A cantora gospel Ayttena Leorranny, de 36 anos, chamou a atenção nas redes sociais ao unir referências do sertanejo, da música cristã e da vida no campo em um novo ritmo batizado por ela de “agrogospel”. Publicado no dia 27 de julho, o vídeo repercutiu rapidamente na internet, dividiu opiniões e levou a música para públicos diferentes.
Nascida em Rondonópolis e criada em Primavera do Leste, Ayttena conta que a canção foi inspirada na própria história e na relação da família com o campo. Atualmente, ela se divide entre Primavera do Leste e Goiânia (GO), onde mantém compromissos pessoais e profissionais.
A música havia sido lançada cerca de três meses antes, mas ainda não tinha ganhado repercussão. Segundo a cantora, naquele período, ela enfrentava o início de uma gestação de risco e não conseguiu trabalhar na divulgação da canção.
O vídeo estava pronto, mas havia sido esquecido entre os arquivos do celular. Ao encontrá-lo, Ayttena decidiu publicá-lo com uma pergunta simples aos seguidores: “Já ouviram essa canção?”.
No dia seguinte, a publicação começou a acumular comentários e compartilhamentos. Inicialmente, segundo Ayttena, grande parte das reações era negativa.
“Foi o dia inteiro só de comentários de ódio e cancelamento. No segundo dia, começou a cair a ficha. Eu pensei: ‘Meu Deus, fui cancelada’. Eu chorei porque não estava entendendo”, contou.
Entre críticas e apoio
A repercussão mudou depois que a cantora Tangela Vieira, apontada por Ayttena como uma das referências do sertanejo gospel em Goiás, publicou um vídeo usando a música. A partir daquele momento, o conteúdo também passou a alcançar o público evangélico e abriu espaço para opiniões favoráveis à proposta.
Em poucos dias, a música começou a ser usada em vídeos de diferentes atividades. Entre os registros citados pela artista estão pessoas andando a cavalo, plantando alface, trabalhando em oficinas mecânicas e atendendo clientes em salões de beleza.
“Agora, quando abro a rede social, só aparece isso. Tem um monte de gente usando a canção. Virou uma loucura que eu ainda nem estou entendendo”, disse.
Apesar da repercussão, Ayttena afirma que não criou a música apenas para provocar uma discussão nas redes sociais. Segundo ela, a intenção era aproximar a música gospel de um estilo que sempre fez parte de sua vida e homenagear os trabalhadores do campo.
História ligada ao campo
A relação da cantora com o meio rural começou ainda na infância. O pai, que era fazendeiro, foi assassinado quando ela tinha 1 ano e 8 meses. Aos 4 anos, mudou-se com a família de Xinguara (PA) para Primavera do Leste, onde enfrentou dificuldades financeiras.
Na adolescência, entre viagens a Goiás e períodos em Mato Grosso, Ayttena trabalhou com o avô materno no cultivo e na venda de hortaliças. A rotina começava ainda de madrugada, com a colheita dos alimentos e a preparação das barracas para as feiras.
“A gente levantava às 3h ou 4h, passava o dia plantando, colhendo e fazendo mudas. Quando não fazia feira, entregava nos mercados. Esse foi o sustento da nossa família”, relembrou.
Depois da morte da avó, a cantora também passou cerca de três anos morando com o avô em uma chácara simples. Nesse período, ajudava a cuidar dele, produzia e vendia queijos e acompanhava a criação de gado.
Hoje, aos 84 anos, o avô materno é o único dos avós da cantora que ainda está vivo. A vontade de homenageá-lo enquanto ele ainda poderia acompanhar o trabalho foi uma das motivações para que Ayttena decidisse lançar a música.
“Essa música é algo que eu vivo. Para mim, é uma homenagem a todos, porque nenhum agricultor começou grande ou teve uma trajetória fácil. Eu entendo de verdade o que é colocar a mão no arado”, afirmou.
Do sertanejo ao gospel
Ayttena canta desde a infância e começou a se apresentar publicamente durante a adolescência. Antes de seguir na música cristã, participou de apresentações em bares e de um programa musical de Primavera do Leste ao lado de uma amiga.
Após se aproximar da igreja evangélica, passou a cantar louvores e, em 2012, gravou o primeiro CD profissional. Desde então, lançou outros dois discos, além de clipes e trabalhos voltados às plataformas digitais.
Embora tenha construído a carreira principalmente com músicas pentecostais, ela conta que sempre foi apaixonada pelo sertanejo. A ideia de aproximar o ritmo do universo gospel, porém, esbarrava no receio da reação do público.
As perdas familiares enfrentadas nos últimos anos fizeram com que a cantora reconsiderasse o projeto. Viúva após o primeiro marido morrer em um acidente de trabalho, Ayttena se casou novamente e está grávida. Conforme relatado por ela, a gestação é considerada de risco.
A cantora afirma que esperava provocar algum debate ao apresentar o “agrogospel”, mas não imaginava que o vídeo alcançaria públicos tão diferentes.
“Eu decidi quebrar o tabu. Entendo que isso não vai contra a minha fé. Só quis agradecer a Deus e homenagear os agricultores, grandes e pequenos. Algumas pessoas entenderam de outra forma”, concluiu.
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