Em mais um episódio do podcast Agro de Primeira, o debate foi direcionado ao atual momento da pecuária de reposição, marcado por preços recordes do bezerro, oferta reduzida e decisões cada vez mais estratégicas dentro da porteira. Apresentado por Edevaldo Nascimento e Tati Scaff, o programa recebeu o pecuarista sul-mato-grossense Giulian de Moraes Rios, produtor de ciclo completo na região central de Mato Grosso do Sul, para uma análise aprofundada sobre mercado, ciclo pecuário, eficiência produtiva e gestão no campo. (assista ao episódio completo no YouTube no vídeo acima ou ouça no Spotify pelo link abaixo)
Ao longo da conversa, Giulian compartilhou sua trajetória na atividade, os desafios enfrentados na recuperação da fazenda da família e a construção de um sistema produtivo baseado em técnica, planejamento e controle de custos, além de uma leitura clara sobre o cenário atual da cria, recria e engorda no Estado.
Bezerro valorizado e ciclo pecuário em evidência
Segundo o entrevistado, a forte valorização do bezerro observada nos últimos meses é reflexo direto do ciclo pecuário, da retenção de matrizes e dos anos recentes de margens apertadas para o criador. Agora, com preços históricos, o momento exige cautela, preparo e decisões amparadas por números.
“Só os mais bem preparados, quem tem bezerro pronto, é que vai surfar essa onda”.
Giulian de Moraes Rios
Segundo ele, não se trata de adivinhar o mercado, mas de observar o comportamento dos preços ao longo do tempo. “Quando olhamos os últimos 25 ou 30 anos, sempre que o bezerro rompeu o pico anterior de preço, ele acabou dobrando ao longo do ciclo”, completou.
Pecuarista analisa o ciclo e alerta que apenas quem se prepara ganha dinheiro com bezerro. (Foto: Reprodução)
Na avaliação do produtor, quem já está estruturado na atividade ainda encontra espaço para aproveitar o atual momento. Já entrar na cria impulsionado apenas pelo preço é um risco elevado, já que o retorno depende do tempo de produção, do comportamento futuro do mercado e da eficiência do sistema.
Qualidade genética e eficiência fazem a diferença
Outro ponto central da entrevista foi a crescente valorização da qualidade genética. Com quase duas décadas de uso contínuo de inseminação artificial em tempo fixo (IATF), Giulian explicou que o investimento consistente em genética, o descarte rigoroso de matrizes improdutivas e o manejo bem ajustado têm garantido bezerros mais valorizados, mesmo em um mercado aquecido.
“O mercado está pagando mais por qualidade. Quem entrega um animal que responde bem em sistemas mais intensivos consegue resultado acima da média”, destacou.
Mercado aquecido, ciclo pecuário e decisões que separam lucro de risco. (Foto: Chico Gomes)
O pecuarista detalhou a estratégia adotada na propriedade, que fecha o ciclo produtivo sem engordar os machos, priorizando a venda dos bezerros à desmama e a terminação de fêmeas. De acordo com ele, a escolha está diretamente ligada à logística, à infraestrutura disponível e à análise de rentabilidade, reforçando que não existe modelo único, mas sim o modelo mais eficiente para cada realidade.
Durante o bate-papo, ainda foram abordados temas como taxa de prenhez, pressão de seleção no rebanho, importância da gestão de indicadores zootécnicos, cruzamento industrial e os riscos de decisões tomadas com base apenas na euforia do mercado.
Um talento além do campo
Antes de encerrar o episódio, os apresentadores revelaram um lado pouco conhecido do entrevistado. Além de pecuarista, Giulian de Moraes Rios já teve uma trajetória de destaque na música sertaneja, tendo atuado como músico profissional da dupla Maria Cecília & Rodolfo no início da carreira nacional dos artistas. Inclusive, parte dos recursos obtidos nesse período foi fundamental para os primeiros investimentos na estruturação da fazenda.
Uma história que resume bem o espírito do episódio: visão de longo prazo, disciplina e foco em fazer bem feito — seja no palco ou no campo.
Talento escondido: antes do campo, Giulian também viveu o mundo da música. (Foto: Arumí Figueiredo)