Delegado é suspeito de mentir em julgamento de ex-policial condenado por matar PM em Cuiabá

Nessa sexta-feira (29), o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) pediu que a Corregedoria da Polícia Civil investigue o delegado Guilherme de Carvalho Bertoli por suspeita de mentir durante o julgamento do ex-investigador Mário Wilson da Silva Gonçalves, acusado de matar o policial militar Thiago de Souza Ruiz, em Cuiabá.

O pedido foi feito após o julgamento de Mário Wilson, realizado entre os dias 12 e 14 deste mês. Segundo o MP, o delegado apresentou informações que não aparecem em nenhum documento da investigação e que foram desmentidas por testemunhas e outros policiais que atuaram no caso.

Delegado Guilherme de Carvalho Bertoli é suspeito de mentir em julgamento do ex-policial condenado por matar PM em Cuiabá. - Foto: Alair Ribeiro
Delegado Guilherme de Carvalho Bertoli é suspeito de mentir em julgamento do ex-policial condenado por matar PM em Cuiabá. – Foto: Alair Ribeiro

Procurado pelo Primeira Página, Guilherme Bertoli negou ter mentido e explicou que ainda não foi notificado pela instituição.

“Após analisar o documento, verificarei com os advogados as medidas administrativas e judiciais cabíveis! De algo pode ter certeza, nunca houve mentira da minha parte”, disse.

Durante o depoimento, o delegado disse que recebeu uma ligação de Mário Wilson logo após o crime informando que havia “matado um noiado”. Ele também disse ter sido a primeira autoridade a chegar ao local e que encontrou papelotes de cocaína próximos ao corpo da vítima.

Mas, o Ministério Público alega que essa versão nunca foi registrada no inquérito policial, em laudos periciais, boletins de ocorrência ou autos de apreensão. Além disso, nenhuma droga foi recolhida na cena do crime.

O investigador da Polícia Civil Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves, réu pela morte do policial militar Thiago de Souza Ruiz, em abril de 2023 – Foto: Alair Ribeiro
Ex-investigador Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves foi condenado pela morte do PM Thiago de Souza Ruiz, em abril de 2023 – Foto: Alair Ribeiro

O MP também afirma que o delegado declarou ter repassado essas informações a outros três delegados que participaram do caso. No entanto, durante o julgamento, dois deles negaram ter recebido qualquer relato sobre a suposta existência de drogas no local.

Para os promotores, a narrativa apresentada por Bertoli ajudava a reforçar a principal tese da defesa de Mário Wilson: de que ele acreditava estar diante de um usuário de drogas e não de um policial militar.

Outro ponto destacado pelo Ministério Público é que, mesmo afirmando ter sido o primeiro policial a chegar à cena do crime, Bertoli não teria adotado medidas para preservar o local ou apreender os supostos entorpecentes que disse ter visto.

O documento também aponta que o delegado não participou da investigação do homicídio e, mesmo assim, apresentou em plenário opiniões e versões diferentes das conclusões da Delegacia de Homicídios (DHPP) e da própria Corregedoria da Polícia Civil.

Thiago de Souza Ruiz foi morto a tiros pelo investigador da polícia civil em Cuiabá - Foto: reprodução
Thiago de Souza Ruiz foi morto a tiros pelo investigador da polícia civil em Cuiabá – Foto: Reprodução

Para o MP, há indícios de que o delegado tenha favorecido o investigador, que era seu subordinado na época dos fatos. Por isso, o órgão entende que sua conduta pode configurar crime de falso testemunho e também infrações disciplinares.

Por nota, a Polícia Civil informou que a Corregedoria-Geral recebeu a requisição do MP para a instauração de procedimento administrativo contra o delegado e que adotará providências cabíveis.

Além disso, o caso foi encaminhado a uma Promotoria Criminal de Cuiabá, que vai analisar se há elementos para abertura de investigação criminal contra o delegado.

Investigador perdeu cargo e foi condenado por matar PM

Neste mês, o investigador da Polícia Civil, Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves, foi condenado a dois anos de detenção a ser cumprida em regime aberto, pelo homicídio do policial militar Thiago de Souza Ruiz, morto a tiros em uma conveniência, no dia 27 de abril de 2023, em Cuiabá.

O tribunal do júri durou três dias e foi encerrado no último dia 14. Os jurados reconheceram que o investigador foi autor dos disparos que atingiram o militar e não o absolveram.

Foi dito, ainda durante julgamento, que o réu agiu de forma negligente ao discutir com o policial militar, consumiu bebida alcóolica momentos antes de desarmar a vítima, o que gerou o conflito.

Em mais um desdobramento do caso, a Justiça acolheu os embargos de declaração apresentados pelo MP e reconheceu a perda do cargo público do policial civil Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves.

Nova acusação após júri

Após o julgamento, o ex-policial Mário Wilson se tornou réu por um novo crime: tentativa de homicídio contra o investigador Walfredo Raimundo Adorno Moura Júnior.

A decisão judicial assinada nessa terça-feira (26) aponta que a acusação preenche os requisitos legais para abertura da ação penal.

O novo processo é um desdobramento do julgamento em que Mário Wilson foi condenado pela morte do policial militar Thiago Ruiz.

O investigador da DHPP, Walfredo, emocionado em depoimento onde relembra morte do amigo. - Foto: Alair Ribeiro
O investigador da DHPP, Walfredo, emocionado em depoimento onde relembra morte do amigo em 2023. – Foto: Alair Ribeiro

Durante o júri, o investigador Walfredo revelou pela primeira vez que também teria sido alvo dos disparos efetuados pelo então colega de corporação e afirmou que só não foi atingido porque conseguiu recuar durante a confusão.

Segundo o Ministério Público, o relato é “coerente e compatível” com as imagens de câmeras de segurança, com conduta motivada por razão fútil, uma vez que a reação violenta ocorreu porque a Walfredo tentou separar a briga.

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