A conhecida Fila dos Ossinhos, realidade de pessoas em condições de pobreza, que buscam doações de ossos em um açougue de Cuiabá, se tornou tema de uma reportagem do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da recém-graduada em Jornalismo, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Sandy Mio.
Na reportagem, Sandy fala sobre a contradição da distribuição de ossobuco na capital do estado que tem o maior rebanho bovino do Brasil. Assista abaixo:
Há aproximadamente 19 anos, pessoas buscam doações de ossobuco no açougue localizado no bairro CPA II, em Cuiabá. A distribuição ocorre duas vezes por semana, nas segundas e quintas-feiras, sempre às 6h30.
No entanto, antes mesmo da cidade acordar, dezenas de pessoas já esperam na fila pelas doações, que se tornaram uma das únicas formas de alimentação de muitos.
Essa realidade, apesar de ter ficado mais conhecida durante a pandemia de covid-19, entre 2020 e 2021, ainda ocorre semanalmente, como alertou Sandy Mio em entrevista ao Primeira Página.
TCC aborda Fila dos Ossinhos
Para compor o trabalho, a acadêmica entrevistou o economista Guilherme Miqueleto, que chamou atenção para o fato de que Mato Grosso é um dos maiores produtores agropecuários do país, principalmente de carne bovina. Ao mesmo tempo, questões associadas à pobreza e dificuldade de acesso à alimentação adequada são fatos notados com facilidade no estado, em um cenário que ele chama de “desigualdade de renda”.
Já para a nutricionista Yasmim Taques, também entrevistada pela estudante, esse cenário se resume a uma “falta de valorização da vida”, já que os prejuízos causados ao crescimento de crianças e adolescentes por privação de alimentação correta, por exemplo, ainda irão ser notados na saúde anos mais tarde, durante o envelhecimento dessas pessoas.
Sandy contou, ainda, que sempre passava pela região do açougue onde o alimento é distribuído e, em certo momento, percebeu que as pessoas ainda iam até o local em busca dos ossos, apesar do fato ter deixado de ser mencionado nas mídias ao longo do tempo após a pandemia.
Depois, a ideia de colocar esse tema no TCC surgiu de uma conversa da estudante com a mãe, Doralice Mio, que inclusive ajudou na produção audiovisual. Daí em diante, iniciou o processo de cerca de dois meses de produção do documentário com gravações de imagens externas e entrevistas.
Sandy ainda citou uma dificuldade enfrentada ao longo das gravações: conseguir entrevistas as pessoas que frequentavam a fila, já que muitas delas sentiam vergonha em estarem ali ou darem entrevista.

Em meio à crítica revelada no audiovisual, Mio alerta para o fato de que ela não é direcionada exatamente ao agronegócio, mas ao contraste entre grandes produções mato-grossenses e o cenário de pobreza e fome encontrados na capital do estado.
“Somos considerados um dos estados mais ricos do país em questões de exportações, de soja, milho… Mas, olha que engraçado, também temos um alto índice de insegurança alimentar aqui em Cuiabá, a capital do agronegócio”, disse Sandy.
Para conseguir fazer as captações de imagem, a estudante adotou a mesma rotina das pessoas que iam até a fila dos ossinhos por necessidade.
“Fiz a mesma coisa que as entrevistadas me contaram, acordei 4h da manhã, cheguei 5h e a fila já estava grandinha. Não contei, mas já tinha umas cinquenta pessoas. São duas filas, masculina e feminina. A masculina sempre tinha mais, incluindo idosos. Nesse dia eles deram os ossinhos às 6h, 1kg por pessoa”, contou.
Apaixonada por Jornalismo desde o Ensino Médio, Sandy se viu diante de uma situação inesperada enquanto preparava a reportagem: a resiliência de quem precisa de tanto.
“Tem gente que tem tudo e reclama de tudo… Enquanto essas pessoas, poxa, elas são de uma felicidade mesmo estando lá. Uma moça, a Cecília, caiu na risada quando ganhou ossobuco”, relatou emocionada.
Repercussão nacional
Em 2021, o tema da fila dos ossinhos foi abordado Jornal Nacional, na Rede Globo, em uma reportagem produzida pela repórter Ianara Garcia, da TV Centro América de Cuiabá.
Era véspera de Natal e dezenas de cuiabanos não tinham alimento para a ceia. Na época, o açougue já realizada doações de ossos com carne há cerca de 10 anos. A procura aumentou durante a pandemia.

A dona do açougue na época, Samara Rodrigues, explicou à reportagem que as doações eram feitas três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, com presença de aproximadamente 200 pessoas por dia.
Com o tempo, a notícia da atitude de bondade se espalhou por mais regiões e a fila diária foi aumentando para mais de 400 pessoas. Diante disso, o açougue precisou reduzir para dois os dias de doações.
Naquele ano, além dos ossos, o estabelecimento ainda doou cestas básicas, disponibilizadas por voluntários, aos cidadãos.
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Na 10ª cidade mais rica do Brasil, pessoas se aglomeram para doação de ‘ossinhos’