A indústria brasileira está em alerta diante da escassez global de enxofre, insumo essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. A falta da matéria-prima já preocupa o setor e pode afetar o abastecimento para a próxima safra, caso a oferta não seja normalizada nos próximos meses.
O problema, segundo representantes da indústria, já vinha sendo acompanhado antes do agravamento dos conflitos no Oriente Médio, mas ganhou força com a instabilidade internacional. O Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) afirma que os estoques chegaram a níveis críticos e que há risco de paralisação na produção.
O enxofre é usado na fabricação de fertilizantes fosfatados, fundamentais para a agricultura brasileira. Sem o insumo em quantidade suficiente, as indústrias podem ter dificuldade para manter as operações e atender à demanda do campo.
De acordo com o diretor executivo do Sinprifert, Bernardo Silva, a situação não afeta apenas o Brasil. Empresas de países fornecedores de matéria-prima para o mercado brasileiro também enfrentam redução nos estoques. Um dos exemplos citados é o grupo OCP, estatal do Marrocos considerada a maior produtora mundial de fertilizantes fosfatados, que teria registrado queda de cerca de 40% nos estoques.
Além da menor oferta global, medidas adotadas por alguns países também pressionam o mercado. A China, por exemplo, chegou a restringir exportações de fosfatados, enquanto outros países passaram a priorizar o abastecimento interno. Com isso, menos produto fica disponível no comércio internacional.
O Sinprifert afirma que vem alertando o governo federal sobre o risco desde outubro do ano passado. O setor também pediu apoio do Itamaraty para buscar novas alternativas de fornecimento, mas relata dificuldade para encontrar produto disponível no mercado.
Para a indústria, uma das possíveis saídas seria a adoção de medidas de apoio ao preço dos fertilizantes, nos moldes de políticas já usadas em outros setores, como o de combustíveis. A ideia seria reduzir o impacto dos custos para os produtores rurais.

Os dados de importação reforçam a preocupação. Levantamento da consultoria StoneX aponta que o Brasil importou cerca de 630 mil toneladas de enxofre entre janeiro e maio deste ano, volume 45,7% menor que o registrado no mesmo período do ano passado.
Além da queda nas compras externas, os preços também subiram. Segundo a consultoria, as cotações da matéria-prima nos portos brasileiros estão acima de US$ 1.200 por tonelada, uma alta de quase 140% em relação aos valores observados no início da guerra no Oriente Médio.
Para o analista de inteligência de mercado da StoneX, Tomás Pernias, a redução das tensões no Oriente Médio pode aliviar parte da pressão sobre os preços, mas a recomposição da oferta global tende a ocorrer de forma gradual. Ele avalia que ainda há incerteza sobre quando e em qual intensidade os valores poderão recuar.
A menor importação de enxofre pelo Brasil pode estar ligada tanto à disputa internacional pelas cargas disponíveis quanto ao encarecimento do insumo. Com os preços elevados, algumas empresas podem optar por reduzir a própria produção de fertilizantes, diminuindo também a necessidade de compra da matéria-prima.
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