O leite está presente na mesa de muitas famílias, mas em uma propriedade rural de Rondonópolis (MT), a produção tem chamado atenção por uma característica específica: ele é do tipo A2A2. Diferente do leite comum, que pode conter as proteínas A1 e A2, o leite A2A2 possui apenas a caseína A2, considerada de melhor digestibilidade para algumas pessoas.
Segundo o médico veterinário Daniel França Mendonça, que também produz queijo a partir do leite comprado na propriedade, o A2A2 é um leite mais próximo daquele consumido no passado. Apesar de ser confundido com produtos sem lactose, a diferença não está na ausência desse açúcar, mas no tipo de proteína presente no leite.
“É o leite natural que os nossos antepassados usavam. A raça holandesa, há alguns anos, sofreu uma mutação genética natural, nada manipulado, e começou a produzir um leite A1. O leite comum tem a caseína A1 e A2. Já o leite A2A2 tem somente A2. Essa proteína produz menos um peptídeo, o BCM7, ligado à má digestão. Então, como ele tem menos esse peptídeo, a pessoa sente menos gases, estufamento e desconforto”, explica Daniel.
O veterinário reforça que o leite A2A2 não é livre de lactose e não possui diferença nutricional em relação ao leite convencional. O que muda, segundo ele, é a digestibilidade.
“Todo mundo acha que tem menos caloria, menos proteína ou menos cálcio. Não. O que muda é a qualidade dessa caseína para melhorar a digestibilidade, mas não a questão nutricional. Ele é tão rico nutricionalmente quanto o leite normal”, afirma.
Produção começa no cuidado com o rebanho
Na propriedade, quem está à frente do manejo é Isis Scalotin de Oliveira, produtora rural e médica veterinária. Ela acompanha de perto o rebanho e conhece cada vaca que faz parte da produção.
Atualmente, a fazenda tem cerca de 70 vacas, sendo 50 já identificadas como A2A2. A produção diária gira em torno de 280 litros, com expectativa de aumento conforme novas vacas entram em lactação.
Segundo Isis, o manejo prioriza a criação a pasto, com suplementação apenas para auxiliar na produção.
“Hoje nós já estamos com 70 vacas. Dessas, 50 já são A2A2. Devemos estar com uns 280 litros hoje, com tendência de aumentar agora com as novas vacas que pariram. Elas produzem em média de 12 a 25 litros. Não são vacas de alta produção, porque a maioria é mantida a pasto, só com suplemento de concentrado. A base ainda é o pasto, para ter um leite o mais natural possível, com uma gordura melhor”, relata Isis.
Para identificar quais animais produzem o leite A2A2, a propriedade realiza testes genéticos e também testes rápidos no leite. De acordo com Isis, o processo não torna a produção mais cara em si. O diferencial está na seleção do rebanho.
“Todas as nossas vacas são testadas. A gente faz tanto o teste de genotipagem, tirando um fiozinho do rabo e mandando para análise genética, como também o teste rápido do leite. Com uns pinguinhos de leite você já sabe se é ou não. Produzir esse leite não é mais caro. O diferencial é o teste e a seleção dos animais”, explica.
Leite vira queijo em laticínio familiar

Depois de sair da propriedade, o leite produzido pelas vacas de Isis segue para um laticínio na área urbana de Rondonópolis. No local, Daniel e a esposa, Dryelle de Melo Neto, trabalham em família na fabricação de queijo frescal feito com leite A2A2.
A produção média do laticínio é de cerca de mil litros por semana. O leite é coletado no campo, levado para a fábrica, pasteurizado e transformado em queijo, que depois segue para supermercados, padarias, frutarias e hotéis.
“Aqui na nossa fábrica nós produzimos o queijo frescal A2A2, feito com leite A2A2, sal rosa, livre de aditivos e conservantes. Todo dia a gente vai para o campo, pega o leite fresquinho, fabrica o queijo e coloca nas gôndolas dos supermercados, padarias, frutarias e hotéis. Nós processamos aqui uma média de mil litros por semana”, conta Adrielle.
Antes de virar queijo, o leite passa por pasteurização a 63°C por meia hora, etapa usada para eliminar bactérias. Depois, é resfriado até chegar a 36°C, temperatura ideal para receber o coalho e iniciar o processo de coagulação.
Para Daniel, a tendência é que o mercado do leite A2A2 cresça nos próximos anos, principalmente entre consumidores que buscam produtos mais naturais e de melhor digestão.