O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica iniciada em 2016. Enquanto os homicídios de mulheres diminuíram 5,5%, as mortes motivadas pela condição de gênero cresceram 4% e chegaram ao equivalente a mais de quatro vítimas por dia.
Os números constam do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nesta quinta-feira (23). O levantamento mostra que a violência contra a mulher avança mesmo diante da redução geral das mortes violentas no país.
Feminicídios bateram recorde em 2025
Número de vítimas registradas no Brasil ano a ano
Feminicídios
Além dos feminicídios consumados, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio em 2025, alta de 5,9%. Isso significa que, para cada mulher morta, quase outras três foram vítimas de uma tentativa de assassinato por razões de gênero.
Outros crimes que frequentemente antecedem a morte também aumentaram. O país registrou 123.871 casos de perseguição, conhecida como stalking; 60.830 ocorrências de violência psicológica; 286.270 agressões no ambiente doméstico; 788.531 ameaças e 132.025 descumprimentos de medidas protetivas.
Este último número representa 362 violações de ordens judiciais por dia, 15 por hora ou uma a cada quatro minutos.
Feminicídios aumentam mesmo com menos mulheres assassinadas
Em 2025, 3.539 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil, considerando também os feminicídios. No ano anterior, haviam sido 3.728 vítimas.
Embora o total tenha caído 5,5%, os feminicídios passaram de 1.504 para 1.571. Com isso, 44,4% das mulheres assassinadas no país foram mortas por razões de gênero, maior proporção desde 2015, quando o feminicídio entrou no Código Penal.
O dado revela movimentos diferentes dentro da violência letal. As mortes de mulheres relacionadas a contextos como disputas territoriais, criminalidade urbana e mercados ilícitos diminuíram, mas a violência ocorrida dentro de casa, praticada principalmente por parceiros e ex-parceiros, continuou crescendo.
Desde outubro de 2024, o feminicídio é considerado um crime autônomo no Brasil. A legislação estabelece que o crime ocorre quando uma mulher é morta por razões relacionadas à condição do sexo feminino, incluindo situações de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação.
Quem são as vítimas de feminicídio no Brasil?
Mulheres negras, entre 25 e 44 anos e mortas dentro de casa são maioria entre as vítimas.
Raça e cor das vítimas
65,1% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras
Percentuais calculados entre os registros que apresentavam informação sobre raça ou cor da vítima.
Idade das vítimas
56,5% tinham entre 25 e 44 anos
A faixa de 25 a 29 anos concentrou a maior parcela das vítimas.
Relação com o autor
79,8% dos autores identificados eram companheiros ou ex-companheiros
A relação entre vítima e autor não foi informada em parte significativa dos registros.
Onde os crimes aconteceram
62,5% dos feminicídios aconteceram dentro de uma residência
Residência da vítima ou do autor 62,5%
O ambiente doméstico concentrou mais que o dobro da proporção verificada nos demais homicídios de mulheres.
Instrumento utilizado
50,8% dos crimes foram cometidos com armas brancas
Armas brancas incluem facas, canivetes e outros objetos perfurocortantes.
O retrato mais frequente
Dentro de casa e pelas mãos de alguém com quem a vítima mantinha ou havia mantido uma relação afetiva
Mortas em residências 62,5%
As mulheres negras continuam sendo atingidas de forma desproporcional. Entre as vítimas de feminicídio com informação racial disponível, 65,1% eram negras e 34% eram brancas.
Nas demais mortes violentas intencionais de mulheres, a desigualdade racial foi ainda maior: 74,6% das vítimas eram negras e 24,6%, brancas.
A faixa etária mais atingida pelo feminicídio foi a de 25 a 29 anos, responsável por 17,2% das vítimas. Somadas, as mulheres entre 25 e 44 anos representaram 56,5% dos casos.
Segundo o anuário, esse período da vida costuma coincidir com maior inserção em relações conjugais, convivência doméstica, casamentos, separações e dissoluções de relacionamentos — situações frequentemente associadas ao risco de violência de gênero.
A taxa de feminicídio entre mulheres de 25 a 29 anos chegou a 3,2 vítimas para cada grupo de 100 mil, quase sete vezes a observada entre adolescentes de 12 a 17 anos.
Companheiros e ex-companheiros são quase 80% dos autores
Entre os feminicídios cuja relação entre vítima e autor foi informada, companheiros e ex-companheiros responderam por 79,8% dos crimes.
Os parceiros atuais representaram 60,9% dos autores identificados, enquanto os ex-companheiros foram responsáveis por 18,9%. Outros familiares aparecem em 12,1% dos registros, outros conhecidos em 5,3% e desconhecidos em apenas 2,8%.
O cenário é diferente nos demais homicídios de mulheres, nos quais pessoas desconhecidas da vítima representam 62,1% dos autores identificados.
Os dados reforçam que o feminicídio é, sobretudo, uma violência doméstica e praticada dentro de relações íntimas ou familiares.
Apesar disso, o anuário alerta que a relação entre vítima e autor não foi preenchida em 74,8% dos registros de feminicídio. A ausência dessa informação dificulta uma análise mais detalhada e a formulação de políticas de prevenção.
Feminicídios crescem mais de 300% no Amapá e Acre lidera registros
O Acre registrou a maior taxa de feminicídios do país em 2025, com 3,2 mortes para cada grupo de 100 mil mulheres. Em seguida aparecem Rondônia, com 2,9; Mato Grosso, com 2,7; Mato Grosso do Sul, com 2,6; e Tocantins, com 2,5.
Estados com as maiores taxas de feminicídio
Acre lidera o ranking nacional, seguido por Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
| Posição | Estado | Taxa de feminicídio |
|---|---|---|
| 1º | Acre | 3,2 por 100 mil mulheres |
| 2º | Rondônia | 2,9 por 100 mil mulheres |
| 3º | Mato Grosso | 2,7 por 100 mil mulheres |
| 4º | Mato Grosso do Sul | 2,6 por 100 mil mulheres |
| 5º | Tocantins | 2,5 por 100 mil mulheres |
| 6º | Amapá | 2,2 por 100 mil mulheres |
| 7º | Piauí | 2,1 por 100 mil mulheres |
| 8º | Distrito Federal | 1,9 por 100 mil mulheres |
| 9º | Alagoas | 1,8 por 100 mil mulheres |
| 9º | Pernambuco | 1,8 por 100 mil mulheres |
| 10º | Espírito Santo | 1,7 por 100 mil mulheres |
| 10º | Paraíba | 1,7 por 100 mil mulheres |
| 10º | Roraima | 1,7 por 100 mil mulheres |
A lista considera as dez maiores posições do ranking. Estados com a mesma taxa aparecem empatados. Os dados correspondem aos feminicídios registrados em 2025.
O Amapá apresentou o maior crescimento proporcional: 347,7%. O número de vítimas passou de duas, em 2024, para nove em 2025.
Também foram registrados aumentos expressivos no Acre, com alta de 74,3%; em Rondônia, com 66%; no Tocantins, com 52,8%; em Sergipe, com 49,4%; e na Paraíba, com 37,8%.
As maiores reduções ocorreram no Amazonas, com queda de 31,7%; Maranhão, com 26,2%; Paraná, com 20,7%; e Roraima, com 16,8%.
Em números absolutos, São Paulo liderou, com 270 vítimas, seguido por Minas Gerais, com 177; Rio de Janeiro, com 105; Bahia, com 102; Pernambuco, com 88; e Paraná, com 87.
O anuário pondera, porém, que diferenças na investigação e na classificação policial podem afetar a comparação entre os estados. O Ceará, por exemplo, apresentou a maior taxa de homicídios de mulheres do país, com 6,2 mortes por 100 mil, mas uma das menores taxas de feminicídio, com 1 caso por 100 mil.
No estado, somente 15,8% dos homicídios de mulheres foram classificados como feminicídio. Em Sergipe, Distrito Federal e Acre, a proporção ficou próxima de 70%.
Centro-Oeste tem maior taxa de feminicídios e tentativas
Ao considerar conjuntamente os feminicídios consumados e tentados, o Centro-Oeste apresentou a maior taxa do Brasil: 9,8 vítimas por 100 mil mulheres. Na sequência aparecem o Norte, com 8; o Sul, com 5,2; o Nordeste, com 4,8; e o Sudeste, com 4,2.
As maiores taxas estaduais de tentativas de feminicídio foram registradas no Amapá, com 14,9 casos por 100 mil mulheres; Mato Grosso, com 12,5; e Acre, com 12,3.
Em todo o país, foram contabilizadas 8.864 tentativas de homicídio de mulheres, incluindo as tentativas de feminicídio. O número equivale a 24 vítimas por dia ou aproximadamente uma por hora.
Desse total, 4.189 ocorrências foram classificadas especificamente como tentativas de feminicídio, contra 3.940 em 2024.
Uma em cada nove vítimas tinha medida protetiva
O anuário revela que 70 mulheres foram mortas mesmo tendo uma medida protetiva de urgência ativa. O dado foi fornecido por apenas 18 unidades da federação, que juntas contabilizaram 797 feminicídios.
Isso significa que, nesses estados, uma em cada nove vítimas já havia procurado ajuda e obtido uma ordem judicial de proteção antes de ser assassinada.
Medida protetiva é descumprida a cada 4 minutos
Mais de 132 mil violações foram registradas em um ano e mulheres foram assassinadas mesmo após conseguirem proteção judicial.
Quando a proteção judicial é violada
O descumprimento pode representar um sinal de alerta dentro da escalada da violência contra a mulher.
Onde as medidas foram mais descumpridas
Estados com as maiores taxas de registros por 100 mil habitantes em 2025.
Paraná 195,3
registros por 100 mil habitantes
Rio Grande do Sul 123,7
registros por 100 mil habitantes
Rondônia 108,7
registros por 100 mil habitantes
Mato Grosso do Sul 96,0
registros por 100 mil habitantes
Santa Catarina 93,8
registros por 100 mil habitantes
Roraima 90,6
registros por 100 mil habitantes
Distrito Federal 90,0
registros por 100 mil habitantes
Mortas mesmo com medida protetiva
Apenas 18 unidades da federação informaram quantas vítimas tinham proteção judicial ativa no momento do feminicídio.
70 mulheres foram assassinadas mesmo com medida protetiva ativa — uma em cada nove vítimas nos estados que forneceram a informação.
O crescimento pode indicar tanto uma maior capacidade de registrar as violações quanto dificuldades para impedir que os agressores se aproximem das vítimas. Quando combinado com as mortes de mulheres que tinham medidas ativas, porém, o dado revela os limites da proteção estatal.
Para cada feminicídio, Brasil registra 502 ameaças
O levantamento comparou o número de feminicídios consumados com outros registros de violência contra mulheres. Para cada mulher morta por razões de gênero em 2025, o país contabilizou, em média:
- 502 registros de ameaça;
- 182 agressões físicas em contexto de violência doméstica;
- 84 descumprimentos de medidas protetivas;
- 79 casos de perseguição;
- 39 ocorrências de violência psicológica;
- três tentativas de feminicídio.
A comparação não significa que todos esses episódios envolveram as mesmas mulheres ou aconteceram necessariamente nessa ordem. Ela mostra, entretanto, a dimensão dos crimes que podem anteceder a violência letal.
De acordo com o anuário, a violência de gênero costuma ser cumulativa e progressiva. Comportamentos de controle, humilhações, ameaças e perseguições podem avançar para agressões, violações de ordens judiciais e tentativas de assassinato.
Agressões atingem uma mulher a cada dois minutos
As diferenças entre os estados são grandes. Enquanto o Paraná registrou 517,2 agressões por 100 mil mulheres, o Ceará informou taxa de apenas 11. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contrastes dessa dimensão podem refletir não apenas a incidência da violência, mas também diferenças na procura por ajuda, no atendimento e na classificação das ocorrências.
Uma mulher é agredida a cada 2 minutos no Brasil
Registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica cresceram 2,6% em um ano.
Estados com as maiores taxas
Número de vítimas registradas para cada grupo de 100 mil mulheres.
Paraná 517,2
vítimas por 100 mil mulheres
Mato Grosso 514,6
vítimas por 100 mil mulheres
Rondônia 469,7
vítimas por 100 mil mulheres
Rio de Janeiro 468,7
vítimas por 100 mil mulheres
Santa Catarina 449,6
vítimas por 100 mil mulheres
Estados com mais vítimas
São Paulo concentrou quase 69 mil registros em 2025.
Onde os registros mais subiram ou caíram
Variação entre 2024 e 2025.
Maiores aumentos
Acre +21,1%
Mato Grosso do Sul +19,4%
Amazonas +17,4%
Maiores reduções
Roraima −40,5%
Ceará −23,2%
Amapá −19,3%
País soma quase 789 mil ameaças contra mulheres
A ameaça foi o crime mais frequente entre os indicadores analisados. Foram 788.531 vítimas mulheres em 2025, alta de 0,5% em relação ao ano anterior.
Santa Catarina teve a maior taxa do país, com 1.733 registros por 100 mil mulheres. Depois aparecem Amapá, com 1.491,3; Distrito Federal, com 1.477,9; Amazonas, com 1.416,9; Paraná, com 1.283,2; e Mato Grosso do Sul, com 1.140,6.
O Acre apresentou o maior crescimento anual, de 68,2%, seguido pelo Amazonas, com alta de 60%.
Perseguição cresce 30% e chega a 14 casos por hora
Os registros de perseguição contra mulheres cresceram 30,1% em 2025 e chegaram a 123.871 casos. Isso representa cerca de 14 ocorrências por hora.
O Amapá teve a maior taxa, com 301,3 registros por 100 mil mulheres. São Paulo aparece em seguida, com 207,1, e concentrou sozinho cerca de 40% de todas as ocorrências do país: foram 49.250 vítimas.
Os maiores crescimentos ocorreram no Amazonas, com alta de 73,5%; Maranhão, com 52,6%; São Paulo, com 46,6%; Alagoas, com 43,8%; e Paraíba, com 39,3%.
A perseguição pode ocorrer pessoalmente ou por meios digitais e envolve condutas repetidas que ameaçam a integridade física ou psicológica, invadem a privacidade ou restringem a liberdade da vítima.
Violência psicológica cresce quase 17%
O Brasil contabilizou 60.830 registros de violência psicológica contra mulheres, aumento de 16,9%.
O crime inclui comportamentos que provocam dano emocional ou buscam controlar ações, crenças e decisões por meio de ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem ou limitação do direito de ir e vir.
Roraima apresentou a maior taxa, com 1.173,5 registros por 100 mil mulheres, mais de 20 vezes a média nacional. Mato Grosso teve a segunda maior, com 192,3, após crescimento de 70,3%.
O anuário ressalta que os registros policiais não representam toda a violência vivida pelas mulheres. Medo, vergonha, dependência econômica, naturalização de comportamentos abusivos e descrença na resposta das autoridades mantêm parte dos casos fora das estatísticas.
Os números, portanto, mostram apenas as situações que chegaram ao conhecimento das instituições. A dimensão real da violência contra a mulher pode ser ainda maior.
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