonstração concreta de risco atual à investigação.
Na carta, o ex-secretário afirma ainda que não foi denunciado nem condenado e que pretende esclarecer os fatos durante o andamento da apuração.
Carvalho também manifestou solidariedade ao ex-procurador-geral do Estado Francisco Lopes e ao deputado federal Fábio Garcia, que também tiveram os nomes relacionados aos desdobramentos do caso nesta semana.
Como Mauro Carvalho é citado na investigação
Segundo a decisão do STF, a investigação associa Mauro Carvalho Júnior e o deputado federal Fábio Garcia ao núcleo relacionado à chamada ‘cascata Lotte Word FIDC’, estrutura formada por diferentes fundos de investimento.
De acordo com os investigadores, foram identificadas múltiplas camadas de fundos que faziam investimentos sucessivos entre si, sem que tivesse sido encontrada, até aquele momento, justificativa econômica para essas operações.
A investigação aponta ainda que, ao fim desse caminho, recursos públicos provenientes do acordo teriam sido convertidos em investimentos privados de baixa liquidez em empresas ligadas à família, entre elas a Parecis Bionergia e a Hotéis Global S.A.
O trecho integra a fundamentação da investigação e não representa conclusão de que Mauro Carvalho tenha cometido crime.
Entenda a investigação
A Operação Heritage investiga o acordo firmado em 2024 entre Mato Grosso e a Oi para encerrar uma disputa judicial iniciada anos antes.
Entre os pontos analisados está a cessão de um crédito estimado em aproximadamente R$ 390 milhões por R$ 80 milhões ao escritório Ricardo Almeida Advogados Associados. Posteriormente, foi firmado com o Estado o acordo de R$ 308,1 milhões.
A investigação também analisa a criação e utilização de fundos de investimento que receberam os recursos. Segundo os elementos apresentados pela PF e descritos na decisão do STF, a estrutura financeira precisa ser aprofundada para identificar o caminho e os beneficiários finais do dinheiro.
As investigações continuam e, conforme ressaltado na própria decisão do Supremo, as medidas autorizadas não representam conclusão sobre culpa ou responsabilidade dos citados.
Carta de desligamento de Mauro Carvalho
Ex-secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso
CARTA DE DESLIGAMENTO
Mauro Carvalho Júnior — Secretaria-Chefe da Casa Civil do Estado de Mato Grosso
Aos mato-grossenses,
Comunico que deixo, nesta data, o cargo de Secretário-Chefe da Casa Civil do Estado de Mato Grosso.
Não retornei ao serviço público por ambição nem por vaidade. Eu havia deixado a Casa Civil em julho/2023 para assumir o Senado Federal, e não tinha nenhuma intenção de voltar. Em dezembro de 2025, veio um novo convite do Otaviano Pivetta e Mauro Mendes, e no primeiro momento eu não aceitei. Levei algumas semanas para responder. Respondi sim, por gratidão e por lealdade a um grupo político do qual nunca me afastei, e assumi a Casa Civil em abril/2026. Saio hoje pela mesma razão pela qual entrei: lealdade.
“Deixo o cargo para me dedicar inteiramente a minha família, as minhas empresas e esclarecer estes fatos e provar a minha inocência.”
Entre dezembro de 2023 e abril de 2024 — período em que tramitou o processo da Oi — eu já não ocupava nenhum cargo público, nem federal nem estadual, de modo que não poderia influenciar em absolutamente nada a decisão de firmar ou não o acordo.
Saio de pé e com a consciência tranquila.
Registro, com serenidade, três fatos objetivos e verificáveis:
Primeiro. O afastamento do meu cargo foi requerido pela autoridade policial e foi indeferido pelo Supremo Tribunal Federal que negou a medida, acolhendo a manifestação da Procuradoria-Geral da República no sentido de que não havia indício de uso do meu cargo para qualquer finalidade ilícita. Não saio, portanto, por determinação judicial. Saio por decisão tomada por mim em conjunto com a minha família e com o Governador do Estado.
Segundo. Isto é uma investigação — e investigação não é condenação. Não fui denunciado, não estou sendo processado criminalmente e não fui condenado. A própria decisão diz com todas as letras, que não está afirmando a culpa de ninguém: ela apenas autoriza que os fatos sejam apurados. Apurar é o começo do caminho. Julgar é o fim. Estamos no começo, e eu quero que se apure para provar a minha inocência.
Terceiro. Reafirmo integralmente o que já declarei publicamente em nota, não participei do acordo e não me beneficiei. Nenhum recurso originário do acordo firmado com a Oi foi utilizado em benefício próprio ou da minha família. Todo valor aportado pela minha família nas empresas de que participamos decorre de recursos do meu grupo empresarial.
Na decisão, não me é atribuído nenhum ato concreto: meu nome figura por vínculo — e vínculo não é conduta. Tenho a convicção de que, ao final do processo, o caso será esclarecido e a minha inocência e a da minha família comprovadas.
Sobre a ação que corre no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, e que trata dos mesmos fatos: ela não diz, em momento algum, que eu fiz alguma coisa. E, quando trata dos meus familiares, o próprio denunciante escreveu que o benefício teria sido indireto, ou seja, nem ele aponta um pagamento, um contrato, um ato, pois não existe. Quem tem prova não precisa escrever “indiretamente”.
Deixo registrada minha solidariedade ao Procurador Geral do Estado Dr. Francisco Lopes e ao Deputado Federal Fábio Garcia, que nesta mesma semana tiveram a honra exposta antes de qualquer contraditório.
Ao Governador Otaviano Pivetta, minha gratidão pela confiança e meu desejo sincero de que o Governo siga em frente. Aos servidores da Casa Civil, meu respeito e admiração. À minha família, que carregou o peso maior sem ter escolhido nada disso, todo o meu amor.
Peço a Deus que a verdade prevaleça, e que ninguém seja condenado sem culpa, como aconteceu com Jesus diante de Pilatos. Que Deus abençoe todos nós.
Mauro Carvalho Júnior Cuiabá/MT
Carta de desligamento divulgada por Mauro Carvalho Júnior
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