A decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros ampliou a disputa pelo mercado brasileiro de etanol. O combustível foi citado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) como um pontos de investigação que justificou a medida.
A discussão ganhou força após a secretária da Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, afirmar que o Brasil mantém produtores americanos em desvantagem ao aplicar uma tarifa de 18% sobre o etanol importado.
Em publicação nas redes sociais, a secretária disse que a cobrança reduziu em mais de 87% as exportações do etanol americano ao mercado brasileiro desde 2018 e classificou a decisão do governo de Donald Trump como uma medida para “responsabilizar o Brasil” e defender os produtores norte-americanos.
“Essa situação está chegando ao fim. O etanol americano vive seu melhor momento até agora e, sob a liderança do presidente Donald Trump, estamos trabalhando para abrir mercados, garantir condições mais equilibradas de concorrência e colocar os agricultores e produtores dos Estados Unidos em primeiro lugar”, afirmou a secretária.
O tema também aparece no relatório final da investigação conduzida pelo USTR. O documento afirma que representantes da indústria americana do etanol defenderam a aplicação de uma tarifa, argumentando que a medida permitiria recuperar parte das perdas provocadas pelas tarifas brasileiras.
Por outro lado, as justificativas apresentada pelo governo americano são contestadas por diferentes entidades brasileiras ligadas ao mercado de etanol. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), em resposta enviada para o governo norte americano, a tarifa brasileira de 18% sobre o etanol está em conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
No comunicado a instituição ainda afirmou que a taxa é aplicada de forma não discriminatória aos países que não possuem acordo preferencial com o Mercosul e permanece abaixo do limite de 35%.
Mato Grosso acompanha debate
O tema tem reflexos para Mato Grosso, principal produtor brasileiro de etanol de milho e segundo maior produtor nacional de etanol. O estado responde por cerca de 62% da produção brasileira de etanol de cereais e produziu aproximadamente 7,27 bilhões de litros de biocombustível na safra 2025/26, volume que deve crescer novamente na temporada 2026/27.
Assim como a Unica, o coordenador de Inteligência de Mercado do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Rodrigo Silva, também aponta que a tarifa brasileira está em acordo com a OMC. Segundo ele, apesar da repercussão da medida anunciada pelos Estados Unidos, o impacto direto sobre o setor deve ser limitado.
“Hoje, aproximadamente 6% das exportações brasileiras de etanol tiveram como destino os Estados Unidos no primeiro semestre deste ano. É um mercado importante, mas bem menor do que já foi em outros momentos. O principal consumidor do etanol brasileiro é o próprio Brasil”, contextualizou Rodrigo.
Silva acrescenta que o setor também conta com novas frentes de expansão para a demanda pelo biocombustível, como o aumento da mistura de etanol na gasolina e o avanço dos veículos híbridos flex. A expansão do etanol de milho também é apontado como uma nova frente, que segundo a Unica, pode ter influenciado a diminuição da importação de combustível norte-americano.
Na avaliação do economista, a discussão comercial entre Brasil e Estados Unidos deve ser acompanhada com atenção, mas não altera, neste momento, a perspectiva de crescimento da cadeia produtiva em Mato Grosso.
“O mercado americano continua sendo relevante, porém representa uma parcela pequena das exportações brasileiras de etanol. O setor hoje possui uma base de demanda mais diversificada, tanto no mercado interno quanto em outros países, o que reduz a exposição a decisões pontuais de um único comprador”, completou.

Cartela diversificada de clientes
O coordenador lembra ainda que os Estados Unidos não são o único destino do etanol brasileiro. Segundo ele, o país mantém relações comerciais com diversos mercados, entre eles Coreia do Sul, Países Baixos, Canadá, Japão e Reino Unido, além de outros compradores que demandam biocombustíveis em diferentes volumes ao longo do ano.
“O Brasil já possui uma carteira diversificada de clientes no mercado internacional. Isso reduz a dependência de um único destino e permite que o setor busque alternativas caso ocorram mudanças nas condições comerciais com algum parceiro específico”, afirmou.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), no primeiro semestre deste ano, a Coreia do Sul liderou as importações (48,4%) de todo o volume exportado pelo Brasil. Os Estados Unidos apareceram na segunda posição (15,7%), seguidos pelos Países Baixos (13,7%).
Veja o panorama de exportação brasileira em 2025:
Bioind vê medida como proteção ao mercado americano
Na avaliação do diretor-executivo da Bioind MT, Wellington Andrade, a tarifa anunciada pelos Estados Unidos representa uma medida voltada à proteção da indústria americana de etanol.
“A tarifa de 25% sobre o etanol brasileiro representa uma medida protecionista que contraria os princípios do livre comércio, dificulta a transição energética e penaliza um dos biocombustíveis mais sustentáveis do mundo. Em vez de restringir o comércio, Brasil e Estados Unidos deveriam aprofundar a cooperação em biocombustíveis”, defendeu o diretor.
O diretor também avalia que o etanol brasileiro ocupa uma participação relativamente pequena no mercado americano e que a medida tende a criar barreiras para a ampliação do comércio internacional de biocombustíveis.
“Mesmo nos anos de maior exportação, o etanol brasileiro representa uma parcela pequena do mercado americano e complementa a oferta doméstica. A tarifa tem efeito limitado sobre a produção dos Estados Unidos, mas cria distorções comerciais e reduz os incentivos para investimentos em tecnologias voltadas à descarbonização”, completou.
Próximas etapas de negociação
O peso do etanol nas negociações entre os dois países foi reforçado pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
Na última sexta-feira (17), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o biocombustível foi o único tema tratado de forma mais explícita pelos Estados Unidos durante as conversas com o Brasil.
Enquanto não há acordo, o governo federal começa nesta terça-feira (21) uma série de reuniões com representantes de diferentes setores que poderão ser afetados pela nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, o tarifaço.
Os encontros serão coordenados pelo MDIC e deverão contar com a participação do vice-presidente e do ministro da Fazenda, Dario Durigan. A sobretaxa entra em vigor nesta quarta-feira (22).
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