Luto além da morte – Como lidar com o fim de ciclos?

Luto está entre as palavras que procuramos evitar, pois nos remete a uma perda, não a uma perda qualquer, mas aquela que vem acompanhada de dor, de muita dor. A dor é grande porque a palavra luto nos traz a mente um termo deveras pior: morte. Ligamos o luto à perda de um ente querido. Muitas vezes antecipamos esse luto na doença terminal com fim anunciado.

O que não sabemos, ou que pouco ou nunca nos vem à mente, é que o luto não se restringe à perda por morte, mas também às perdas em vida, desde que dolorosas, que algo morra dentro de nós, são as perdas além da morte, como no caso do fim de um relacionamento amoroso, o desligamento de um bom emprego e outras perdas relevantes, todas podem desencadear um processo de luto.

O luto que não está relacionado à morte de outro, liga-se simbolicamente à morte interior de algo importante, algo que rompe planos arquitetados para o futuro.

Quando se inicia depois de um rompimento amoroso, além dos planos que se vão “morro abaixo”, acaba com sonhos compartilhados, destrói a construção de um amanhã a dois.

Todos os estágios do luto clássico, ou seja, aquele desencadeado por morte, também estão presentes no luto desencadeado por outras perdas, que passam pelos estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

A negação se refere ao fato acontecido, à dificuldade de aceitar a realidade; a raiva, ao ver como injusto tudo que aconteceu e blasfemar até contra a justiça divina; a barganha, com promessas de agir diferente em troca de tudo voltar a ser como antes; a depressão, com tristeza e desesperança e achar que nada faz sentido, a aceitação, ao ver a perda como fato consumado e decidir que a vida segue.

São estágios que têm duração de semanas ou meses e ao chegar, em certo momento, em determinado estágio, não significa, necessariamente, que se vai ao estágio o seguinte, pode-se retroceder e progredir algumas vezes, até alcançar, definitivamente, o estágio de aceitação.

As perdas, sejam por morte ou por outros motivos, sempre vão existir, assim como os lutos desencadeados por elas. Estes vão passar por suas respectivas fases e desaparecer, nem sempre por completo, mas sem provocar grande sofrimento, como acontecia no início.

É assim que se sucede ou pelo menos é assim que se espera que ocorra, mas quando não segue desse jeito, quando o sofrimento persiste e se mantém com a mesma intensidade do início, neste caso estamos diante do chamado luto patológico, que é quando o luto passa à condição de complicado.

(Foto: Imagem gerada por inteligência artificial)

É aí que o estado de luto, agora luto patológico traz incapacidade para o exercício do labor e dificuldades sociais por longos períodos, em que a pessoa rumina excessivamente sobre o passado, isola-se socialmente, apresenta alterações severas de sono e do apetite, ou pensamentos autodestrutivos e chega, muitas vezes, a direcionar-se ao uso ou abuso de substâncias psicoativas, como o álcool, tabaco e outras drogas.

Nos estados de luto patológico, há necessidade de intervenção profissional psicológica ou psiquiátrica. A princípio, a psicoterapia pode ajudar a pessoa enlutada a atravessar esse processo com menor sofrimento, caso isso seja possível.

A princípio, a pessoa que estiver a sofrer uma reação de luto, deve se permitir viver esse sofrimento. O choro, a raiva, a barganha e a tristeza são manifestações normais de externalização da dor, portanto não se deve impedir que a pessoa enlutada reprima essas ações e sentimentos.

Há de se acolher a pessoa enlutada, reconhecer que essas perdas doem e validar essa dor, que não é pouca. E ao se observar que o estado normal de luto passou à condição de patológico, deve-se orientar o indivíduo enlutado a buscar ajuda profissional.

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