cooperativismo transforma fruto nativo em renda permanente no campo

O pequi não cai apenas no chão do Cerrado. Ele cai no centro da economia de municípios inteiros. A cada safra, o fruto sustenta famílias, ativa cooperativas, movimenta estradas e conecta produtores locais a mercados cada vez mais amplos.

Em Alto Paraguai, essa transformação ganhou forma a partir da organização coletiva. Produtores rurais que por décadas venderam o fruto de maneira informal decidiram mudar a lógica da atividade ao se organizar na Cooperrede, cooperativa que reúne agricultores de diferentes assentamentos da região e opera uma agroindústria voltada ao beneficiamento do pequi.

“A cooperativa trouxe para o produtor aquilo que ele mais precisava: satisfação, garantia e credibilidade”, resume Douglas Trindade, presidente da Cooperrede. “Antes, a gente colhia, vendia rápido e perdia muito. Hoje, o produtor sabe que tem para quem vender, sabe o preço e consegue planejar”

A unidade de beneficiamento funciona como eixo da cooperativa. Mesmo implantada no fim do ciclo, conseguiu processar 11,4 toneladas de pequi, evitando que parte da produção se perdesse ainda no campo. Atualmente, 16 famílias produzem diretamente na agroindústria, com potencial médio de até 250 toneladas por ano quando toda a cadeia estiver plenamente estruturada.

Pequenos produtores chegam a faturar R$ 60 mil por safra. – Foto: assessoria

Com a estrutura, o fruto passou a ser padronizado, armazenado em câmaras frias e comercializado ao longo de mais tempo. O impacto aparece na renda. Há produtores que chegam a faturar R$ 60 mil por safra, enquanto outros alcançam cerca de R$ 17 mil, conforme a área produtiva. Em média, um hectare de pequi pode gerar cerca de R$ 55 mil por ano, com baixo custo de produção.

“O pequi sempre esteve aqui, mas faltava estrutura”, explica Douglas. “Quando você organiza, beneficia e vende de forma coletiva, o fruto deixa de ser só safra e vira atividade econômica de verdade.”

Além da comercialização, a cooperativa abriu caminho para o acesso ao sistema financeiro formal. Com emissão de notas fiscais, contratos e organização da produção, os produtores passaram a planejar investimentos, acessar crédito e manter o dinheiro circulando dentro da própria comunidade.

A rotina de quem vive da safra

Entre essas famílias está a produtora rural Miriam Grádic Petrenko, que há mais de dez anos vive do pequi, em Terra Nova do Norte. Integrante da Associação Sumaúma, ela mantém cerca de 600 pés e acompanha de perto cada etapa da produção, em uma atividade que exige atenção constante e conhecimento acumulado ao longo dos anos.

Mais do que colher, Miriam conhece o tempo do fruto. Sabe o ponto ideal, identifica as diferenças entre as variedades e reconhece, ainda na árvore, quais pequis têm maior valor. Há frutos maiores, mais raros, e até variedades brancas, pouco comuns na região. Em uma das safras, um exemplar chamou a atenção: sem a casca, o caroço chegou a pesar 268 gramas.

A rotina exige deslocamento e organização. Para levar a produção até a unidade de processamento da associação, Miriam percorre 42 quilômetros de estrada de terra — trajeto que faz parte do próprio processo produtivo e influencia diretamente na conservação do fruto.

Além da colheita, ela também domina o beneficiamento, etapa decisiva para manter a qualidade do pequi. Segundo a produtora, o fruto precisa ser refrigerado antes do armazenamento. Caso contrário, cria gases dentro da embalagem, estufa e perde valor. É um conhecimento construído na prática, repetido safra após safra.

Mesmo com as variações naturais da produção, Miriam mantém o abastecimento de mercados como Cuiabá e outras cidades, consolidando o pequi como base da renda familiar.

Organização que transforma produção em renda

É dentro dessa engrenagem coletiva que o trabalho ganha escala. A Associação Sumaúma, da qual Miriam faz parte, organiza o beneficiamento e a comercialização do pequi, conectando produtores a mercados que antes estavam fora do alcance da comunidade.

A iniciativa surgiu diante de um problema recorrente no campo: a perda de produção. Sem estrutura para escoar o fruto, produtores acumulavam prejuízos a cada safra.

“Era muita produção e não tinha para quem vender. Boa parte do pequi acabava sendo perdida”, explica a presidente da associação, Nayara Cândido de Almeida.

A criação da cozinha de processamento mudou esse cenário. Com a estrutura, o pequi passou a ser beneficiado, armazenado e comercializado com mais regularidade, permitindo que a produção deixasse de depender apenas da venda imediata.

Hoje, cerca de 30 famílias integram a associação, que se consolidou como uma fonte direta de renda dentro da própria comunidade. O crescimento aparece nos números. A produção, que começou em torno de 4 mil quilos por safra, hoje varia entre 12 e 15 toneladas por ano.

Segundo Nayara, o avanço acompanha não apenas a organização coletiva, mas também o crescimento das plantações.

“Tem muitos produtores que têm árvores novas. A cada ano, esses pés vão produzindo mais, e a gente consegue aproveitar melhor essa produção”, afirma.

Com a estrutura, o pequi deixou de ser um fruto com alto índice de perda e passou a circular por diferentes mercados. A maior parte da produção segue para Goiânia, além de atender cidades como Cuiabá e Sorriso.

Para a presidente da associação, a principal mudança foi dar previsibilidade ao trabalho no campo.

“Hoje o produtor sabe que tem para quem vender. O pequi virou uma renda, deixou de ser algo que podia se perder”, resume.

Mercado aquecido e disputa pelo fruto

A força da organização local dialoga com o comportamento do mercado regional. Em Ribeirão Cascalheira, a safra mais recente consolidou a importância econômica do pequi. Foram cerca de 520 toneladas colhidas, quase 30% a mais que no ciclo anterior, segundo estimativas da Empaer.

Durante o período de colheita, nove compradores anteciparam a compra do fruto, garantindo abastecimento para Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Distrito Federal e centros comerciais estratégicos como Itumbiara, Rio Verde e Cuiabá. O movimento confirma que o pequi deixou de ser apenas um produto local e passou a integrar uma cadeia regional de abastecimento.

Na ponta da produção, o impacto chega a cerca de 1,5 mil famílias, que tiram do pequi uma parte importante da renda anual. A caixa de 30 quilos tem sido vendida a R$ 1,00 o quilo. Um valor que pode parecer modesto, mas que, diluído ao longo de um ciclo que tradicionalmente se estende por cerca de 100 dias, sustenta economias inteiras.

A produção diária chega a 1.200 caixas, mantendo um fluxo contínuo de trabalho entre colheita, transporte, beneficiamento e comercialização.

Do cooperativismo local à escala industrial

Enquanto cooperativas comunitárias se consolidam, iniciativas de maior escala avançam em Mato Grosso. Em Pontal do Araguaia, a Coopcerrado, com assessoria técnica do Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado (Cedac) e apoio do Programa REM MT, implanta uma plataforma industrial voltada ao processamento de frutos da sociobiodiversidade.

Segundo Alessandra Karla da Silva, coordenadora técnica do Cedac, a agroindústria de óleos vegetais entrou na fase final de implantação e passou a realizar testes industriais.

“Estamos concluindo a estrutura e, a partir disso, iniciamos os testes para que a operação comece na próxima safra”, afirma.

Em plena capacidade, a plataforma terá potencial para produzir cerca de 250 toneladas anuais de óleo de pequi e até 2 milhões de litros de álcool por ano.

O modelo prevê contratos formais com cooperados, preços compatíveis com o mercado e garantia de compra da matéria-prima. Atualmente, 1.041 cooperados já estão mobilizados em Mato Grosso para abastecer a unidade, com perspectiva de ampliação nos próximos anos.

Política pública e regulação

A cadeia do pequi em Mato Grosso é amparada por legislação específica. A Lei nº 9.011, de 2008, proíbe o corte da árvore e estabelece diretrizes para o uso do fruto.

Segundo a secretária de Agricultura Familiar de Mato Grosso, Andreia Fujioka, o foco do Estado é estruturar economicamente a atividade.

“O governo tem apoiado o extrativismo por meio do programa MT Produtivo, com investimento em planos de negócios, fortalecimento de agroindústrias e ampliação de mercados. A ideia é dar condições para que o produtor não dependa apenas da venda in natura, mas consiga agregar valor e ter mais estabilidade de renda”, afirma.

De acordo com a secretária, os investimentos seguem um cronograma escalonado, acompanhando os ciclos produtivos e a capacidade de organização das comunidades envolvidas.

Crédito destrava a renda no campo

Além da organização das cooperativas, o acesso ao crédito tem sido um dos fatores que sustentam o crescimento da cadeia do pequi em Mato Grosso. Instituições financeiras cooperativas têm ampliado a presença junto à agricultura familiar, permitindo que produtores invistam em estrutura, beneficiamento e comercialização.

“O cooperativismo contribui para organizar economicamente os produtores, ampliar o acesso a mercados e agregar valor aos produtos, reduzindo vulnerabilidades individuais”, afirma Cristiane Sassagima, consultora de crédito rural do Sicredi.

Segundo a instituição, o acesso a crédito com condições mais adequadas tem permitido estruturar etapas essenciais da cadeia, como a coleta organizada, o beneficiamento e a comercialização, tornando o extrativismo uma fonte de renda recorrente e mais segura para as famílias.

Além do financiamento, o modelo cooperativo também atua na educação financeira e no planejamento da produção, o que ajuda os produtores a organizarem melhor o negócio e reduzirem riscos ao longo do ciclo produtivo.

“Esse movimento gera renda, impulsiona os negócios locais e traz resultados concretos para as comunidades, especialmente nas áreas rurais”, completa Sassagima.

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