A resolução do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) que estabeleceu critérios para atividades agropecuárias em áreas úmidas, permitindo a exploração sustentável, como a aplicação de pasto, se tornou alvo de críticas de especialista em meio ambiente e de membros do setor produtivo.
A doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e professora da Unemat, Carolina Joana da Silva, alerta que a expansão da pecuária nas chamadas áreas úmidas pode contribuir para “drenar” a água destes ambientes.
“A tendência é de seca. Esses ambientes vão ficar secos para a exploração de gado. É uma estratégia de uso. O gado pode ser confinado, sem necessariamente afetar as áreas úmidas, não precisa invadir as áreas úmidas para aumentar a pecuária, não são áreas produtivas para a pecuária. Essas áreas podem não existir mais, extinguir um ecossistema”, advertiu.
A Coordenadora da rede Pantanal Inct Wetscape (CNPQ) e especialista em ecologia de áreas úmidas, doutora Cátia Nunes da Cunha, avalia que os impactos da atividade pecuária em áreas úmidas podem resultar na perda da biodiversidade da fauna e flora pantaneira, comprometendo processos importantes como a polinização, a regeneração natural da vegetação.
“As áreas úmidas são ecossistemas que se formaram a milhares de anos e abrigam enorme diversidade de plantas e animais adaptados a essas condições naturais de um período de inundação e um de seca. Abelhas, borboletas e insetos polinizadores dependem das flores das plantas desses campos para sobreviver. Aves, répteis, pequenos mamíferos utilizam esses ambientes para alimentação, reprodução e abrigo. Muitas dessas espécies podem desaparecer”, alertou.

Para além dos animais que já vivem nas áreas úmidas, há ainda atenção a adaptação dos bovinos ao local, caso sejam movidos para este ecossistema. O biólogo Luiz Eduardo Saragiotto descreve que processos de adaptação podem levar longos períodos.
“Por mais que eu tenha uma vegetação adaptada a um ambiente com bastante oferta de água, e o gado? Será que ele vai se adaptar a viver nesse local de tanta umidade? Será que o casco desse animal vai suportar a umidade excessiva? É preciso observar se o gado está preparado para essa condição”.

Por outro lado, o analista de pecuária da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), Marcos Carvalho, avalia que a pecuária é atividade desenvolvida há cerca de 300 anos no Pantanal e crê na adaptação do gado ao ambiente, visto como animal resistente a diversos tipos de solo.
“Em Mato Grosso, 90% do gado é Nelore. São animais extremamente resistentes tanto à seca como ao excesso de umidade. Possuem cascos pretos, que são mais resistentes. Ele é uma verdadeira máquina de adaptabilidade. Enxergamos como uma vantagem grande fazer essa transformação da área utilizando capins adaptados para maior rentabilidade e desenvolvimento para a região”, enfatizou.

Já o diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi, analisa que a resolução do Consema trata de uma regulamentação sobre a exploração da pecuária nas áreas úmidas, como forma de balizar o que já é desenvolvido na região, citando ainda que os animais facilmente se adequam ao ambiente.
“O município de Poconé tem a maior região do Pantanal do Mato Grosso, hoje tem um plantel de 500 mil cabeças de gado. As áreas úmidas no Araguaia também tem rebanho expressivo. Então isso não é um problema. Os bovinos que se adaptaram no Brasil. Eles não são oriundos da América, vieram da Europa, da Índia. São animais que têm capacidade de adaptação para esse tipo de terreno extraordinária, são acostumados com predadores como a onça-pintada. Então não há nenhuma preocupação em termos de adaptação da nossa fauna de bovinos”.
Mato Gross permite pasto em áreas úmidas
Publicada na quarta-feira (1º) em Diário Oficial do Estado (DOE), a resolução permite a substituição de vegetação nativa campestre em áreas úmidas por pastagens com espécies forrageiras adaptadas ao solo encharcado, desde que haja autorização ambiental e respeitadas áreas de preservação permanente.
As atividades potencialmente poluidoras ou degradadoras dependerão de prévio licenciamento ambiental para serem executadas. O documento que autoriza deverá exigir estudos específicos que considerem os critérios pedológicos, hidrológicos e de vegetação, bem como medidas de mitigação e compensação do impacto da atividade.
A resolução autoriza ainda a pecuária em confinamento apenas para pequenos produtores e empreendedores familiares rurais, desde que a atividade seja destinada à subsistência, conforme determina o Código Florestal.
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MT permite pasto para substituir vegetação nativa em áreas úmidas