Encontrar carapaças e fósseis de animais marinhos no coração geográfico do continente sul-americano pode parecer, à primeira vista, um erro de cartografia ou um enigma biológico.
Contudo, a explicação para essa aparente contradição está gravada nas camadas rochosas de Chapada dos Guimarães (Mato Grosso). A cerca de 400 milhões de anos atrás, a região serrana abrigava um oceano raso e pulsante — uma memória de pedra que hoje sustenta o projeto do município para obter o reconhecimento internacional como Geoparque Global da UNESCO.
A transição ambiental ao longo das eras geológicas moldou o cenário exuberante que atraiu a atenção de avaliadores internacionais. Onde hoje se erguem os imponentes paredões avermelhados e cachoeiras, já existiram mares continentais e, posteriormente, um vasto campo de dunas desérticas.
O segredo das rochas: do mar devoniano ao deserto de arenito
A presença de vida marinha no centro do continente remonta ao Período Devoniano. Naquela época, as águas salgadas cobriam a região e serviam de abrigo para espécies de trilobitas — artrópodes marinhos de carapaça segmentada, aparentados com os crustáceos e insetos modernos.
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), publicado na revista científica Terr@ Plural, destaca que os primeiros registros de trilobitas descritos em território mato-grossense foram identificados ainda em 1893, justamente no conjunto de rochas batizado como Grupo Chapada.
A evolução geológica da região é marcada por transformações drásticas:
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O mar raso: Período de sedimentação marinha que depositou camadas ricas em fósseis e minerais no fundo do antigo oceano.
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O deserto antigo: Com o recuo das águas e a mudança climática continental, a área transformou-se em um deserto. O vento e a pressão acumulada ao longo de eras compactaram a areia, dando origem às formações de arenito.
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A escultura natural: A ação da água e do vento esculpiu os paredões e cânions que hoje emolduram o ecossistema do cerrado mato-grossense.
Os números do território e as marcas de Chapada dos Guimarães
Alguns dados geográficos e administrativos ajudam a mensurar a relevância histórica, ambiental e logística desse território no coração da América do Sul:
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1.600 km de distância: É o trecho que separa o Mirante do Centro Geodésico do Oceano Atlântico e do Oceano Pacífico, marcando a localização central do município no continente.
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32.630 hectares de área protegida: Extensão do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, criado em 12 de abril de 1989 e gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), dividida entre os municípios de Chapada e Cuiabá.
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R$ 18,5 milhões em investimentos: Aporte obrigatório previsto para um período de 30 anos no processo de concessão dos serviços de visitação e estruturação turística do parque, analisado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
O que significa o título de Geoparque Global da UNESCO?
Para que o município conquiste o selo internacional, a candidatura passa pelo crivo do Conselho Global de Geoparques, órgão composto por 12 especialistas internacionais que analisam relatórios técnicos elaborados após vistorias de campo.
Diferente de uma Unidade de Conservação tradicional, o selo de geoparque não impõe barreiras físicas nem cria novas restrições de uso do solo. A chancela da UNESCO funciona como uma chancela de desenvolvimento sustentável e vitrine científica, que alia a preservação geológica ao turismo pedagógico e ao fortalecimento da economia local.
Paralelamente à riqueza geológica, Chapada dos Guimarães acumula reconhecimentos na gestão do turismo. O projeto Chapada 360º, que utiliza óculos de realidade virtual para apresentar os atrativos da região aos visitantes, conquistou o 3º lugar na categoria de cidades de 10 mil a 25 mil habitantes do Prêmio Cidades Inovadoras, promovido pelo Governo de Mato Grosso.
Sobre a candidatura de Chapada dos Guimarães
Por que existem fósseis de animais marinhos no centro de Mato Grosso?
Há cerca de 400 milhões de anos, no Período Devoniano, a região de Chapada dos Guimarães era coberta por um mar raso continental. Animais como os trilobitas habitavam essa área e tiveram seus restos preservados nas rochas do Grupo Chapada.
O que é o Centro Geodésico da América do Sul?
Localizado em um mirante a cerca de 8 km da cidade de Chapada dos Guimarães, o ponto marca o centro geográfico do continente sul-americano, situado a aproximadamente 1.600 km de distância tanto do Oceano Atlântico quanto do Oceano Pacífico.
O selo de Geoparque da UNESCO altera as regras de visitação do Parque Nacional?
Não. O selo da UNESCO não cria restrições de acesso nem substitui a gestão ambiental do ICMBio. Ele atua como um selo de relevância internacional para incentivar a conservação, a pesquisa científica e o geoturismo sustentável na região.
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