Lápide de vítima da chacina em Sorriso é furtada e achada fora de cemitério

A lápide de Cleci Calvi Cardoso, assassinada e estuprada por Gilberto Rodrigues dos Anjos, teve a lápide furtada e achada fora do Cemitério Municipal de Sorriso (MT), onde está sepultada. O objeto foi encontrado nesse domingo (15). A Delegacia de Roubos e Furtos da cidade está em busca dos suspeitos.

Lápide de Cleci Calvi foi furtada e achada fora de cemitério de Sorriso. – Foto: PJC

Segundo o delegado de Sorriso, Bruno França, a situação ocorreu após a família de Cleci Calvi fazer a troca da lápide e deixar a antiga no cemitério para ser descartado pela gerência do local. No entanto, o objeto foi furtado e já encontrado ao lado de fora do cemitério, no bairro Cidade Nova.

“Não era a lápide atual, era a antiga, mas ela foi sim subtraída do cemitério e os investigadores da Delegacia de Roubos e Furtos já estão atrás para identificar quem fez isso”, afirmou o delegado ao Primeira Página.

Chacina

Clevi Calvi foi morta com as filhas Miliane Calvi Cardoso, de 19 anos, Manuela Calvi Cardoso, de 13 anos e Melissa Calvi Cardoso, de 10 anos, em 2023 por Gilberto dos Anjos que invadiu a casa em que elas moravam, no bairro Florais da Mata. O criminoso foi condenado em 2025 a 225 anos de prisão pelos crimes de feminicídio, estupro e estupro de vulnerável.

Cleci Calvi Cardoso, de 45 anos, e suas filhas , 19 anos, Manuela Calvi Cardoso, 13 anos e Melissa Calvi Cardoso, de 10 anos, foram mortas, em Sorriso, em 2023
Cleci Calvi e as filhas foram mortas dentro de cada em Sorriso em 2023. – Foto: Reprodução

Conforme a perícia, naquele dia, a cerca elétrica da casa estava desligada. Havia dois cachorros ferozes na casa, mas um andaime evitou que o criminoso pisasse no chão. Do muro, ele conseguiu colocar os pés na janela do banheiro e entrar na casa.

leci foi até a cozinha, acendeu a luz e se deparou com Gilberto. Ele pegou uma faca na gaveta, enquanto ela avançou nele para se defender. Durante a luta corporal, ela foi esfaqueada. A filha mais velha, Miliane, saiu do quarto para tentar socorrer a mãe, mas, ao chegar na cozinha, ela já estava ferida letalmente, segundo o delegado. Ali, ele também esfaqueou a jovem, que mesmo ferida, correu de volta para o quarto, pegou a irmã Manuela, arrombou a janela e tentou fugir.

No entanto, o criminoso agarrou as vítimas e as arrastou de volta. Marcas de mão ensanguentada ficaram na cortina. Ainda conforme a perícia, Gilberto deitou Manuela ao lado da cama, a estuprou e, durante o ato, a matou com um corte na garganta.

Miliane estava agonizando, devido à gravidade do ferimento. Mesmo assim, o pedreiro a arrastou para sala, mas puxou de volta, por conta de uma porta de vidro pela qual ele poderia ser visto do lado de fora. No momento, em que Miliane era arrastada pelo cabelo, ela levou a mão dela até a mão de Gilberto para tentar se soltar, ele então esfaqueou a mão dela e parte do cabelo dela ficou entre os dedos. Em algum momento, um tufo de cabelo de Gilberto foi retirado, mas não foi localizado em lugar nenhum.

Na sequência, ele estuprou ela e a mãe, Cleci, que também estava agonizando. As duas morreram em seguida. No interrogatório, já na delegacia, ele afirmou que matou Melissa porque ela estava chorando muito e teve medo dela chamar atenção dos vizinhos ou até mesmo da polícia. Gilberto ainda disse que não a estuprou “porque já não estava mais com vontade”.

Porém, o delegado contou que a equipe de investigação foi surpreendida pela informação do legista de que, depois de tudo, ele as estuprou de novo.

“Ou seja, ele ficou bastante tempo na casa, se lavou antes de ir embora, pegou a calcinha e saiu pela mesma janela por onde entrou, por causa dos cachorros”, relatou.

Casa vitimas chacina de sorriso oto Reproducao
Casa em que as vítimas da Chacina de Sorriso foram mortas por Gilberto dos Anjos em Sorriso. – Foto: Reprodução

Dos corpos encontrados à prisão do autor

Segundo o delegado, parentes entraram em contato com o marido e pai das vítimas, Regivaldo Batista Cardoso, que estava viajando a trabalho, e comunicaram que não estavam conseguindo falar com Cleci, na sexta-feira. Após tentar contato e não conseguir, ele acionou a Polícia Militar. No dia seguinte, a equipe foi até a casa e não conseguiu entrar por causa dos cachorros no quintal, mas reparou que o ar-condicionado estava ligado e o carro encontrava-se na garagem.

A polícia tranquilizou Regivaldo, que continuou sem contato. No dia 27, ele solicitou ajuda novamente e a Polícia Militar percebeu que havia algo errado. Os policiais retornaram ao local e acionaram o Corpo de Bombeiros para conter os cachorros e conseguir entrar na casa. No local, o que os profissionais encontraram marcou a vida deles para sempre.

“Nós estávamos na delegacia, houve uma ligação de um colega do Corpo de Bombeiros e a notícia dada era tão absurda que o policial plantonista achou que tivesse entendido errado. Imediatamente, nós suspendemos todas as atividades e fomos até o local. Na casa, a gente viu uma janela com sinal de arrombamento e, por essa janela, a gente já conseguiu enxergar o corpo de uma das vítimas. O corpo em uma situação completamente assustadora e começamos a ter a dimensão do crime”, relatou Bruno.

O delegado contou que, ao abrir a porta da casa, a polícia encontrou mais dois corpos, com sinais visíveis de violência sexual, além de outro corpo em um dos quartos. Ao analisar a vizinhança, uma obra em andamento, com diversos homens trabalhando, chamou a atenção pelo acesso à casa, facilitado por um andaime no muro.

“Eu fui até mal interpretado quando disse que ali era um núcleo de suspeitos que tínhamos que eliminar antes de seguir com a investigação. Não estou dizendo que quem trabalha em obra tem perfil de estuprador, estava dizendo que o perfil do criminoso era homem de idade sexual ativa”, explicou.

Na casa, existiam várias impressões parciais de um chinelo. No entanto, o criminoso havia pisado em uma poça de sangue volumosa e, no passo seguinte, deixado uma impressão perfeita do calçado, segundo o delegado. Os pés das vítimas foram medidos e não restou dúvida de que a pegada era do criminoso. Quando o delegado estava indo em direção à obra, ele recebeu uma ligação.

“Era alguém da imprensa dizendo que uma seguidora queria falar comigo. Nessa hora, chega muita informação de vários lugares e a gente tem que filtrar, mas essa informação me chamou a atenção. Ela disse o seguinte: ‘o meu marido trabalha aí na obra e me contou algo que o incomodou. Ele me disse que quando descobriram os corpos na casa mais cedo, todos os pedreiros foram curiosos para olhar, menos um’. Aí já fiquei incomodado, por que essa curiosidade é do ser humano, não tem nada de sádico”, contou.

O delegado chamou os investigadores e disse que iriam interrogar todos os trabalhadores da obra, mas começariam por esse citado pela mulher na ligação. De acordo com Bruno, o principal suspeito era Gilberto e, durante a conversa, ele começou a se contradizer. Além disso, chegou a informação de que ele tinha dois mandados de prisão em aberto, um por latrocínio e outro por um crime semelhante a esse caso, uma mulher que tinha sido estuprada e tido a garganta cortada, em Lucas do Rio Verde (MT), mas que sobreviveu após um vizinho invadir a casa e impedir o crime.

“Nesse momento, a gente sabia que era ele, mas não tinha como o prender sem prova. Nós continuamos interrogando todos e descobrimos que na sexta-feira, só ele estava na obra porque ele era o caseiro e morava na obra. Na hora, ele disse que não tinha ouvido nada, o que não tem como ser verdade porque a obra é colada na casa das vítimas”, afirmou.

O delegado perguntou ao pedreiro se ele já havia sido preso ou tinha passagem pela polícia e ele respondeu que não. Então, o delegado pediu para Gilberto o levar até os pertences dele.

“Ao chegar lá, eu notei a ausência do chinelo e ele começou a negar que tinha chinelo. Insistimos até ele entregar o chinelo. Levamos até o perito, ele fez várias análises ao lado da impressão da pegada e afirmou que a impressão é do mesmo chinelo. Aí me deu um alívio por saber que estava indo na direção certa. Saí da casa e, ao me aproximar dele na obra, eu já não perguntei se foi ele, eu perguntei ‘por que você fez isso?’ E ele respondeu ‘me desculpe! Eu estava muito drogado’”, lembrou.

Gilberto Rodrigues dos Anjos, de 32 anos, ainda não passou por audiência de instrução após ter matado a mãe e 3 filhas em Sorriso. (foto: Reprodução)
Momento que Gilberto dos Anjos é preso apontado como principal suspeito. – Foto: Reprodução

Ao ser questionado sobre a arma e as roupas usadas no crime, ele indicou que a faca estava na casa e as roupas estavam em um contêiner nas obras. Na sacola, além das roupas sujas de sangue, tinha também uma calcinha que, pelo tamanho, a polícia supôs que seria da vítima de 13 anos. À polícia, Gilberto pegou a peça de roupa limpa da gaveta da vítima.

Enquanto o delegado e o suspeito seguiam para o fundo da obra, o criminoso alegou que tinha ido até a casa para roubar, as vítimas o atacaram e ele se defendeu. Nesse momento, a população foi percebendo que tinha um suspeito e começou uma movimentação de tentativa de linchamento. Um policial orientou a não algemar Gilberto para não confirmar à população que ele realmente era o autor do crime. Ele foi colocado na viatura sem algemas.

Na delegacia, o suspeito confessou o crime “sem nenhum tipo de remorso”. Segundo Bruno, era notável durante o interrogatório que a tristeza dele era bem mais por ter sido preso do que pelo crime.

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