No primeiro discurso após a vitória de virada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu, na noite desse domingo (25), mudar a forma de governar o Brasil após vencer no segundo turno das eleições contra Flávio Bolsonaro (PL).
Durante a fala, Lula ainda anunciou mudanças na comunicação com a população e apresentou propostas para áreas como educação, saúde, segurança pública e tecnologia.
Com 100% das urnas apuradas, Lula recebeu 64,2 milhões de votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, contra 51,79% do senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A vitória veio após uma virada de 6,6 milhões de votos na diferença entre os candidatos em relação ao primeiro turno, quando o petista havia terminado atrás do adversário.
Investimentos em tecnologia e comunicação digital
Na Avenida Paulista, em São Paulo, diante de uma multidão, o presidente atribuiu a vitória a uma combinação de fatores e afirmou que pretende ampliar a participação popular nas decisões do governo.
Uma das principais mudanças anunciadas é o investimento na comunicação digital, com a promessa de falar diretamente com os brasileiros com mais frequência.
“Essa eleição me ensinou muitas lições. Quero dizer que vamos mudar o jeito de governar este país. Vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões. Quero dizer que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo”, declarou.
Após agradecer ao deputado André Janones (Rede-MG) pela atuação nas redes sociais durante o segundo turno, Lula afirmou que pretende reduzir a dependência de intermediários na comunicação com a população.
“Daqui para a frente, vou conversar com o povo brasileiro muitas vezes por dia direto. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Vou dizer o que penso, o que faço”, acrescentou.
A economia digital deve ganhar espaço no novo mandato, segundo Lula. O político prometeu aproveitar a capacidade brasileira de produzir energia renovável para atrair centros de processamento e armazenamento de dados, conhecidos como datacenters.
O presidente também defendeu que parte dessa estrutura seja destinada a informações brasileiras e anunciou a intenção de desenvolver uma inteligência artificial nacional.
“Temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tenha mais capacidade de energia renovável para trazer os datacenters necessários para acumular dados no Brasil. E essa gente vai ter que deixar uma parte dos datacenters para as informações brasileiras”, afirmou.
Ensino integral ampliado
Na educação, a proposta é ampliar o ensino em tempo integral até o fim do ensino médio e reforçar o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro para estudantes dessa etapa. Lula também prometeu expandir a iniciativa para universitários.
O presidente defendeu ainda mais investimentos em matemática, engenharia e ciências exatas, com o objetivo de reduzir a dependência de tecnologias desenvolvidas em outros países.
“Quero criar uma inteligência artificial brasileira”, declarou.
Regulamentação das big techs
Outro compromisso apresentado por Lula foi avançar na regulamentação das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs. O presidente criticou a influência dessas companhias no ambiente digital e nas eleições brasileiras.
“Vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime da vida real”, disse.
Lula também questionou o poder econômico das plataformas e defendeu que elas sejam responsabilizadas de acordo com as regras estabelecidas no país.
“Não podemos ter empresas monstruosas e grandes ganhando bilhões, não pagando nenhum imposto neste país, tentando direcionar o resultado eleitoral deste país”, acrescentou.
Saúde: modernização do SUS e tratamento do câncer
Na saúde, Lula afirmou que evitar a privatização do Sistema Único de Saúde (SUS) foi uma das motivações de sua campanha. Para o próximo mandato, prometeu ampliar os investimentos na modernização da rede pública e melhorar o atendimento a pacientes com câncer.
O presidente também citou a construção de um hospital inteligente em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), financiado pelo Banco dos Brics, e prometeu implantar 15 unidades de terapia intensiva (UTIs) inteligentes no país.
A proposta é utilizar tecnologia para melhorar o acompanhamento dos pacientes e contribuir para que o atendimento ocorra no tempo necessário.
Segurança pública: governo federal quer ampliar atuação
Na segurança pública, Lula defendeu uma participação maior do governo federal no enfrentamento à criminalidade. Sem citar diretamente a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, em tramitação no Senado, o presidente afirmou que os estados não conseguem enfrentar sozinhos todos os problemas da área.
Segundo ele, a Constituição de 1988 concentrou nos governos estaduais grande parte da responsabilidade pela segurança pública, modelo que, em sua avaliação, precisa ser revisto.
“Agora está provado que os estados não dão conta. Vamos entrar para devolver às mulheres, aos homens e aos trabalhadores a tranquilidade e a paz de que eles precisam”, afirmou.
Ao encerrar a fala sobre o tema, Lula defendeu proteção para a população e punição para quem comete crimes. “Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, concluiu.
Negociação com o Congresso será necessária
Apesar das promessas apresentadas no discurso da vitória, a execução das propostas dependerá, em diferentes casos, de recursos orçamentários, regulamentação e aprovação de medidas pelo Congresso Nacional.
O cenário legislativo será um dos desafios do novo mandato, segundo especialistas na área. Com uma composição parlamentar marcada pela presença expressiva de partidos de oposição, o governo deverá negociar para avançar em projetos que dependam de apoio de deputados e senadores.
A reeleição garante a Lula mais um mandato à frente do país, mas as mudanças anunciadas no discurso ainda precisarão sair do campo das promessas e se transformar em políticas públicas.
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