Autismo — O diagnóstico está superestimado ou diagnosticávamos menos?

Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, uma neuroatipia ou neurodivergência, que está presente desde o nascimento ou início da infância, em que há um modo diferente de processamento da informação pelo cérebro. Não se trata de uma doença, apenas uma forma diversa de ser, de acordo com a percepção do mundo e de como essa informação é recebida, interpretada e respondida. 

A resposta é vista em duas vertentes principais: primeiro, na dificuldade de se comunicar e de interagir socialmente; segundo, nos comportamentos restritos e repetitivos. No primeiro caso, há dificuldade para iniciar ou manter uma conversa, interpretar gestos, tom de voz e expressões faciais, ou de compartilhar emoções e interesses; no segundo caso há necessidade de rotina, interesses em assuntos específicos, movimentos repetitivos, hiper ou hipossensibilidade a sons, luzes, cheiros e texturas. 

É um espectro com variações individuais, classificando o autista em três níveis de suporte, desde o nível um de suporte, onde há dificuldade social, mas com muito esforço, o autista tenta mascará-la; até o nível três, onde a comunicação verbal é pouca ou nenhuma, há movimentos repetitivos mais evidentes e clara dependência de terceiros. 

De acordo com novos critérios das classificações diagnósticas mundiais, houve um aumento substancial do número de indivíduos enquadrados nesse espectro. Quando partimos para a pergunta se diagnosticávamos muito ou pouco no passado recente, a resposta certa é:  que diagnosticávamos menos do que devíamos, e o aumento atual reflete mais precisão, estudo e conhecimento, não exagero. Não significa que tenhamos errado no passado, quer dizer, simplesmente, que alguns tipos de personalidade e algumas formas atípicas de autismo eram ignoradas, não estavam catalogadas nas classificações diagnósticos anteriores, incluídas, porém, nas atuais. 

Pais e professores  passaram a estudar mais o assunto, compreendê-lo melhor e perceber bem precocemente algumas características, que distinguem algumas crianças das outras. Os autistas são poucos no universo de muitos, porém bem mais do que eram no passado, não que tenha havido crescimento no número de casos, mas porque mudaram-se os critérios. Atualmente, dificuldades de interação social, ainda que sem atraso intelectual, que antes eram vistas apenas como timidez ou falta de boa educação, hoje são sinais sutis que podem estar dentro do espectro autista, assim como muitos adultos que relatam ter sofrido bullying na infância e na adolescência, devido ao seu comportamento diferente do seu grupo etário. 

As classificações diagnósticas mais recentes utilizam critérios mais amplos e unificam subtipos, como autismo atípico e síndrome de Asperger em um único espectro e incluem comportamentos antes excluídos ou ignorados. Os estudos modernos, com metodologias mais acuradas, como o SEED do CDC, revelam uma prevalência de um caso de autismo em cada trinta e seis crianças, isso a partir do momento que se passou a catalogar os casos mais leves, em vez de detectar apenas aqueles mais graves. 

Quando se refaz estudos, há tendência maior de enganos para mais ou para menos, o que não é diferente no caso do transtorno do espectro autista, que assim como foi amplamente subdiagnosticado, hoje há um sobrediagnóstico, estimado entre cinco a nove por cento dos casos. Esse engano é cometido, principalmente, nos diagnósticos apressados, geralmente em crianças pequenas, em que a birra comumente existe. São diagnósticos confeccionados, comumente de forma apressada, por profissionais não especializados, que muitas vezes se valem apenas de avaliações clínicas superficiais e de exames complementares, como testes neuropsicológicos e outros. 

Mas, ainda assim, sabe-se que a subnotificação do passado foi muito maior do que os exageros diagnósticos do presente. Não há, portanto, uma epidemia de diagnósticos falso-positivos. O subdiagnóstico, nos tempos atuais, é mais encontrado em meninas, em indivíduos adultos e nas minorias étnicas. É importante que aqueles, que estão inseridos no TEA, tenham seus direitos garantidos, daí a importância do diagnóstico clínico e funcional corretos, uma vez que, legalmente, a escola e o ambiente profissional devem lhe proporcionar a adaptação necessária para seu melhor desempenho. 

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