O Mercado Municipal Miguel Sutil, um dos espaços mais tradicionais de Cuiabá, começa a ganhar uma nova forma após décadas de abandono. A obra de reconstrução do prédio, localizado na esquina da Avenida Generoso Ponce com a Rua Joaquim Murtinho, chegou a 65% de execução e entrou em fase avançada de acabamento.
A previsão é que a obra seja entregue no início do segundo semestre de 2026. O projeto é conduzido pela CS Mobi Cuiabá, dentro da parceria público-privada firmada ainda na gestão do ex-prefeito Emanuel Pinheiro (MDB).
Parte de memória de Cuiabá
Mais do que uma obra de infraestrutura, a reforma mexe com a memória afetiva da cidade. Inaugurado em janeiro de 1963, durante a gestão do prefeito Vicente Hermínio Vuolo, o Mercado Municipal foi criado como ponto de organização do abastecimento de alimentos, ligando o campo à cidade.
À época, o prédio contava com estrutura de concreto, 40 boxes, farmácia, casa de frios, peixaria, setor de cereais e uma área específica para venda de carnes.

Nas décadas seguintes, o espaço se consolidou como um ponto de encontro da cuiabania. Entre os anos 1970 e 1980, era frequentado por pessoas de diferentes classes sociais, de donas de casa a políticos, e se tornou referência do comércio popular no Centro Histórico.
O nome Miguel Sutil é uma homenagem ao bandeirante Miguel Sutil de Oliveira, ligado à história da exploração do ouro em Cuiabá no século XVIII.
Com o passar dos anos, no entanto, o mercado perdeu força. A falta de manutenção, boxes abandonados, problemas sanitários, ausência de identidade visual e relatos de violência e uso de drogas deram ao espaço uma imagem de abandono.
Renovação
Agora, a proposta é transformar o antigo mercado em um novo polo de comércio, gastronomia, convivência e turismo. O empreendimento terá mais de R$ 100 milhões em investimento, 23,4 mil metros quadrados de área construída, sete pavimentos, três andares de estacionamento, mais de 300 vagas e até 100 pontos comerciais climatizados.
Entre os destaques do projeto estão um rooftop com vista 360° da cidade, cerca de 2 mil metros quadrados de cobertura vegetal, praça de alimentação climatizada, escadas rolantes, elevadores e estrutura moderna para receber moradores e turistas.

Segundo Alan Guedes, gerente geral da CS Mobi Cuiabá, as equipes trabalham atualmente em frentes estruturais e de acabamento. Todas as lajes já foram concretadas, a instalação de vidros está em fase final, o granito dos pisos está sendo aplicado, os chillers do sistema de climatização estão em instalação e as escadas rolantes já foram colocadas. Quatro elevadores também estão no canteiro para serem instalados.
Cerca de 150 trabalhadores atuam diariamente na obra.
Polêmica
Apesar do avanço físico, o projeto ainda carrega polêmicas. A parceria público-privada (PPP) que envolve a construção do novo Mercado Municipal e a gestão de parte da mobilidade urbana do Centro de Cuiabá tem duração prevista de 30 anos e foi alvo de questionamentos na Câmara Municipal.
A obra também passou pelo radar da CPI da CS Mobi, que investiga pontos do contrato firmado com a Prefeitura de Cuiabá. Vereadores já visitaram o canteiro e cobraram informações sobre prazos, valores, execução e impactos da concessão.
Outro ponto sensível envolve os antigos permissionários. Comerciantes que atuavam no antigo mercado afirmam temer não conseguir permanecer no novo espaço por causa dos valores de locação dos boxes, que, segundo eles, podem chegar a R$ 20 mil por mês.

A atual gestão chegou a defender a anulação da licitação e o rompimento da PPP. O argumento usado foi que o modelo firmado pela gestão anterior não teria garantido proteção suficiente aos trabalhadores tradicionais do mercado.
O ex-prefeito Emanuel Pinheiro, por outro lado, defende que o processo seguiu o que determina a legislação municipal das PPPs. Segundo ele, foram realizadas audiências públicas com a sociedade civil, Câmara Municipal e Ministério Público.
Emanuel também afirma que apenas 18 permissionários estavam legalmente habilitados no antigo mercado e que esses trabalhadores receberam prioridade, incluindo pagamento de aluguel durante o período das obras e preferência para ocupação de boxes no novo empreendimento.
A CS Mobi informou anteriormente que a tabela de locação é compatível com valores praticados em empreendimentos semelhantes. A concessionária também afirmou que mantém diálogo com os antigos permissionários, mas destacou que eventuais descontos ou benefícios não estavam previstos no edital de concessão e cabem ao Executivo Municipal.
Procurada, a atual gestão informou que não há porta-voz disponível para falar sobre o Mercado Municipal.
Entre lembranças, disputas contratuais e expectativa de entrega, o novo Mercado Municipal Miguel Sutil avança para a fase final com o desafio de recuperar não apenas um prédio histórico, mas também o papel de ponto de encontro popular que marcou gerações de cuiabanos.
A previsão é que o local seja entregue até o final deste ano.